terça-feira, janeiro 10, 2006

rosa vermelha

quero ser o teu sangue para percorrer cada centímetro do teu corpo, morar para sempre na tua mente e suster cada batida do teu coração, os limites de ti serem os limites do meu mundo

mesmo assim morria infeliz, porque nunca mais beijaria a tua pele, nem me perdia nos teus olhos

mas era parte de ti, tanto quanto és parte de mim

sábado, janeiro 07, 2006

A Barba

Fico em frente ao espelho, mas não estou realmente a prestar atenção.
Os gestos são automáticos, seguros, já fiz isto tantas vezes que a lâmina passeia suavemente pela pele rugosa.
Pouco a pouco a imagem no espelho muda, já não sou eu, o eu habitual, sou o eu passado, aquele que te pertencia. Pouco a pouco os olhos relembram esta máscara, foi só procurar no arquivo, está um pouco mais gasta mas é a mesma.
Mas eu não estou realmente a prestar atenção, nem estou realmente preocupado. Se quiser ser exacto, nem estou realmente aqui.
Nem mesmo a água gelada me acorda, nem mesmo ela consegue parar as recordações, em dois segundos elas passam de pequenas pingas a uma enorme torrente cinzento prateado que submerge a realidade, que me submerge a mim.

De repente é uma tarde de Agosto, uma tarde de sorrisos e luz, ou pelo menos é assim que eu a recordo, as recordações são como os filmes da infãncia, parecem sempre supremas obras de arte, são das poucas coisas que o tempo melhora, as recordações.
Estou sentado na tua cozinha, o único lugar fresco da casa, estou no meio de uma chama de luz que entra pela janela meio fechada e me queima as pernas e as mãos, o ar está abafado.
Protesto, mas tu finges não ouvir, só uma mais das pequenas farsas com que enchemos os nossos momentos mortos, chamas-me rezingão, chamo-te ditadora, quase consigo adivinhar o teu sorriso.
Espalhas-me a espuma pela cara, mordes o lábio de baixo, estás concentrada, evitas os meus olhos, proíbes-me de sorrir. Começas o teu trabalho, tentas não me cortar a cara, tentas não olhar nos meus olhos.
Mas a tua mão está por cima do meu coração, pequeno teste que me fazes, para saber se eu confio, para saber se eu me entrego. E eu só quero beber dos teus olhos, mas tu não deixas.
Acabas finalmente o teu trabalho e sorris, nem um corte, a tua mão sempre no meu coração, sempre mergulhada na minha alma. Ajoelhada à minha frente olhas-me finalmente e só ai sentes o meu coração explodir, só ai volto a respirar, só nos teus olhos vivo realmente, todo o universo lá vive.
Pelo menos o meu.
Vivia, corrijo-me.

De repente a chuva na cara acorda-me, já estou na rua, barbeado e vestido, mas é inverno e eu preciso de um café, preciso de acordar, acordar de todas as tardes de Agosto, parar de sonhar-te em cada gesto, e ir trabalhar.
Odeio fazer a barba.

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Entardecer Dourado

São cinco minutos do entardecer, aqueles raios finais do sol, que já cansado estende os seus braços, tentando alcançar tudo, abraçar todos, talvez despedir-se.
Apesar do frio, da cidade branca, do céu cinzento, todo o mundo é dourado durante esses cinco minutos finais.
A luz entra pelos olhos e derrama-se pela cara, pingando gota a gota para a alma, aquecendo as pessoas que se apressam a regressar a casa.
Durante aquele tempo, império de uma só cor, as pessoas levantam a cara, respiram um pouco mais leve, caminham um pouco mais devagar, voltam a ser um pouco mais humanos.
É no mais glorioso momento deste cobertor dourado que a escuridão nasce, os seus dedos compridos saem das sombras e as suas mãos envolvem tudo.
O frio faz-se mais frio, o céu fica negro, o peso volta aos ombros, o momento passa.
Mas naquele glorioso entardecer do primeiro dia do ano, por cinco minutos apenas, a cidade foi dourada como a planície, como um tesouro, como o sol.
E como o sol, a cidade a todos abraçou, antes de partir para as mãos da noite escura.

terça-feira, dezembro 27, 2005

25

sento-me na mesa do café,
quieto,
à espera que me matem.

e nesta tarde aborrecida,
completamente banal,
nunca quis tanto viver.

nunca o café soube tão bem,
e cada vez que respiro
é como se respirasse ouro

já li o jornal três vezes,
fervo de ansiedade,
suo frio,
mas espero quieto.

nesta mesa do café,
à espera que se decidam
a atravessar a rua
e vir matar-me.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

8.37 am

Está tanto frio que o vento me corta a cara, as mãos, os olhos.
Não há nuvens, a luz derrama-se pura do céu de metal azul claro.
O vento enrola-se no meu cabelo, é como se só a minha face existisse,
como se só ela enfrentasse a manhã gelada.

Apenas o vento e eu caminhamos nesta manhã azul metálica,
e estou feliz assim, só nós na praia de pedra do passeio,
com um mar de alcatrão cheio de carros parados â esquerda
e os muros vivos de verde do jardim à minha direita.

Entro em casa já com o sabor a café a dançar na boca,
o jornal e o pão ficam juntos a fazer amor na mesa da cozinha,
a tinta fresca e o calor do pão fresco ainda se agarram à vida,
ainda permanecem nas pontas dos dedos, na ponta do nariz.

Abro as cortinas e deixo a luz vasculhar o quarto enquanto
me dispo e entro neste ventre de flanela azul metálico,
da côr do céu lá fora, ainda aquecido pela tua pele açucarada,
e ranges com a cama enquanto me deito e me tapo.

Rodas e os teus braços apertam-me o tronco, ainda ai estou,
só saí nos teus sonhos, e olho-te neste amanhecer azul metálico.
O despertador diz-me baixinho que tenho mais vinte e três minutos
até ele te arrancar daqui, do ninho dos meus braços.

Sinto a tua respiração compassada no meu peito, sobe-me pelo pescoço,
queima-me a cara, faz-me esquecer o tempo que passa, que se lixe o tempo,
o momento fica, este momento que é só meu. Meu e do vento que dança lá fora.
Como o meu coração, cada um no seu céu azul metálico.

quinta-feira, dezembro 08, 2005

4 da manhã

Desculpa telefonar-te a estas horas
mas preciso que me salves desta escuridão
que fica na minha alma,
no meu corpo,
no meu quarto,
quando não estou contigo.

Era só porque precisava muito
de ouvir a luz na tua voz,
sentir o vapor do teu corpo,
o teu peito a subir e a descer
enquanto dormes nos meus braços.

Diz-me só boa noite,
para eu poder ir tentar dormir,
a pensar que se calhar estás aqui,
e ser feliz, a sonhar assim,
pelo menos até acordar.

domingo, novembro 27, 2005

Dançar

O copo está meio quando me tocas na mão para irmos dançar.
Apesar do barulho, apesar das pessoas, sabes que música será.
Sabes sempre.
Não sei como mas sabes.
Agarras-me a mão assim que me levanto e puxas-me para o meio da pista, longe da luz e de todo o resto do universo.
Pões os teus pés em cima dos meus, abraço-te suavemente para te proteger do mundo e dos olhares e porque gostas.
Anichas-te nos meus braços, a tua respiração quente a queimar-me o pescoço de desejo apesar do bar estar abafado.
A música começa e tu sorris, aquele sorriso que só eu vejo.
Dançamos.
Os teus lábios de sabor a licôr beijam os meus, tens a mão pousada no meu peito para sentir aquele sobressalto que o meu coração dá sempre que os nossos lábios se tocam, o teu corpo estremece quando a minha mão viaja pelas tuas costas, a música faz-nos derreter nos braços um do outro.
A música parou, outra música começou.
Ninguém percebeu.
Ninguém viu o universo a parar enquanto pairavas nos meus braços e eramos um.
Um coração, uma respiração, um beijo.
A dançar.



quinta-feira, novembro 17, 2005

Vou

Vou perseguir-te por todos os recantos de mim,
e apagar todos os fogos que deixaste.

Vou plantar nova vida neste mar de cinzas que ficou,
e lavar com lágrimas o teu sabor da minha boca.

Vou apagar todas as recordações de todos os momentos,
até não seres mais que um nevoeiro soprado pelo vento.

Vou finalmente olhar para dentro de mim, limpo de ti,
e sentar-me, e chorar, enquanto olho o vazio que ficou.

Dei-to

Dei-te...
Sei lá o que te dei...
Dei-me?
Seja o que fôr
perdi...
Não o encontro,
nem posso dar mais.
Se calhar nunca tive,
se calhar levaste contigo.

Dei-te...
E já não volta.
Passo a mão pelo cabelo,
fecho os olhos, imagino...
tento lembrar-me
do caminho de volta.
Não me lembro,
dei-to...
dei-me...
e já não volto mais.

sexta-feira, novembro 11, 2005

as sombras

Sempre pensei que as sombras são seres vivos,
presos a homens pouco humanos e a objectos sem alma.

Deve ser por isso que pensamos que o Mal,
(esse da letra e do medo maíusculo),
se esconde nas sombras.

Que ódio nos devem ter as sombras,
presas a nós que nada fazemos,
senão tapar a luz a que têm direito.

terça-feira, novembro 08, 2005

Mergulhar

Mergulhar.
Sentir que o mundo acaba,
imerso no imenso silêncio
do frio e infinito horizonte azul.
Deixar-me lentamente cair,
procurando o fundo invisível,
até que os pulmões parecem
rebentar e me lembram bruscamente
que eu não pertenço aqui.

Por isso vôo para a superfície,
onde não há nenhum azul assim,
onde não há nem paz nem silêncio,
mas onde está, infelizmente,
todo o oxigénio.

segunda-feira, novembro 07, 2005

rotina

Acorda
Come
Anda
Trabalha
Come
Trabalha
Anda
Come
Dorme

Todos os dias?
E se eu me apetecer
mandar-vos todos
todos à merda?
Não posso?
Então sejam voçês
essas tais pessoas.
Eu não quero.
Prefiro ser humano
e pensar por mim.

quarta-feira, novembro 02, 2005

Um feriado

Que saudades que eu tinha
de acordar nos teus braços,
e chamar-te princesa,
e sentir-te mulher e minha.

quinta-feira, outubro 27, 2005

Sim, sei.

Sim, sei.
Sei que para onde fôr
nunca estarei só.
Porque te carrego,
recordada num altar,
feito dentro de mim.

Sim, sei.
Alías, tenho a certeza,
que já não me perco
outra vez neste caminho,
que escreveste para mim,
quando vivias para nós.

quinta-feira, outubro 20, 2005

Raio de luz

Todos os meus erros morrem
naquele milísegundo em que
os nossos lábios se cruzam,
em que a chuva fria cai
pelas goteiras dos cabelos,
e um raio de luz viva
nos atravessa agarrados,
neste estacionamento sujo
e escuro e feio e nosso.

Não me peças mais perdão,
eu não te peço mais desculpa.

Vamos só ficar aqui assim,
agarrados na noite sem lua,
enquanto eu desvendo se
este arrepio nas costas
é da chuva que me encharca,
das tuas mãos que me abraçam
ou deste raio de luz suja
que nos transporta assim,
naufragados um no outro,
neste milionésimo de segundo
onde a memória não existe.

sexta-feira, outubro 14, 2005

Nunca vai cessar de me espantar
que as pessoas me vejam como
uma pessoa sensível e boa.

Talvez tu lhes devesses contar
sobre a noite em que te olhei nos olhos,
te arranquei o coração do peito e sorri.

Ou talvez devesses contar o que disse:
"Tu para mim morreste, és menos que nada,
não me fales, não me olhes, nem digas o meu nome."

Deixa.
Basta-lhes saber o bem que me soube
fazer sofrer a mulher que amei.

quarta-feira, outubro 12, 2005

Vivo


Chove torrencialmente e nem me importo.
Só sei que me sinto vivo, neste exacto momento,
da madrugada pintada de cinzento sepultura.

Caminho de braços abertos e cara levantada,
deixando a chuva gelada escorrer pelo pescoço
e inundar-me de vida a alma ressequida.

Na luz matinal, a chuva parece chumbo derretido,
e eu riu alto demais nas ruas desertas cheias de lama,
porque a chuva chegou para me lavar os olhos.

O vento brinca com o meu cabelo encharcado,
e sinto, e espero, e desejo que me agarre as mãos
e me leva a passear no meio das nuvens negras.

segunda-feira, outubro 10, 2005

as primeiras chuvas

vieste com as primeiras chuvas
à minha procura nos bares
por saberes que me tinhas
deixado partido e perdido
no fundo de uma garrafa

vieste na busca estúpida
da recordação esquecida
do nosso amor passado
porque não tinhas já
quem te abraçasse

vieste nos meus braços
numa nuvem quente
de álcool e prazer
e choraste saciada
perdida no meu peito

mas depois veio o sol
e quando a luz chegou
lá te lembraste que
agora já não me amavas
e sumiste na manhã

e lá me arrastei eu
nem melhor nem pior
para o fundo da garrafa
até que voltem a cair
as primeiras chuvas

intimidade

resolvi contar a todos o bela que és
quando ficas assim meia acordada
nos meus braços
com o pijama de flanela azul
que a tua mãe te deu nas férias
e me deixas o braço dormente
com essa tua mania
de te esconderes da luz
aninhando-te no meu ombro
e me acordas com o perfume
dos teus cabelos soltos
e com o calor da tua respiração
a arrepiar-me o meu pescoço

o lobo

antes quebrar que dobrar
diziam-me os meus avós
quando eu era pequeno

quando entrei na escola
a professora batia-me
e eu não lhe dava razão

depois cresci e aprendi
a responder mordendo
à ignorância dos outros

muitas vezes quebrei
por erros meus
ou abandono dos outros

mas ainda guardo o orgulho
de mesmo quando a carneirada
foge, nunca ter dobrado