Que poetas são esses
que procuram musas
perfeitas e raras
as mulheres-anjo
dos poetas antigos?
Que poetas são esses
imitadores de Fausto
que vendem a alma
pelo calor e amor de
uma mulher-demónio?
Que posso eu querer
que seja mais que tu
não sou poeta, sou homem
sou teu, meu amor
minha mulher-humana
"Mas eu, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos; Espalhei os meus sonhos debaixo dos teus pés; Caminha suavemente, pois caminhas sobre os meus sonhos." W.B. Yeats
sábado, outubro 01, 2005
sexta-feira, setembro 30, 2005
A dor posterior
entro devagar para não te acordar
não quero que me vejas ainda
não quero que vejas que voltei
a fazer os mesmos erros
a água fria do duche acorda-me
leva com ela o calor da luta
e mostra-me ao pormenor
onde me vai doer amanhã
tento apagar todas as marcas
mas as manchas de sangue
custam sempre mais a sair
quando caem nas mãos
penso que deve ser herança
marca genética de Caim e Pilatos
acho graça e sorrio cuspindo
m pouco de sangue dos dentes
entro na cama devagar, já seco
para não acordares e me veres
mas quase choro quando
me abraças as costelas doridas
afundo-me nas almofadas
aliviado porque sei que consegui
vais acordar e pensar que durmo
e não me vais ver assim
não quero que me vejas ainda
não quero que vejas que voltei
a fazer os mesmos erros
a água fria do duche acorda-me
leva com ela o calor da luta
e mostra-me ao pormenor
onde me vai doer amanhã
tento apagar todas as marcas
mas as manchas de sangue
custam sempre mais a sair
quando caem nas mãos
penso que deve ser herança
marca genética de Caim e Pilatos
acho graça e sorrio cuspindo
m pouco de sangue dos dentes
entro na cama devagar, já seco
para não acordares e me veres
mas quase choro quando
me abraças as costelas doridas
afundo-me nas almofadas
aliviado porque sei que consegui
vais acordar e pensar que durmo
e não me vais ver assim
quarta-feira, setembro 21, 2005
domingo, setembro 18, 2005
Acordar Primeiro
Odeio acordar nas manhãs
em que trabalhas e em que sais
mais cedo do que eu
Odeio que não me acordes
e que me deixes dormir
até o despertador tocar
Odeio tomar banho sozinho
e apagar com água fria
o beijo com que te despediste
Odeio especialmente passar
dois e três dias longe a trabalhar
sem te olhar nos olhos e tocar
porque assim me pareces um sonho
e fico com medo de voltar a casa
e perceber que te imaginei
Odeio especialmente não poder
acordar contigo nos meus abraços
apertar-te de mansinho e dizer,
enquanto ainda sonhas e não ouves,
cheirando o teu calor e o teu cabelo:
Sou teu, sempre, mesmo enquanto dormes.
em que trabalhas e em que sais
mais cedo do que eu
Odeio que não me acordes
e que me deixes dormir
até o despertador tocar
Odeio tomar banho sozinho
e apagar com água fria
o beijo com que te despediste
Odeio especialmente passar
dois e três dias longe a trabalhar
sem te olhar nos olhos e tocar
porque assim me pareces um sonho
e fico com medo de voltar a casa
e perceber que te imaginei
Odeio especialmente não poder
acordar contigo nos meus abraços
apertar-te de mansinho e dizer,
enquanto ainda sonhas e não ouves,
cheirando o teu calor e o teu cabelo:
Sou teu, sempre, mesmo enquanto dormes.
quarta-feira, setembro 14, 2005
Devolvo-te
Devolvo-te as palavras
que me escreveste
pois sei que as sentes ainda
e a falta que te fazem
Devolvo-te os olhares
que me tentaste atirar
julgando talvez que eu
não fosse tão cego
Devolvo-te o teu coração
pois não o posso usar
porque nunca o quis
nem quando mo ofereceste
Devolvo-te as lágrimas
todas que usaste por mim
por culpas que eu
nunca soube ter tido
Devolvo-te principalmente
esse ódio cego e justo
que me guardas ainda hoje
por nunca ter dito sim
que me escreveste
pois sei que as sentes ainda
e a falta que te fazem
Devolvo-te os olhares
que me tentaste atirar
julgando talvez que eu
não fosse tão cego
Devolvo-te o teu coração
pois não o posso usar
porque nunca o quis
nem quando mo ofereceste
Devolvo-te as lágrimas
todas que usaste por mim
por culpas que eu
nunca soube ter tido
Devolvo-te principalmente
esse ódio cego e justo
que me guardas ainda hoje
por nunca ter dito sim
segunda-feira, setembro 05, 2005
Momentos Dourados
Resolvi finalmente publicar este texto depois de alguma reflexão, algo que espantará as pessoas que me conhecem , pois sabem que regra geral ajo por impulso. Mas como todas as boas ideias que tenho tido em termos de publicação de textos neste blog resultaram em eu ter de tentar explicar às pessoas que os meus textos não são ataques pessoais, mas impulsos de momento, tive de pensar um pouco.
Uns bons dois minutos.
Bom, aqui está.
Sou professor.
Sou talvez das poucas pessoas que sempre o quiseram ser.
Mas conheço muitas que amam verdadeiramente ensinar, ter uma turma que nos olha como os transmissores supremos de uma sabedoria quase mágica.
É quase uma droga.
Alguém que nunca ensinou não conhece o supremo prazer que é ensinar um aluno com dificuldades e vê-lo superá-las, ou encontrar uma aluna algum tempo depois e ouvir aquelas palavras para as quais todo o professor vive, "Ainda me lembro do que o professor me ensinou".
São esses momentos dourados que nos fazem superar as manhãs de segunda, as tardes de sexta, as reuniões com os pais, as intermináveis correcções de testes.
Momentos autenticamente dourados.
É por esses momentos que escrevo isto.
Eu escolhi o caminho mais díficil.
Nunca parar, ser melhor do sou.
Escolhi sair do meu país, estudar e falar noutra língua, para ser melhor professor.
Para ter mais momentos dourados.
Para que a minha sabedoria fosse ainda mais mágica.
Foi uma solução cobarde e cruel, agora que a vejo.
Passou uma semana desde que saíram as listas dos concursos.
A interminável espera acabara.
Seguiram-se as idas ao café, as conversas telefónicas e cibernéticas, quem ficou em que posição e à frente de quem, o normal.
O que vi deixou-me de rastos.
Não por mim, eu fui cobarde, eu tinha o que fazer, com que me ocupar.
Foi por ouvir na voz das pessoas, dos amigos, dos companheiros de profissão com quem falei uma desilusão e um desespero real.
Desespero.
Ver toda uma vida, dezassete anos no mínimo, de treino, deitada fora.
Não uma, mas duas gerações completamente perdidas, desesperadas.
Desilusão.
Nem mais um momento, nem mais um só segundo dourado.
E quando esses amigos se viram, as vozes tensas, algumas raivosas, outras embargadas, eu respondo com uma crueldade que me deixa mais triste ainda.
As coisas por lá correm-me bem, talvez fique por lá.
A minha voz some-se quando o digo, e nem tenho coragem de olhar as pessoas nos olhos.
Porque eu sei que estou a ser cruel.
Mas é dificil saber que não existem hipóteses.
É a desilusão.
É o desespero.
É o adeus aos momentos dourados.
Pergunto realmente se algum dia esta geração voltar ao ensino, conseguirá voltar a brilhar.
Ou será que também isso perdemos?
A capacidade de brilhar?
Espero que não, eu não seria capaz de carregar esse peso.
E vocês, seriam?
Uns bons dois minutos.
Bom, aqui está.
Sou professor.
Sou talvez das poucas pessoas que sempre o quiseram ser.
Mas conheço muitas que amam verdadeiramente ensinar, ter uma turma que nos olha como os transmissores supremos de uma sabedoria quase mágica.
É quase uma droga.
Alguém que nunca ensinou não conhece o supremo prazer que é ensinar um aluno com dificuldades e vê-lo superá-las, ou encontrar uma aluna algum tempo depois e ouvir aquelas palavras para as quais todo o professor vive, "Ainda me lembro do que o professor me ensinou".
São esses momentos dourados que nos fazem superar as manhãs de segunda, as tardes de sexta, as reuniões com os pais, as intermináveis correcções de testes.
Momentos autenticamente dourados.
É por esses momentos que escrevo isto.
Eu escolhi o caminho mais díficil.
Nunca parar, ser melhor do sou.
Escolhi sair do meu país, estudar e falar noutra língua, para ser melhor professor.
Para ter mais momentos dourados.
Para que a minha sabedoria fosse ainda mais mágica.
Foi uma solução cobarde e cruel, agora que a vejo.
Passou uma semana desde que saíram as listas dos concursos.
A interminável espera acabara.
Seguiram-se as idas ao café, as conversas telefónicas e cibernéticas, quem ficou em que posição e à frente de quem, o normal.
O que vi deixou-me de rastos.
Não por mim, eu fui cobarde, eu tinha o que fazer, com que me ocupar.
Foi por ouvir na voz das pessoas, dos amigos, dos companheiros de profissão com quem falei uma desilusão e um desespero real.
Desespero.
Ver toda uma vida, dezassete anos no mínimo, de treino, deitada fora.
Não uma, mas duas gerações completamente perdidas, desesperadas.
Desilusão.
Nem mais um momento, nem mais um só segundo dourado.
E quando esses amigos se viram, as vozes tensas, algumas raivosas, outras embargadas, eu respondo com uma crueldade que me deixa mais triste ainda.
As coisas por lá correm-me bem, talvez fique por lá.
A minha voz some-se quando o digo, e nem tenho coragem de olhar as pessoas nos olhos.
Porque eu sei que estou a ser cruel.
Mas é dificil saber que não existem hipóteses.
É a desilusão.
É o desespero.
É o adeus aos momentos dourados.
Pergunto realmente se algum dia esta geração voltar ao ensino, conseguirá voltar a brilhar.
Ou será que também isso perdemos?
A capacidade de brilhar?
Espero que não, eu não seria capaz de carregar esse peso.
E vocês, seriam?
Anúncio de Jornal
homem cansado procura mulher
com dicionário
e um tubo de super cola
que lhe cole o coração partido
e lhe ensine o que significa amar
com dicionário
e um tubo de super cola
que lhe cole o coração partido
e lhe ensine o que significa amar
segunda-feira, agosto 29, 2005
Moram ainda na minha mente
Moram ainda na minha mente
aquelas manhãs de Janeiro
em que matavamos as saudades
das férias passadas longe,
gastanto horas no teu quarto
olhando a chuva cantar,
furando o silêncio e o calor
enquanto batia nas vidraças
da janela tornando o teu cabelo
ainda mais escuro e vivo.
Moram ainda na minha mente
todas as vezes que acordei
com a minha cabeça no teu colo,
enquanto passavas a mão
pelo meu cabelo e cantavas
baixinho para não me acordar
e eu abria os olhos para ver
as formas do fumo do teu cigarro
enquanto subia para o tecto.
Moram ainda na minha mente
os momentos em que te sentias só
e atravessavas a cozinha a correr,
para te sentares ao meu colo
enquanto eu tentava escrever,
e me abraçavas os ombros
com a tua respiração quente
a arrepiar-me o pescoço,
enquanto me dizias baixinho
que precisavas de me agarrar.
Moram ainda na minha mente
cada um desses momentos,
que uso como medida injusta
para medir todas as outras,
recordações dolorosas demais
para não apagar para sempre,
do meu coração e da minha pele,
recordações que só posso guardar
na minha mente, para te guardar
para sempre dentro de mim.
aquelas manhãs de Janeiro
em que matavamos as saudades
das férias passadas longe,
gastanto horas no teu quarto
olhando a chuva cantar,
furando o silêncio e o calor
enquanto batia nas vidraças
da janela tornando o teu cabelo
ainda mais escuro e vivo.
Moram ainda na minha mente
todas as vezes que acordei
com a minha cabeça no teu colo,
enquanto passavas a mão
pelo meu cabelo e cantavas
baixinho para não me acordar
e eu abria os olhos para ver
as formas do fumo do teu cigarro
enquanto subia para o tecto.
Moram ainda na minha mente
os momentos em que te sentias só
e atravessavas a cozinha a correr,
para te sentares ao meu colo
enquanto eu tentava escrever,
e me abraçavas os ombros
com a tua respiração quente
a arrepiar-me o pescoço,
enquanto me dizias baixinho
que precisavas de me agarrar.
Moram ainda na minha mente
cada um desses momentos,
que uso como medida injusta
para medir todas as outras,
recordações dolorosas demais
para não apagar para sempre,
do meu coração e da minha pele,
recordações que só posso guardar
na minha mente, para te guardar
para sempre dentro de mim.
sábado, agosto 27, 2005
Parabéns
Este poema é para a minha amiga Tânia, no dia do seu aniversário
Gostava realmente
que todas as manhãs
acordasses sorridente
como mereces acordar
Abraçada por braços
não te largam
e por beijos
que te desejam
Gostava que soubesses
o quanto gosto de te ouvir
mesmo quando tu não
E sei que és especial
porque o teu mundo sorri
e nem todos somos assim
Gostava realmente
que todas as manhãs
acordasses sorridente
como mereces acordar
Abraçada por braços
não te largam
e por beijos
que te desejam
Gostava que soubesses
o quanto gosto de te ouvir
mesmo quando tu não
E sei que és especial
porque o teu mundo sorri
e nem todos somos assim
quarta-feira, agosto 24, 2005
15h16m
hora exacta
medida
analisada
cronometrada
em que a tua mão
atravesou a mesa
do café
meio vazio
e adormeceu
na minha mão
um suspiro
um minuto
um desejo
um piscar de olhos
um meio sorrir
e os teus olhos
fugitivos
correram
para o lado
a mão recuou
e o minuto...
...o minuto passou
medida
analisada
cronometrada
em que a tua mão
atravesou a mesa
do café
meio vazio
e adormeceu
na minha mão
um suspiro
um minuto
um desejo
um piscar de olhos
um meio sorrir
e os teus olhos
fugitivos
correram
para o lado
a mão recuou
e o minuto...
...o minuto passou
domingo, agosto 14, 2005
momento idiota 2
segunda-feira, agosto 01, 2005
a cama é pequena
a cama é pequena
meu amor
dormes no meu peito
os teus cabelos
perfumados
libertos
enchem o meu sono
e não consigo
dormir sossegado
a cama é pequena
meu amor
abraças-te a mim
no escuro
e os meus braços
ficam dormentes
doridos
de te segurar
a cama é pequena
meu amor
nunca mais quero sair daqui
meu amor
dormes no meu peito
os teus cabelos
perfumados
libertos
enchem o meu sono
e não consigo
dormir sossegado
a cama é pequena
meu amor
abraças-te a mim
no escuro
e os meus braços
ficam dormentes
doridos
de te segurar
a cama é pequena
meu amor
nunca mais quero sair daqui
quarta-feira, julho 27, 2005
A Esfínge
Lembro-me perfeitamente.
Como se fosse hoje.
O meu amigo Ed dava-me boleia para casa depois das aulas, uma disciplina pedagógica qualquer totalmente inútil, que nos tinha ocupado uma tarde inteira.
Nesta altura, poucas pessoas da minha turma ainda me falavam, a maioria tinha decidido que eu era um perfeito sacana por não falar à mulher que me tinha trocado por um amigo.
Falar-lhes.
Se imaginassem o esforço que foi preciso fazer para não lhes arrancar a cabeça a pontapés, quanto mais respirara o mesmo ar que eles.
Mas eu era uma esfínge.
Pura pedra. Nem um sentimento, nem um olhar.
A mesma cara de pedra morena. O mesmo nariz partido. O olhar vago em pregado em frente. E sem ninguém por perto.
Resumindo, o leproso da turma.
Há que ser justo, alguns poucos resistentes ainda me falavam, curiosamente, as mesmas pessoas que me falam ainda hoje.
Curiosamente.
Uma semana antes tinha ido tirar o Mauro do meio de uma briga e tinham-me aberto um sobrolho com uma garrafa.
Nem um queixume. Nem uma lágrima. Piropos às enfermeiras. Uma esfinge.
Nem falsos heroísmos, nem forças sobre-humanas.
Hábitos da juventude.
Voçês aprenderam a andar de bicicleta, eu aprendi a pôr o maxilar no sítio sem pestanejar.
Lembro-me perfeitamente.
O carro seguia a muralha, mesmo na curva que leva ao Rossio. Apanha-se o sol de frente, quando se faz essa curva ao entardecer. Uma luz melosa, avermelhada, que nos bate na cara depois da sombra de uma rua ladeada de plátanos.
Pisquei os olhos e a dor dos pontos fez a minha cabeça abanar.
Mas a cara era a mesma.
Uma esfínge.
Havia muito trânsito (Évora, cinco e meia, só quem cá viveu sabe) e estavamos parados.
O Ed contava-me as últimas notícias sobre a turma, visto que eu, por ser leproso, não as podia saber.
Lembro-me das exactas palavras que ele disse.
"E foi então que a Xana me disse, não sei como podes falar com o Vitor, ele nem é uma pessoa, é um animal".
Ainda disse mais algumas palavras, mas como eu não respondia olhou para mim.
Lembro-me perfeitamente da sua cara.
Espanto.
Preocupação.
Medo.
A principio não percebi porque me olhava assim.
Só quando a primeira lágrima me bateu nas costas da mão que segurava os livros é que me apercebi que chorava.
A mesma cara de pedra morena.
O mesmo nariz partido.
O mesmo olhar vago.
Mas dos meus olhos rolavam lágrimas.
Lágrimas puras, sem soluços, sem som algum.
Limpei a cara devagar, e voltei a olhar em frente.
Fomos em silêncio o resto do caminho.
Acho que o Ed nunca contou isto a ninguém.
Não que eu lho tenha pedido. Acho que para ele não é mais do que uma memória vaga, meio apagada.
Mas mesmo na altura não comentou com ninguém. Nem comigo.
Também, quem iria acreditar?
Uma esfínge, a chorar?
Mas eu lembro-me.
Lembro-me perfeitamente.
Como se fosse hoje.
O meu amigo Ed dava-me boleia para casa depois das aulas, uma disciplina pedagógica qualquer totalmente inútil, que nos tinha ocupado uma tarde inteira.
Nesta altura, poucas pessoas da minha turma ainda me falavam, a maioria tinha decidido que eu era um perfeito sacana por não falar à mulher que me tinha trocado por um amigo.
Falar-lhes.
Se imaginassem o esforço que foi preciso fazer para não lhes arrancar a cabeça a pontapés, quanto mais respirara o mesmo ar que eles.
Mas eu era uma esfínge.
Pura pedra. Nem um sentimento, nem um olhar.
A mesma cara de pedra morena. O mesmo nariz partido. O olhar vago em pregado em frente. E sem ninguém por perto.
Resumindo, o leproso da turma.
Há que ser justo, alguns poucos resistentes ainda me falavam, curiosamente, as mesmas pessoas que me falam ainda hoje.
Curiosamente.
Uma semana antes tinha ido tirar o Mauro do meio de uma briga e tinham-me aberto um sobrolho com uma garrafa.
Nem um queixume. Nem uma lágrima. Piropos às enfermeiras. Uma esfinge.
Nem falsos heroísmos, nem forças sobre-humanas.
Hábitos da juventude.
Voçês aprenderam a andar de bicicleta, eu aprendi a pôr o maxilar no sítio sem pestanejar.
Lembro-me perfeitamente.
O carro seguia a muralha, mesmo na curva que leva ao Rossio. Apanha-se o sol de frente, quando se faz essa curva ao entardecer. Uma luz melosa, avermelhada, que nos bate na cara depois da sombra de uma rua ladeada de plátanos.
Pisquei os olhos e a dor dos pontos fez a minha cabeça abanar.
Mas a cara era a mesma.
Uma esfínge.
Havia muito trânsito (Évora, cinco e meia, só quem cá viveu sabe) e estavamos parados.
O Ed contava-me as últimas notícias sobre a turma, visto que eu, por ser leproso, não as podia saber.
Lembro-me das exactas palavras que ele disse.
"E foi então que a Xana me disse, não sei como podes falar com o Vitor, ele nem é uma pessoa, é um animal".
Ainda disse mais algumas palavras, mas como eu não respondia olhou para mim.
Lembro-me perfeitamente da sua cara.
Espanto.
Preocupação.
Medo.
A principio não percebi porque me olhava assim.
Só quando a primeira lágrima me bateu nas costas da mão que segurava os livros é que me apercebi que chorava.
A mesma cara de pedra morena.
O mesmo nariz partido.
O mesmo olhar vago.
Mas dos meus olhos rolavam lágrimas.
Lágrimas puras, sem soluços, sem som algum.
Limpei a cara devagar, e voltei a olhar em frente.
Fomos em silêncio o resto do caminho.
Acho que o Ed nunca contou isto a ninguém.
Não que eu lho tenha pedido. Acho que para ele não é mais do que uma memória vaga, meio apagada.
Mas mesmo na altura não comentou com ninguém. Nem comigo.
Também, quem iria acreditar?
Uma esfínge, a chorar?
Mas eu lembro-me.
Lembro-me perfeitamente.
sábado, julho 23, 2005
Explanada
Sorri
porque o teu sorriso
é luz
E a tua voz
é quente
quanto dizes
o meu nome
Enquanto as palavras
rolam
pela tua pele
Nesta explanada
banal
onde os nossos olhos
se amam
E a curva colorida
da tua voz
diz quente
o meu nome
porque o teu sorriso
é luz
E a tua voz
é quente
quanto dizes
o meu nome
Enquanto as palavras
rolam
pela tua pele
Nesta explanada
banal
onde os nossos olhos
se amam
E a curva colorida
da tua voz
diz quente
o meu nome
segunda-feira, julho 18, 2005
Unhas
Sempre odiei as tuas unhas
unhas de menina
que não parte um prato
Bem pintadas
arranjadas
opostos da tua alma
Sempre odiei as tuas unhas
que me comiam
e arranhavam as costas
Eram marcas
de posse
linhas do teu território
Sempre odiei as tuas unhas
a batucar
na mesa do café
Quando o meu olhar
se cruzava com outro
que não o teu
Sempre odiei as tuas unhas
de menina
bem comportada
Numa mão que descia
pelo meu peito
e me arrancava a alma
unhas de menina
que não parte um prato
Bem pintadas
arranjadas
opostos da tua alma
Sempre odiei as tuas unhas
que me comiam
e arranhavam as costas
Eram marcas
de posse
linhas do teu território
Sempre odiei as tuas unhas
a batucar
na mesa do café
Quando o meu olhar
se cruzava com outro
que não o teu
Sempre odiei as tuas unhas
de menina
bem comportada
Numa mão que descia
pelo meu peito
e me arrancava a alma
quarta-feira, julho 13, 2005
Quando eu morrer
Quando eu morrer
as minhas cinzas voarão
nas asas de mil corvos
para criar uma nuvem
tão escura e tempestuosa
que a chuva que cairá
lavará o o mundo
dos pecados que deixo
Quando eu morrer
a luz brilhará finalmente
na escuridão que sou
e como um sopro
sagrado e divino
furacão dos deuses
furará a escuridão
de todas as manhãs
Quando eu morrer
amanhã ou depois
não importa pois ninguém
me pode apanhar
nesta queda livre
do inferno para o céu
vou cair e sorrir
pois a história acabou
as minhas cinzas voarão
nas asas de mil corvos
para criar uma nuvem
tão escura e tempestuosa
que a chuva que cairá
lavará o o mundo
dos pecados que deixo
Quando eu morrer
a luz brilhará finalmente
na escuridão que sou
e como um sopro
sagrado e divino
furacão dos deuses
furará a escuridão
de todas as manhãs
Quando eu morrer
amanhã ou depois
não importa pois ninguém
me pode apanhar
nesta queda livre
do inferno para o céu
vou cair e sorrir
pois a história acabou
sábado, junho 25, 2005
Amor em Prosa II
Não há, para mim, momento mais intenso do que acordar ao lado de uma mulher de quem se gosta.
É claro que isso sou eu, outros terão outras opiniões.
Mas essa é a minha.
Acordo de coração cheio, como se nada mais existisse senão aquele corpo, aquele ser feminino cuja respiração acompanha a minha.
Costumo acordar primeiro, não é fácil dormir agarrados, e ficar a olhar, só olhar, tentar capturar aquele momento de luz divina que se liberta ao acordar.
Lembro-me de cada segundo da manhã (quase tarde, confesso vergonhosamente) em que soube o que era sentir pela primeira vez.
Já muitas vezes tinha acordado acompanhado, e julgava estar preparado para qualquer situação.
Que estúpido.
Tanto quanto eu sabia, era um teste muito simples. Ou ela me olhava, sorria e se anichava no meu peito, e ai era amor, ou então virava-se para o outro lado e continuava a dormitar, e ai eu sabia que, apesar do que ela dissesse, nada sentia.
Que estúpido.
Mas não me podem condenar, eu não sabia.
Lembro-me de cada segundo, até mesmo de me deixar dormir com a sua voz, as suas mãos no meu cabelo.
Acordei então primeiro, como era meu costume, e esperei até que ela acordasse.
Um pequeno sobressalto na respiração.
O sinal.
O acordar finalmente.
E foi então que aconteceu.
Os nossos olhos cruzaram-se nesse momento.
Não, não se cruzaram, agarraram-se.
Durante uma hora não me mexi, o mundo não se mexeu, penso que ninguém sequer respirou.
Não existia tempo, nem lugar algum, nem a noite passada, nem futuro real ou imaginado, nada para além de dois pares de olhos, a menos de um palmo de distância, completamente abraçados.
Julguei que o meu coração ia explodir.
Nunca tinha dito tanto, e no entanto, não disse uma única palavra.
Olhamo-nos por três dias, enquanto o mundo passava por nós, nas aulas, nos bares, sempre sem que eles, os outros que não sabiam, não percebiam, sequer desconfiassem.
As noites passavam sempre na esperança de acordar nesse olhar.
Ainda sonho com esse olhar.
Ainda o procuro.
Apesar de saber exactamente onde ele está.
E quem ele agora olha.
Mas ainda sonho com a manhã em que acordei para esse olhar, e soube que amar não é ter a certeza, é entregar o que somos, mesmo sabendo que se vai perder.
Mas isso sou eu.
É claro que isso sou eu, outros terão outras opiniões.
Mas essa é a minha.
Acordo de coração cheio, como se nada mais existisse senão aquele corpo, aquele ser feminino cuja respiração acompanha a minha.
Costumo acordar primeiro, não é fácil dormir agarrados, e ficar a olhar, só olhar, tentar capturar aquele momento de luz divina que se liberta ao acordar.
Lembro-me de cada segundo da manhã (quase tarde, confesso vergonhosamente) em que soube o que era sentir pela primeira vez.
Já muitas vezes tinha acordado acompanhado, e julgava estar preparado para qualquer situação.
Que estúpido.
Tanto quanto eu sabia, era um teste muito simples. Ou ela me olhava, sorria e se anichava no meu peito, e ai era amor, ou então virava-se para o outro lado e continuava a dormitar, e ai eu sabia que, apesar do que ela dissesse, nada sentia.
Que estúpido.
Mas não me podem condenar, eu não sabia.
Lembro-me de cada segundo, até mesmo de me deixar dormir com a sua voz, as suas mãos no meu cabelo.
Acordei então primeiro, como era meu costume, e esperei até que ela acordasse.
Um pequeno sobressalto na respiração.
O sinal.
O acordar finalmente.
E foi então que aconteceu.
Os nossos olhos cruzaram-se nesse momento.
Não, não se cruzaram, agarraram-se.
Durante uma hora não me mexi, o mundo não se mexeu, penso que ninguém sequer respirou.
Não existia tempo, nem lugar algum, nem a noite passada, nem futuro real ou imaginado, nada para além de dois pares de olhos, a menos de um palmo de distância, completamente abraçados.
Julguei que o meu coração ia explodir.
Nunca tinha dito tanto, e no entanto, não disse uma única palavra.
Olhamo-nos por três dias, enquanto o mundo passava por nós, nas aulas, nos bares, sempre sem que eles, os outros que não sabiam, não percebiam, sequer desconfiassem.
As noites passavam sempre na esperança de acordar nesse olhar.
Ainda sonho com esse olhar.
Ainda o procuro.
Apesar de saber exactamente onde ele está.
E quem ele agora olha.
Mas ainda sonho com a manhã em que acordei para esse olhar, e soube que amar não é ter a certeza, é entregar o que somos, mesmo sabendo que se vai perder.
Mas isso sou eu.
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