quarta-feira, maio 31, 2006

horizonte

perdida a razão procuro
nos teus olhos o perdão
aquela força que dizes não ter
na luz negra dos teus olhos

não tenho a tua voz aqui
sólida e inteira e presente
só ecos quebrados de gritos
e lágrimas desenhadas no chão

por isso escrevo para mim
uma nova direcção do olhar
porque me dizes que preciso
porque mo grita a tua ausência

um novo horizonte encoberto
desenhado pelas linhas do teu corpo
com florestas de beijos teus em mim
mas sempre sem ti, amor, sempre sem ti

quinta-feira, maio 11, 2006

viagem

O meu pensamento perde-se enquanto olho através do reflexo irreal da janela do autocarro.
Na noite que cai quase que me vejo a mim, num quase espelho do qual é tal fácil escapar como ao cair da noite, tão fácil quanto fugir da lua que nasce certamente detrás destas nuvens.
Não penso realmente, não existo realmente, o meu ser dilui-se pelas bermas da estrada, pelo contorno a carvão gelado que se começa a desenhar na planície, já se escapam pormenores desta fotografia viva, mas que importa, se não estou realmente aqui, apenas estou distraído olhando as margens.
Estou tão transparente quanto o vento, neste momento perdido, nada ressoa no interior do meu ser senão o eco tremido do motor, e o vago sabor da música que escorre pelo ar como alcatrão viscoso e se entranha pelos poros da pele.
Mexes-te levemente no meu ombro, tens a minha mão escondida nas tuas desde que nos sentámos, quando adormeceste no meu ombro a paisagem pintava de luz os teus olhos, essa luz escorria como água fresca pela tua cara, pelo teu sorriso vago, pelo teu peito encostado a mim.
O teu peito respira ainda calmamente, suspira vagamente sobressaltado apenas no momento em que acordas, e olhas o mundo que escurece, devolves a luz que guardaste nos teus olhos, que fechaste em ti no momento em que adormeceste, voltas a aparecer no reflexo do vidro, voltas a mexer-te.
Sorrio-te apesar do meu ombro dormente, da dor no meu braço, das horas que permaneci imóvel.
Sorrio-te porque é a única coisa que sei fazer, quando amanheces assim, mesmo num começo de noite, abraçaste-me e apertas-me a alma, já se vêm as luzes da chegada, a viagem canta já o seu fim.
Mas só a luz que escorre de ti, lentamente, gota a preciosa gota, permanece no ar abafado. E, de repente, eu já sou eu outra vez, já existo, aqui, nos teus braços.

quarta-feira, maio 10, 2006

Uma criança

São quatro e meia da manhã, e já devia estar deitado há muitas horas atrás.
Mas não consigo dormir, não consigo mesmo, nem vale a pena tentar, as lágrimas escorrem-me pela cara, o lábio de baixo quase sangra de tanto o morder, o meu coração morreu à uns momentos atrás.
Acabei de ver um filme, aliás, uma cena de um filme, que sorte a minha, apanho sempre a mesma cena do filme, começo a achar que é uma mensagem para mim, atirada ao mar por outra parte de mim que me quer bem ferido e cru por dentro. O filme é "A Lista de Schindler", e a cena é a do massacre dos judeus no gueto de Varsóvia, aquela cena em que no meio das imensidões cruelmente cinzentas do filme se vê uma pequena menina perdida, com um casaco vermelho, um capuchinho perdido no meio dos lobos, uma pincelada de cor, de vida, no meio da morte que a rodeia.
Lembro-me de quando vi o filme no cinema, a revolta volta, é revolta pura o que sinto, não por motivos religiosos, não acredito nem no Bem nem em nenhuma religião em especial, há muito que perdi a pouca fé que ainda se me agarrava aos ossos. Nem se quer é a morte, essa não me afecta nem um pouco, conheço-a bem, chamo-a por vários nomes, nomes de amigos, nomes de família, nomes que não os meus sonhos não me deixam esquecer.
Para dizer a verdade, é a criança, a menina de vermelho.
Algo em mim se parte quando vejo aquela criança ali, aquela criança que sei que morrerá, morrerá como tantas, mas é aquela que dá corpo aos meus medos, que dá nome aos meus desgostos.
Todos os músculos do meu corpo querem agarrá-la, levá-la dali, protegê-la desta morte que a rodeia, a esta menina que não existiu nunca realmente, mas que existe para mim, que existe para os meus olhos. E as lágrimas caem dos meus olhos porque estou sentado, num confortável sofá, mais de cinquenta anos depois, a ver uma menina que nunca existiu caminhar inocentemente para a morte.
E, apesar disso, quero salvá-la. Quero mesmo. E o meu desgosto é não conseguir, não conseguir que aquela criança se salve, que nenhuma delas se salve, simplesmente porque ela é, como tantas outras, uma pincelada de cor de sangue vivo no nosso mundo de purgatórios cinzentos e mortos.
E nunca os conseguimos salvar.
Que vontade de matar quem a mata, de esmagar quem vai esbater o seu sorriso, por motivos que nem eu nem ela percebemos bem.
E mesmo assim não a consigo salvar.
Nem mesmo dentro de mim.

terça-feira, maio 02, 2006

Renascer

Três horas de dor pura, não adulterada, tinham já passado. Não que fosse uma dor especialmente forte, tinha já passado por dores bem piores, daquelas dores que nos fazem querer enrolar no chão e chorar, que nos fazem querer arrancar a pele dos braços com os dentes.
Até esta dor não era desconhecida, já tinha passado por mim antes, as sucessivas picadas do tinteiro na pele nua, rasgando e criando ao mesmo tudo, deve ser esta a dor da criação, a pele abandona o seu estado natural e funde-se com a tinta, cria um conceito, cria um novo ser através da dor.
Mas nunca durante três longas horas. Tento nem pensar nisso, tento que a minha mente voe daqui e me faça esquecer que estou imóvel à três longas eternidades.
Falho redondamente, cada risco do tinteiro puxa-me violentamente de volta para a realidade, cada músculo das minhas pernas clama vingança, a pele massacrada do meu braço vai cair a qualquer momento.
Torna-se uma luta contra o meu corpo, fico reduzido ao mínimo que sou, é só a minha vontade que me impede de cair na súbita escuridão, só ela me impede de desistir. Quando aqui entrei ela, a minha vontade, já estava no seu limite, gasta por cinco anos de purgatório, batida e de lágrimas nos olhos por um ano de inferno. Não sei sequer como ela me aguenta de pé quando finalmente acaba.
Quando saio é já noite, um vento frio faz-me tremer tudo menos o braço, esse está dormente, a Fénix renascida dorme já encostada a mim, sou já outro e ninguém vê, ninguém se apercebe da mudança.
Caminho devagar pelas ruas mal iluminadas, passam por várias sombras que evitam ser vistas, mas não me importo nada, estou finalmente vazio, finalmente limpo, três horas de dor limparam todas as outras dores, apagaram todo o mundo passado para sempre, estou limpo e leve e livre, sou eu a negra Fénix que voa anichada no meu braço.
E atrás de mim, só as cinzas restam.
Só as cinzas.

sexta-feira, abril 21, 2006

Soneto para Fernanda

Pequena pérola de luz
num cofre de conchinhas,
guardado no mar
que guardas na alma.

Alegre lágrima perdida
a rolar pelo sorriso solto,
naufraga dos teus olhos
castanhos da côr da terra.

Mil olhares para o céu,
mil passos na margem,
das páginas que escreves.

Promessa de flor humana,
agarrada a ti como as margaridas
que trazes a beijar-te o cabelo.

quarta-feira, abril 12, 2006

Às vezes...

Às vezes...

Às vezes penso que só existes na ponta dos meus dedos, quando desenho o teu corpo por cima da roupa com que o tapas, que só existes naquele espaço que escavaste para ti no meu ombro esquerdo, aquele espaço onde os teus sonhos nascem e terminam.

Às vezes bebo a minha força dos teus lábios, como se tudo aquilo que preciso para viver nascesse na tua voz cantada em notas roubadas, como se os teus lábios finos fossem os pilares que sustêm o meu mundo, o meu firmamento, tudo o que conheço.

Às vezes acordo nos teus braços e tenho medo de me mexer, medo até de respirar, medo que um só sopro afaste a névoa de calor e chuva que o teu corpo encostado ao meu provoca nos meus olhos, que aquele peso subtil do teu corpo no meu desapareça.

Às vezes, fico acordado a ver o sol nascer pela janela do teu quarto e encher os teus caracóis de dourado, banhar os teus ombros nus de mel luminoso, enquanto te olho adormecida e espero que acordes com os olhos cheios da luz matinal.

Às vezes tento desenhar palavras em páginas amarrotadas, juntar em quadros escritos os pedaços mal cortados deste mundo que construí para ti, que construí na esperança de um dia ser só nosso, só meu e teu.

Às vezes, até acho que consigo viver sem ti, respirar sem ti, voltar a olhar o céu como o olhava antes de teres dado novo nome às estrelas, acordar como acordava quando estava só, fazer o pequeno-almoço só para mim, viver só para o meu corpo.

Às vezes...

terça-feira, abril 11, 2006

volto amanhã

os meus pensamentos voam soltos

como dragões na névoa irreal do quarto

fazem uma escadaria para onde a lua brilha

e os teus olhos nunca choram

nem mesmo quando eu os faço chorar

faço festas nas ondas douradas do teu cabelo

enquanto espero que acordes para me despedir

não chores mais meu amor eu volto amanhã

para onde os teus lábios me tentam agarrar

agora não me abraçes amor senão não consigo voar

terça-feira, abril 04, 2006

Estátua de Sal

Debaixo desta torrente de líquido quente que me escorre pelo cabelo para a cara, para as costas, para o resto do corpo, tento apagar o cheiro de ti, substituir o calor de ti pelo calor da água que o chuveiro vomita violentamente.
Viro a cara para cima, talvez olhando este mar fervente consiga apagar os teus olhos dos meus, mesmo assim, talvez mesmo com eles fechados, te consiga apagar, a água entra-me morna pelos lábios, recorda-me a tua língua, também a água dança na minha boca...
Entras neste mundo de vapor como uma avalanche morena, o teu cabelo apanhado no topo da cabeça, pareces uma medusa pronta a consumir o mundo, a transformá-lo em pedra, a mim transformas-me numa estátua de sal, sal que se tenta desfazer debaixo desta cascata antes que me desfaças tu com os teus lábios.
Agarras-me pelas costas, as formas do teu corpo frio coladas a mim como uma sereia a uma rocha fria da praia, cruzas as mãos no meu peito e cantas baixinho, encostas a cara ao meu coração, ouves o que sinto através das minhas costas, escondida da água e do mundo pelos meus ombros, a canção que me teces pergunta-me se há espaço para ti.
Meu amor, para mim não existem espaços sem ti.

quinta-feira, março 30, 2006

Tarde na casa de chá

Está sol e chove.
Ambas as naturezas que sou, misturadas numa só substância, num só caminho descendente dos céus. O mundo sorri, sorri ao sol que o abraça, e à chuva que o beija, ou se calhar sou só eu que assim o vejo, só eu que assim o percebo.
Deve ser de estarmos os dois aqui, a trocar momentos.
A casa de chá está vazia, à nossa volta apenas cadeiras solitárias esperando ansiosamente quem as ocupe, e o vapor que sobe das taças de chá envolve-nos os sentidos, fotografa para nós os raios de sol filtrados pela chuva, esses raios que nem os vidros param, que nos aquecem, como o chá.
O teu cabelo está molhado, o teu sorriso também, mas a tua voz canta, será este o som da alegria, será esta a voz que se ouve quando se está assim, em paz?
Não sei.
Só sei que o tempo está parado, aqui, neste momento luminoso, enquanto o vapor adocicado do chá sustém carinhosamente as nossas palavras e o leve cheiro a doce de amoras se mistura com as palavras que me cantas.
Uma tarde a ouvir-te cantar palavras, separados por um mar de madeira navegado por um bule de chá, onde agora já só algumas migalhas relembram os bolos que fizemos naufragar.
Vivo, estou vivo outra vez.

sexta-feira, março 24, 2006

Pintura de mim

destruíste-me
todas as máscaras
todos os muros que fiz

agarraste-me o braço nu
acariciaste a minha pele
e cantaste baixinho
só para mim

existes mas não és tu
és esta imagem pintada
és tu como ninguém vê
mas não, nunca és tu

beijei-te para te calar
mas ainda disseste
o que está aqui não és tu
é só uma pintura

uma pintura de ti

segunda-feira, março 20, 2006

trovoada

O céu é um borrão de tinta negra, um cobertor abafado que se arrasta lentamente sobre a cidade, sobre o peito das pessoas, tapa até a luz, até mesmo a luz se altera.
A trovoada arrasta-se preguiçosa, ela não tem pressa, altera o mundo à sua passagem, todos se escondem, todos parecem querer fugir-lhe, a cidade a meus pés esvazia-se lentamente.
É aquele medo gravado bem fundo nas nossas recordações, aquele medo muito humano que temos de tudo o que não controlamos, aquele medo que temos também das tempestades no mar e dos fogos na floresta. Um medo fundo, genético, comum.
Pois eu adoro esse medo, talvez tanto quanto adoro a trovoada.
Neste terceiro direito anónimo, apenas mais uma varanda escondida à vista de todos, tenho a vista desimpedida sobre a cidade, vejo-a fugir, esconder-se, e em alguns minutos as ruas estão vazias, cada num está em sua casa, protegido da promessa de chuva, escondido do medo.
Apenas eu oiço este silêncio, este vento sufocante, frio e abafado, que lambe a cidade antes do primeiro raio.
Mas antes o trovão. Sempre o trovão antes.
Ao ouvir o primeiro trovão o meu coração salta, todos saltam, porque não o meu também, mas o meu não salta só de medo, salta porque quer sair, ver os rasgões de branco eléctrico que rasgam o negro cobertor celeste.
A minha alma rasga-me desesperada o interior, também ela quer sair, mas a ela não posso deixar sair, se ela sai já não volta. Junta-se a este infinito chão de nuvens negras, vai-se derramar pela cidade, com a chuva que já promete cair a qualquer momento.
Olho o céu como uma criança, a minha prenda, a minha prenda está aqui, derrama medo, escuridão, lava a cidade, esvazia-a só para eu a olhar, só para eu a tempestade ficarmos os dois, sozinhos, apaixonados nesta varanda.
Estou feliz. Verdadeiramente feliz.

terça-feira, março 14, 2006

Momento

Arrasto-me lentamente até à cama, a toalha branca envolve-me pela cintura, corte branco numa tela morena. A dor está lá, viva, a morder-me o joelho, a agarrar-me e a arrastar-me para a cama.
Deixo-me cair, fico a respirar pesadamente, como se o ar que saí de mim às golfadas conseguisse arrancar a dor para fora, como se me fosse obrigar a vomitá-la, o corpo molhado espalmado contra os lençóis, como se se tivessem esquecido de me erguer crucificado.
Tento concentrar-me na névoa açucarada de incenso e laranjas que se derrama pelo quarto, que se espalha das velas do teu tocador, o espelho a reflectir a vida das pequenas chamas pela luz cancerosa da tarde quente, vens sentar-te ao meu lado e o cheiro a fresco do teu cabelo acompanha as gotas mornas que me deixas cair nas costas.
A dor começa a subir-me pela perna como uma serpente escamosa e gelada, mesmo na tarde quente sinto a perna a gelar. As gotas que escorrem do meu cabelo passeiam-se pela minha cara, convidam as gotas mal presas aos meus olhos para as acompanharem.
Tocas-me nas costas e obrigas-me a virar, sem fazeres força, sem dizeres nada, obrigas-me a virar para ver os teus olhos, para me matar neles.
Deixas a minha cabeça fazer ninho no teu colo, será a rádio que me canta ou será que apenas acompanha a canção que escorre lentamente dos teus lábios, da tua boca, já não sei, apenas oiço a canção da dor, e a tua, qual delas a mais pura.
A tua mão direita tapa-me os olhos, penteia-me os cabelos, os teus dedos estão nos meus lábios, fizeram lá morada, tentam puxar a dor de dentro de mim.
A outra mão percorre o meu tronco, não me toca realmente, apenas desenhas as minhas cicatrizes com a promessa do teu toque, deixas-me quase adivinhar que me tocas, é como se estivesses a fazer um rascunho para guardar na memória.
Cantas baixinho, quase adivinho o teu sorriso através dos meus olhos fechados.
E assim adormeço, lavado do mundo, a doer-me no teu colo, crucificado nos teus dedos, onde a dor existe mas não importa, nem mesmo um pouco, nem mesmo nada.

quinta-feira, março 09, 2006

entre nós

Entre nós não existem palavras,
existem apenas pequenos passeios
que as nossas mãos fazem pelo corpo.

Corpo só temos um, nem teu nem meu.
Nosso, como esta noite, como este suor,
como o amanhã que desponta já nos teus olhos.

Estremecemos juntos, formamos aqui
as ondas de um mar só nosso, apagamos
este espaço vazio que se forma entre nós.

E com gesto conhecidos pintamos mundos,
criamos estrelas, destruimos universos,
e segredamos os passos da nossa viagem
um ao outro, para que nada caminhe entre nós.

terça-feira, fevereiro 28, 2006

minh'alma

É ainda de noite quando me levanto, o corpo ainda me pesa no fôfo conforto dos lençóis e da casa aquecida, mas é preciso acordar, é preciso vestir, enfrentar o mundo gelado, pintado de negro, que me quer lá fora tanto quanto eu quero sair.
Lá fora oiço o céu chorar, lavar o mundo com as suas lágrimas, muito deve sofrer o céu, muitas devem ser as saudades que as nuvens têm, para tanto chorarem enquanto correm no seu caminho. Visto-me depressa, tento agarrar ao corpo o calor da cama, o vapor dos sonhos, que nos aquecem as noites.
Sou o último a entrar na cozinha, todos estão de pé, pratos na mão, comem sossegadamente no escuro, o copo de vinho ao alcance da mão, nenhuma palavra corta a madrugada, nenhuma ideia senão aproveitar o calor da comida na escuridão que nos abraça, a pequena figura da minha avó dança, enchendo pratos, cortando carnes, lavando já as coisas, move-se rapidamente entre os homens grandes, de pé na cozinha, uma fagulha de calor e vida no meio de pilares de carne que comem devagar, não vá a comida fugir.
O meu trabalho é simples, sei-o de cor, faço-o de olhos fechados. É o trabalho de quem não tem arte, de quem não vive da terra. Reconhecem-me o mérito, trabalhas muito rapaz, és grande, és forte, mas não tens arte. Ganhas respeito, mas não ganhas palavras, não tens arte nem rugas para isso, não és um dos antigos, é a lei eterna do campo.
Submeto-me à lei, o silêncio é total, nem no carro se fala, só na paragem na tasca, um copo de bagaço para aquecer o dia, trocar novidades conhecidas com quem se viu ainda ontem. Ai sim, ai sou importante, é importante mostrar o novo, o neto, o sobrinho, apresentar o doutor.
É grande e largo de ombros, não parece um doutor. Mas é, é doutor de letras, responde um sorriso, ao sorriso responde o espanto, homens das letras são de outro mundo, têm outra sabedoria, trocaram as mãos duras pelos olhos cansados, as penas dos corpo pelas da mente. Um homem dos dois lados, tem duas dores, será um dos seus que conhece os segredos dos outros, ou um espião? À noite se verá, vamos ver se se aguenta.
Com uma tira de meia luz, já uma promessa de sol aparece no horizonte, atiro o meu corpo ao trabalho, já levo uma hora de carga quando a luz do sol me invade os olhos e me apresenta ao dia. Mas não paro, mesmo sozinho, única voz no raio de quilómetros, só paro o trabalho acabado, a meio da manhã, e começo a andar pela lama para o local de encontro, ladeado de verde e de vida. Os animais seguem-me alguns momentos, mas depois desistem, os sinais que esperam não saem, caminho leva para longe da sua comida, é melhor ficar.
Ao subir o primeiro monte reparo finalmente que é já dia, o céu de chumbo parou de derramar tesouros sobre nós e agora parte, deixa-me aproveitar o sol, secar a roupa no corpo, aquecer-me os braços e ombros doridos.
O dia segue lentamente, o ritmo da planície marca homens e animais, aqui o tempo não passa, escorre lentamente pela paisagem, como mel, parece que escorre do próprio sol, espalha esplendor pela planície de pão e azeite.
Voltar a casa, o dia acabado, o sol já se põe, aqui não se trabalha sem sol, tomar um banho para lavar as dores, mudar de roupa, comer sentado pela primeira vez durante o dia, até o corpo estranha, primeiras conversas do dia, com quem todo o dia falou, parece que estamos noutro mundo, um mundo de barulho, parece que vimos da morte.
Sento-me na cama, dói-me o corpo todo, atiro-me ao sono sedento de descanso, sedento de paz, não mais um corpo, sou apenas um monte de cordas que alguém arrumou nesta cama.
Antes de dormir, lembro-me do sol a entrar nos meus olhos e fico com a certeza, aquela fé inabalável que nasce devagar, sem dar-mos por isso, que não pertenço a este mundo. Os antigos têm razão, das rugas nasce a sabedoria, um homem das letras sou, preso noutras lidas estou.
Mas esta é a minha terra, nunca tive tanta certeza, não é na minha língua que moro, nem nas palavras.
É na solidão da planície, num dia de trabalho chuvoso, que a minha alma reside.
Esta é a minha morada, a planície dos silêncios, sem casas, nem sons, nem palavras, sem um único pensamento fugidio de vãs demandas.
Apenas o chão, o céu, e a minh'alma.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

A cama

Todos os os dias.
Eram todos nossos, era a nossa vida, não vivia sem ti.
Eramos um só ser, até quando estávamos separados, juntava-nos aquela sede do corpo, aquele querer ser um só outra vez.
Agora, passado tanto tempo, estás outra vez na minha cama.
O cenário mudou, até a própria cama não é a mesma, nem nós, mas os velhos gestos voltaram rápidos, como se só o dia nos separasse, como se tivessemos voltado agora a casa e despertado nos braços um do outro.
Enquanto escrevo sinto ainda o teu perfume, não o aquele artificial que apaguei com beijos do teu pescoço, mas sim aquela leve recordação do cheiro a maçâs que o champô deixou no teu cabelo, e aquele sentir quente que o peso subtil do teu corpo marcou no meu.
Olho a cama de relance, dormes sorridente, anichada no meio, a cama deve estar tão quente como a noite está fria.
E a noite está fria, começo a aperceber-me, ela lava-me do teu calor, da tua presença, acorda-me deste sonho.
Se aomenos não fosse a minha casa, podia ir-me embora enquanto dormias, deixar-te aí quente, irreal, uma noite de regresso ao futuro que um dia tivemos, que um dia sonhámos, nada mais, nada menos.
Tenho vontade de meter as minhas mãos nos teus olhos castanhos para limpar todo o lodo que te afoga a alma, encontrar um resto do que foste, talvez encontrar-me ai também, afogado, perdido ainda nos teus olhos.
Ilusões.
Vais acordar e nem me vais olhar. Vais dizer que tudo foi um erro, vais deitar umas lágrimas meio sentidas, meio por que sim, vais-te vestir e vais voltar à tua vida, vais sair outra vez da minha, pensando talvez que outro dia voltes.
A noite está mesmo fria, volto para a cama, estremeces e abraças-me quando entro de novo nos lençois, o sorriso está mesmo lá, precisavas de o encontrar, foi essa a razão de tudo isto.
Tinhas-te perdido, a mulher que realmente és, e precisavas voltar para um sítio seguro, um sítio feliz, que o teu sorriso conhecesse bem. A nossa cama.
Mas esta não é a nossa cama, é minha.
Não moras aqui, nesta cama, espero sinceramente que nunca mais percas o teu sorriso, que nunca mais te percas, esta cama é minha e este coração é meu, e foi a última noite em que os ocupaste.
Como eu desejei, até à pouco tempo, ter-te de novo aqui. Mas a nossa cama foi e veio, o nosso futuro nunca vai acontecer, até podiamos querer, mas saberiamos sempre que era mentira.
Por isso agora vou dormir, bem agarradinho a ti, e acordar feliz.
Porque já me despedi.




terça-feira, fevereiro 14, 2006

S. Valentim

Fui um abraço quando precisaste,
fui um corpo onde te afogaste,
fui um coração a bater compassado
com o teu sonho magoado.

Envolvi-te nos meus abraços
e nem o mundo, nem a luz,
nem as recordações do céu
passaram pelos teus olhos.

Fui o teu mundo quando pediste,
fui o chão dos teus passos,
parti o meu trono e a minha coroa
para te fazer sorrir de novo.

Mas nunca vou ser para ti
a salvação colorida e doce
que a tua voz é para mim
todos os dias deste mundo.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Êxtase

O meu coração dispara quando a tua mão toca no meu peito e aperta.
Não é paixão, nem amor, apenas o querer provar os teus lábios, o teu corpo.
O desejo é animal, já não sou humano, sou apenas vontade, sou apenas querer.
Mordes-me o ombro, agarras-me os pulsos, voas nos meus braços, somos apenas vapor,
somos apenas calor.
Sigo as tuas linhas com a ponta dos meus dedos, escrevo na minha memória
a forma do teu corpo.
São dos corpos celestes que voam, são dois sóis, são dois cometas errantes que chocam
e se despedaçam um no outro.
Não há magia, não há amor, apenar sede, apenas vontade, apenas agora.
E finalmente o momento acaba, finalmente respiro de novo.
Respiro finalmente, apenas te respiro a ti, apenas respiro o teu perfume, o teu suor, o teu calor.
Tenho de voltar a casa, sair daqui, sentir o frio da noite na cara.
Mas a tua mão viaja no meu corpo, perdida de novo, de novo no meu coração.
E tudo recomeça.

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Se tu não tivesses olhado para mim

Hoje, enquanto a neve caía, pensei para mim que este era um momento único, daqueles momentos que ficam gravados na memória como momentos de felicidade pura, e que sobrevivem mesmo quando os pormenores se esbatem, mesmo quando apenas a recordação vaga como vapor permanece, e a noção do que se passou vagueia pelos recantos da nossa mente, para ser encontrada apenas quando sorrir é necessário.
E no meio da minha alegria, pensei em ti.
Mas não te preocupes, disfarcei bem, ninguém percebeu, ninguém viu o fantasma de ti passar pelos meus olhos, pela minha boca, beijar-me os pensamentos.
Já mais tarde, sentado a secar ao calor, os meus pensamentos perderam no fogo, o seu calor a fazê-los voar, a fazê-los viajar para onde eu não quero que eles vão, para os teus braços, para o teu calor.
Oxalá estivesses aqui, este dia podiamos tê-lo partilhado, como duas crianças que partilham uma concha do mar, sem dúvidas nem condições, apenas o momento, apenas a alegria.
Uma voz do fogo sussurrou-me então levemente, mais valia nem te ter conhecido.
Essa pequena chama instalou-se em mim, ardeu um pouco e morreu.
Morreu porque eu sei que, se tu não tivesses olhado para mim, tantas vezes com amor, e outras tantas, tantas vezes com lágrimas a taparem a luz dos teus olhos, eu não saberia.
Se tu não tivesses olhado para mim, naquela primeira manhã da nossa vida, eu não saberia abraçar, segurar um coração com um abraço terno e seguro, nem saberia pular para o infinito, sem corda. sem rede, sem medo, só amor e esperança. Não saberia o real valor da fé, aquela fé inabalável que vem depois de acordar nos teus braços.
Se não tivesses olhado para mim, e eu para ti, um banal cruzar de olhos para todos os outros, num café estupidamente cheio, será que eu seria eu?
Provavelmente.
Mas se não tivesses olhado para mim, naquela manhã quase tarde em que acordámos nos braços um do outro, eu não saberia amar, amar realmente, aquele amor sem condições, sem dúvida, sem esperança de salvação.
Aquele amor que sabemos existir sem precisar de palavras para o dizer, ou sequer pensar.
E é assim que me vou deitar, cheio de certezas e saudades, mas mais de dor que tudo mais, porque não vou acordar mais embalado no teu olhar, por mais que neve lá fora.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

gemido

não quero continuar
a pagar assim
desta forma
os passos em falso
por favor
deixa-me cair aqui
coração
deixa-me desistir
e ficar aqui
deitado
morrido
sem marcas
nem recordações
de outros
corações

não
por favor não
já não tenho lágrimas
só soluços
e memórias
nem mesmo vontade
só o orgulho me move
e tu
e tu
coração
meu coração

mais por hábito
mecânico
automático
humano
que por
realmente
querer continuar
deixa-me ficar
aqui
coração
meu coração

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Olhos castanhos

Tenho medo de mim naqueles momentos em que os meus olhos ficam cinzentos, como o céu está neste exacto momento.
Não sinto nada, nem o frio, nem o vento, nem a neve branca que navega perdida pelas ruas.
Sinto-me como uma estátua de sal, de dor e saudade, desesperado demais para me sentar num autocarro meio cheio, nesta cidade perdida pintada de cinzento e branco sujo.
Entro na sala de aula e nem tiro a cadeira do sítio.
Parado no estrado, em frente ao meu público habitual, os meus ombros são penedos de granito, a minha boca e os meus olhos são pequenas linhas perdidas no mapa do meu rosto.
Olho-os, suspiro e mergulho de cabeça naquele esquecimento que só o trabalho dá, aquele adormecer da nossa vida que existe para lá desta sala.
E deixo que a pouco e pouco as ondas de cansaço e esquecimento, que vão subindo pelo meu corpo, apaguem tudo o resto.
Excepto o cinzento do céu, excepto o cinzento dos meus olhos.
É já noite escura, é já a morte gelada, misto de frio e de esgotamento, quando saio para a liberdade novamente.
Assim que abro a porta o calor de casa quase que me queima a cara, devo estar morto, mas afinal estou só gelado e cansado. Deixo o rasto de roupa para marcar bem o caminho para o banho que me vai limpar do mundo, desfazer as linhas da cara, fazer-me sonhar com o meu país.
No final pareço outro, limpo, leve, quente.
Mas os meus olhos estão cinzentos.
O céu agora é negro, lá fora chovem as mágoas do mundo, que grita e chora a tempestade.
Aqui dentro há vida, há calor, só os meus olhos estão cinzentos.
Afogo-me um pouco em trabalho e depois vou fazer o jantar, naquela linha diária traçada de pessoa só, de fim de dia de estrangeiro em terras estranhas.
Enquanto como e me apago em frente ao televisor, fingindo que não durmo nesta ilha almofadada a vermelho e branco, chegas tu, pequeno furacão de energia resgatado de um dia de tempestade, com pequenas grinaldas de neve e diamantes de chuva no teu cabelo.
Molhas-me a cara quanto pousas nos meus braços, estás gelada e eu abraço-te, sinto a luz do teu corpo atravessar o meu como se fosse papel de arroz e iluminar toda a sala.
Olhas-me e dizes, numa voz cansada e sumida, empoleirada em lábios gelados como um pássaro doce, "Meu amor, hoje tens os olhos tão castanhos."