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quarta-feira, fevereiro 13, 2008

esvaziamento

as palavras sobem num turbilhão
sufocadas num grito gigante
de raiva
de frustração
de ódio negro e solto
as mãos tremem tanto
quero rasgar o peito, quero magoar
quero matar
preciso partir alguma coisa
seja o que for
mesmo que seja eu

a lua ilumina segundos
depois perde-se nas sombras
as nuvens que tapam a rua escondem-me
nem as montras me vêm
tanto vidro, tanto reflexo, afasto-me da tentação
não são eles o meu alvo
preciso quebrar
preciso de um alvo


o ódio enche-me a boca
enche-me todo o corpo, na noite fria suo ódio
destilo raiva negra e envolvente
já na noite escura uma linha de pilares espera-me
aprecio a metáfora
e mergulho na sua direcção
voam membros descontrolados
os cães lá longe uivam a minha dor

respiro com o peso de todo o meu corpo
cada molécula de oxigénio arrancada à força da paisagem
a descarga de adrenalina é tal que as pernas ainda me tremem
os nós dos dedos sangram os restos da noite odiosa
e soltam-nos no cinzento pavimento
mal consigo segurar as chaves, já a porta é que me segura
mergulho num mar de flanela, meio despido,
com a paga em dor atirada por todo o corpo
e mergulho no abençoado esquecimento
vazio
total e completamente vazio
e o silêncio cai, numa imitação de paz que, sinceramente
chega perfeitamente

quinta-feira, novembro 15, 2007

de marcação

cheiros e sabores
pégadas nos sentidos
que me atraem e repelem
para o teu nosso corpo

lábios e dentes
demarcas o que te pertence
as partes de mim
que na noite chamas tuas

dormir de olhos abertos
porque na noite escura
a ausência de luz ilumina
a luz dourada dos teus olhos

acordar de olhos fechados
só para não misturar já, já
o perfume iluminado da manhã
com o o vapor da tua respiração

terça-feira, outubro 16, 2007

trovoada

a adrenalina sobe, é ela o meu verdadeiro e único vício, a aquela corrida do sangue contra as paredes do corpo

sou de ferro, sou uma parede de carne e gritos que puxa os raios que rasgam o céu, sorrio como não sorrio sem os trovões, o prazer sobe o meu corpo, estou completamente eléctrico, a luz que ao meu lado conduz o carro olha-me como se fosse louco, meio de espanto, meio de medo

abro os braços para tentar caçar o vento, as minhas garras rasgam o tablier do carro da luz, apetece-me partir tudo, quero destruir alguém, preciso matar rapidamente, sentir o sabor salgado do sangue nos olhos

quero porque quero, sou verdadeiramente eu, agarro a chamada com as mãos a tremer, a voz dela diz-me que não haverá sexo hoje, o meu corpo quase explode a cada raio que parte o céu, a luz há muito caiu, mergulha a cidade na minha escuridão, tu e eu somos um só, cospes os teus raios pelos telhados

o vento trás o cheiro a chuva e eu estou parado na absoluta e completa escuridão, começam as lanternas e as velas a aparecer pelas frestas das janelas, cobardes medrosos, cortam as tuas dádivas com facas de luz, preciso gritar e afasto-me, o grito é rouco e trás mais noite, e mais escuridão e mais raios, e finalmente as lágrimas em forma de chuva

quero mais , mas ela passa e afasta-se, o vento fica com a chuva, mas sabe a pouco, quero mais raios, mais destruição, saborear um pouco mais o medo dos outros misturado com o meu prazer,
a luz volta e retiro-me, o corpo ainda treme

a trovoada parte, o sorriso idiota de quem acabou de amar, fica até de manhã

segunda-feira, setembro 10, 2007

medo

medo

se a alma existisse
alimentava-se de medo
o medo leva à fúria
à raiva
à mentira

se a alma existisse
era essa satisfação cruel
que nos enche o peito
e nos faz sorrir
quando fazemos
criamos
causamos

medo

esse depravado prazer
temperado com lágrimas
dos outros
que cercamos
que matamos
que enganamos

medo

medo deles
medo meu
muito
muito

medo

domingo, junho 24, 2007

Quase.

Já quase me tinha esquecido a que sabe uma pele, qual o sabor do suor de alguém que adormece nos nossos braços, já nem mesmo o peso doce de uma colher cheia de luz a dormir encostada a mim passava senão de uma vaga memória.
Tentei navegar calmamente esses oceanos de memória, forcei os meus dedos a não tremer, acho que não tremeram, sei que se tremeram não me importo realmente.
Os teus caracóis repousam no meu ombro como se de vinhas numa parede partida se tratassem, pequenas trepadeiras sufocantes de vida numa pele muito marcada, onde deixaste a tua marca, pelo sim pelo não, só porque podias e passaste por lá, pequeno graffiti rasgado com a ponta da unha.
Só sei que estou vivo quando entro na cozinha, a luz das 6 da manhã, aquela luz que ainda nem é luz, é um embrião de luminosidade, atravessa o balcão de uma ponta à outra, bate-me na cara, entras e beijas-me o pescoço, roubas uma torrada e ris alto demais, olhando por cima do ombro na tua fuga pelo corredor.
Acho que vou chegar atrasado, já me esperam quando chego a casa, parto logo, sentado lá atrás, o mundo é ruído de fundo, até a luz se desvanece, não estou realmente no carro, estou a lembrar o momento, aquele exacto momento em que me lembrei do que quase tinha esquecido.
Quase.

quarta-feira, maio 09, 2007

Os carros passam silenciosamente, deixando tiras vermelhas de quando passam por mim. Vou de cara pendurada, olho as estrelas no gelado céu da noite de verão, penduradas, esperando, olhando silenciosamente os carros que passam.
A noite é um espelho, silencioso e escuro como alcatrão, muralhas de árvores impedem os olhos de se perderem na paisagem sem lua, a adrenalina escorre das colunas, a batida faz as respirações acelerar, faz o carro acelerar, faz o mundo acelerar.
Só eu, pendurado da janela, permaneço imóvel.
Todo o carro arde, sente-se o calor, a fúria inflamada faz todos no carro arder, só eu sinto o ar gelado que entre às golfadas pela janela aberta. Os lábios torcem-se nervosamente, as conversas são curtas, todos guardam cada grama da sua fúria, todos a atiçam, para que arda mais e mais e mais.
Porquê?
Serei mais calmo?
Mais velho?
Mais sábio?
Não, não sou melhor nem pior que estes corpos furiosos que acompanham o meu.
A minha fúria ardente, onde está, para onde foi, será que a perdi? Será que já não sou aquela chama de fúria, de calor e energia?
É nisto que penso quando o carro para subitamente, é este o meu verdadeiro medo, não a dor, não os outros, nunca, nunca os outros.
Todos saímos, e avançamos calmamente, e então reparo.
Já passei por isto antes, já sei onde estou, não mais estou perdido.
Não ardo de fúria.
Quem arderia estando aqui, num sitio familiar, rodeado do que conheces?
A minha fúria, se é que é fúria é gelada, temperada com um contentamento imenso, uma antecipação de quem volta de uma longa viagem e está em casa.
Vai começar.
Estou em casa.

quinta-feira, maio 03, 2007

chove porque eu peço

Oiço as pessoas, escondidas nos cafés, presas nas paragens cheias dos transportes públicos, encravadas debaixo de longas filas de guarda-chuvas, protegidas, fugidas desta chuva fria que cai torrencial que vem cortar um começo promissor de sol e calor...
Porque chove, que vem esta chuva fazer aqui, lembrar-me do inverno escuro na véspera do luminoso verão?
As suas vozes não me interessam , só me fazem sorrir de desprezo, nascido de um contentamento imenso como o cinzento das nuvens que me despejam as suas dores pela cara, pelo cabelo, pelas pontas dos dedos.
Esta chuva cai porque eu preciso dela, porque a pedi no meio da noite escura e sufocante, do suor e da culpa. Ela cai finalmente, são paredes de facas geladas que caem do céu, que me cortam o medo, que me separam das correntes que me prendem, chove e estou cá fora, o vento acorda-me os sentidos, levanta a alma que não tenho para o céu em que não acredito, faz-me sorrir de alivio e fúria.
Sinto a respiração do fumo,sinto o cheiro da vida, a terra encharcada que bebe a chuva tão ansiosamente como eu.
Mas, mais que tudo, abro os olhos lavados, estou rodeado de cores novas, lavadas, limpas, e sinto a sua força como se tocasse os ásperos óleos de um quadro renovado, brilhante.

Mas mais que tudo... mais até que a chuva e o vento... eu sinto.

O meu coração bate de novo, os meus olhos estão lavados, eu sinto.

EU SINTO!

E choveu porque eu pedi.

quarta-feira, abril 18, 2007

neutro

uma pedra lisa, raspada, polida pelo uso
uma lâmina romba, que perdeu o fio
um espelho embaciado, rachado
um disco riscado, empenado

será que este bater compassado
que já nada afecta
que já nada acelera
será que sou mesmo eu

uma recordação esbatida
um vapor suspirado
num passado já quase esquecido
já quase uma vaga lembrança

onde está o monstro
para onde escorreu a fúria
em que sono perdi o sonho
não passou assim tanto tempo

quando foi que te toquei
quando foi que te vi e abracei
já não me importo
nem com isso
nem com nada



domingo, março 18, 2007

prisão transparente

Atiro-me contra as paredes de vidro
desta masmorra luminosa e quente
demasiado desesperado para temer
demasiado assustado para parar

O meu corpo, o meu espírito,
todo o meu incompleto eu
desespera por ar, desespera pela chuva
por ficar de novo cativo do vento nas árvores

Atiro-me novamente
banhado em sangue e suor
demasiado estúpido para desistir
demasiado cansado para respirar

O meus músculos tremem
o ar rasga-me a garganta
embato novamente nas paredes de cristal
sinto os ossos ranger
mas a transparente muralha nem se mexe

Olho parado o exterior
reparo agora
o vento navega pelas copas das árvores

tomo balanço e atiro-me novamente

terça-feira, janeiro 16, 2007

no nevoeiro

Matava por um cigarro, a noite está gelada,
o nevoeiro abraça todas as formas, distorce a noite num abraço apertado,
forma pequenas lágrimas geladas no meu cabelo, na minha cara

As recordações rodeiam-me, neste caminho mal iluminado,
aproximam-se como lobos, vejo os seus olhos vermelhos no limite da luz
vejo as suas formas disformes, as suas presas esfomeadas e sorridentes

Muitas noites passadas aqui, neste nevoeiro gelado
escondido num portal escuro, afastado das luzes, afastado das almas.
espero a altura de abrir as grades, de soltar a torrente de raiva, a fome de sangue

As minhas mãos tremem, não tenho cigarros, o cabedal das luvas rangem suavemente
o vulto à minha esquerda respira o sinal combinado,
o resto dos vultos mexe-se suavemente, não têm olhos, só têm braços, só têm corpo

abro suavemente as grades, abandono a um canto a máscara
vejo o sangue cobrir-me os olhos, a cara, as mãos
e sento-me dentro de mim, sossegadamente, a ouvir o eco
dos barulhos soltos
no nevoeiro

sábado, dezembro 30, 2006

pormenores 3

neste mundo de infinitas chamas semeadas
que a tua voz plantou neste meu caminho
pelas sombras me perdi, devagar, devagarinho

procurei sem olhar, sem ver, sem ouvir
neste nó de infinitos crepúsculos
um só amanhecer de perfeição construído

pelas pontas dos dedos me guiei
entre abraços espinhosos e beijos envenenados
até adormecer nas tuas asas negras

e de dentro dos teus olhos nasceu
essa luz perfeita que nasce da fé inabalável
de quem nunca viajou pela escuridão