energia
todo o teu corpo é um eléctrodo
propagas corrente pelas minhas mãos
como um cataclismo de luz
como se o sol
farto de esperar por mim
me esperasse já na porta
e me comesse os lábios
antes de me deixar sequer entrar
sobes
enrolas-te pelo meu corpo
como uma serpente alada e suave
e arrancas-me a alma com doce perfume
envenenado pelos teus beijos
arrasto já os corpos pelo chão
numa direcção que nem sei bem
paras
olhas-me sorrindo
deixas-me respirar um momento
fechas a porta com um pé
arrancas os meus olhos com os teus olhos
e dizes-me olá
e chamas-me teu
"Mas eu, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos; Espalhei os meus sonhos debaixo dos teus pés; Caminha suavemente, pois caminhas sobre os meus sonhos." W.B. Yeats
segunda-feira, novembro 13, 2006
terça-feira, novembro 07, 2006
atracção
Nunca sei bem o que te digo, as palavras pulam simplesmente na tua direcção, como se fosses um íman para o que digo, para o que vejo, para o meu corpo.
Torno-me um espectador ausente, como se dormitasse num cinema, apenas me apercebo do mundo através de grandes imagens coloridas, gigantescos quadros de óleo, enormes telas vivas e quentes narradas pela tua voz gotejante.
E a tua mão agarra minha.
Desperto debaixo de uma chuva infinita e negra, que cai da noite como pedaços de alcatrão gelados, parado à porta da tua casa, a tentar agarrar o calor da cama ao meu corpo, a tentar lembrar o teu cheiro na minha cara antes que se misture com as lágrimas das nuvens.
O primeiro passo é o mais difícil, mas o peso do sono empurra-me para a calçada e avanço por puro hábito de fazer o caminho de volta, o serpenteante caminho de pedra que me leva para um dia de névoa cinzenta e outras vozes.
Mas que leva também, quase que rezo enquanto ando, de volta para as tuas mãos.
Torno-me um espectador ausente, como se dormitasse num cinema, apenas me apercebo do mundo através de grandes imagens coloridas, gigantescos quadros de óleo, enormes telas vivas e quentes narradas pela tua voz gotejante.
E a tua mão agarra minha.
Desperto debaixo de uma chuva infinita e negra, que cai da noite como pedaços de alcatrão gelados, parado à porta da tua casa, a tentar agarrar o calor da cama ao meu corpo, a tentar lembrar o teu cheiro na minha cara antes que se misture com as lágrimas das nuvens.
O primeiro passo é o mais difícil, mas o peso do sono empurra-me para a calçada e avanço por puro hábito de fazer o caminho de volta, o serpenteante caminho de pedra que me leva para um dia de névoa cinzenta e outras vozes.
Mas que leva também, quase que rezo enquanto ando, de volta para as tuas mãos.
quinta-feira, outubro 19, 2006
olho as tempestuosas mãos como se nelas residisse realmente a minha salvação, como se pudesse rasgar o celeste cobertor cinzento de chumbo derretido e arrastar-me para o escuro conforto que reside detrás do céu
acho que só mesmo a chuva que cai me salva, deve ser de estar tão encharcado, nem sei se tremo de frio ou de coragem, tenho tanto sentir acumulado que tremo quando ele sai, quando a chuva me escorre das pontas dos dedos e o vento me enrola e dança comigo
sou uma pedra que anda, sou uma estátua flutuante
e não sei realmente o que fazer quando a barragem rebenta, quando as lágrimas que das nuvens caem me entram pelos olhos e puxam as minhas para o ar frio, ambas se misturam e me gelam a cara, parece que choro facas e respiro espadas, parece que os meus pulmões se enchem do sangue que me gela no copo todo
sou uma pedra que parte, sou ...
sei lá eu o que sou
sou um gajo encharcado, gelado e partido, e só me quero meter num mundo de vapor e lágrimas quentes e confortáveis com que o chuveiro me vai envolver, assim que chegar a casa
e aí, nos teus abraços, não me importo de não existir
acho que só mesmo a chuva que cai me salva, deve ser de estar tão encharcado, nem sei se tremo de frio ou de coragem, tenho tanto sentir acumulado que tremo quando ele sai, quando a chuva me escorre das pontas dos dedos e o vento me enrola e dança comigo
sou uma pedra que anda, sou uma estátua flutuante
e não sei realmente o que fazer quando a barragem rebenta, quando as lágrimas que das nuvens caem me entram pelos olhos e puxam as minhas para o ar frio, ambas se misturam e me gelam a cara, parece que choro facas e respiro espadas, parece que os meus pulmões se enchem do sangue que me gela no copo todo
sou uma pedra que parte, sou ...
sei lá eu o que sou
sou um gajo encharcado, gelado e partido, e só me quero meter num mundo de vapor e lágrimas quentes e confortáveis com que o chuveiro me vai envolver, assim que chegar a casa
e aí, nos teus abraços, não me importo de não existir
domingo, outubro 15, 2006
mãos geladas
Consigo saborear no ar que o teu beijo deixou nos meus pulmões aquele doce cheiro a vingança que aparece na noite, misturado no sabor gorduroso a morango que o teu baton plantou pela subida do meu pescoço até à minha boca.
Tens as mãos geladas, arrepias-me a pele quando me tocas o peito, que estranha mistura esta, as minhas costas suam, quase que tremo da mistura entre o frio e o nervoso, tenho medo que descubras que já perdeste, que já te puxei para mim, tenho medo que olhes à volta e descubras que já navegámos da sala para o quarto.
Os teus caracóis soltam-se quando te envolvo a cintura com a mão e te levanto, ris de espanto e de prazer, pareces uma criança que descobriu um baloiço, não te deixou logo, fico a segurar-te assim, em pleno ar, olhos nos olhos, as tuas mãos seguram a minha cabeça, sou real e o teu sorriso acredita, ainda tens uma ponta de riso pendurada nos lábios, passa uma eternidade, passam duas, quase que passam três quando saltas e me sugas a alma com um beijo.
Já não tens as mãos geladas.
Tens as mãos geladas, arrepias-me a pele quando me tocas o peito, que estranha mistura esta, as minhas costas suam, quase que tremo da mistura entre o frio e o nervoso, tenho medo que descubras que já perdeste, que já te puxei para mim, tenho medo que olhes à volta e descubras que já navegámos da sala para o quarto.
Os teus caracóis soltam-se quando te envolvo a cintura com a mão e te levanto, ris de espanto e de prazer, pareces uma criança que descobriu um baloiço, não te deixou logo, fico a segurar-te assim, em pleno ar, olhos nos olhos, as tuas mãos seguram a minha cabeça, sou real e o teu sorriso acredita, ainda tens uma ponta de riso pendurada nos lábios, passa uma eternidade, passam duas, quase que passam três quando saltas e me sugas a alma com um beijo.
Já não tens as mãos geladas.
segunda-feira, outubro 09, 2006
poema 43
sinto-me desenrolar
como um novelo que rebola lentamente pelo chão
tingido pelo sangue que me falta
sinto que me perco
que perco quem sou, que me vou erodindo
como uma pedra na praia
às vezes nem sinto nada
nem sei bem quem sou quando acordo
venho de um mundo que nem me lembro
nem sei se devia sentir
ou se me lembro bem como se sente
devia ter escrito o caminho de volta
só sei que me perdi
e que continuo a perder-me mais
tanto que já nem me lembro
de onde parti
como um novelo que rebola lentamente pelo chão
tingido pelo sangue que me falta
sinto que me perco
que perco quem sou, que me vou erodindo
como uma pedra na praia
às vezes nem sinto nada
nem sei bem quem sou quando acordo
venho de um mundo que nem me lembro
nem sei se devia sentir
ou se me lembro bem como se sente
devia ter escrito o caminho de volta
só sei que me perdi
e que continuo a perder-me mais
tanto que já nem me lembro
de onde parti
quarta-feira, setembro 27, 2006
A caminho do trabalho
A luz da manhã brilha gelada nos teus olhos cor de lágrimas, torna os teus cabelos negros ainda mais verdadeiros, como se de um novelo de lã se tratasse.
Neste exacto e medido momento sei que te amo, isto que explode no meu peito só pode ser amor, o desejo eu conheço bem, e esta dor de precisar ficar preso a ti é nova para mim.
Puxas-me para a luz quando nos afundamos nos lençóis, o teu nariz brinca no meu peito, as tuas unhas arranham os braços, é o meu corpo que te protege da luz líquida que entra a escorrer lentamente pelo quarto, mas para mim a luz é tua, é como agarrar um sol entre os braços.
Enquanto me calço escondes a cabeça debaixo da almofada, resmungas-me palavras inaudíveis, copiadas de antigos cantos de sereias, tentas arrastar-me de volta para a cama, a manhã está gelada e nem mesmo a fogueira do teu corpo me aquece as mãos.
E parto sorridente na direcção da servidão, só porque sei que podia ficar, e porque acho que te amo, mas de certeza que me fazes sorrir, até nesta manhã gelada de promessas cinzentas, e acho mesmo que te amo, mas de certeza que me cativaste, diria a sábia raposa, mas já perdi a capacidade de falar, ficou contigo a minha palavra, e só sorrio baixinho para que ninguém repare e me roube esta quase certeza, roubando-me um porquê.
Acho que te amo.
Neste exacto e medido momento sei que te amo, isto que explode no meu peito só pode ser amor, o desejo eu conheço bem, e esta dor de precisar ficar preso a ti é nova para mim.
Puxas-me para a luz quando nos afundamos nos lençóis, o teu nariz brinca no meu peito, as tuas unhas arranham os braços, é o meu corpo que te protege da luz líquida que entra a escorrer lentamente pelo quarto, mas para mim a luz é tua, é como agarrar um sol entre os braços.
Enquanto me calço escondes a cabeça debaixo da almofada, resmungas-me palavras inaudíveis, copiadas de antigos cantos de sereias, tentas arrastar-me de volta para a cama, a manhã está gelada e nem mesmo a fogueira do teu corpo me aquece as mãos.
E parto sorridente na direcção da servidão, só porque sei que podia ficar, e porque acho que te amo, mas de certeza que me fazes sorrir, até nesta manhã gelada de promessas cinzentas, e acho mesmo que te amo, mas de certeza que me cativaste, diria a sábia raposa, mas já perdi a capacidade de falar, ficou contigo a minha palavra, e só sorrio baixinho para que ninguém repare e me roube esta quase certeza, roubando-me um porquê.
Acho que te amo.
sexta-feira, setembro 15, 2006
alguns de nós
alguns de nós
que caminhamos perdidos neste chão
não tivemos a sorte
de ser filhos de Deus
descendentes do cruzamento
entre um pedaço de barro e uma costela
alguns de nós
nunca tiveram uma proposta
uma daquelas mesmo concretas
para vender uma alma que não temos
a um diabo que não existe
fora do nosso peito
alguns de nós
tivemos de nos construir do nada
como uma barraca de lata e contraplacado
só para ter um templo
nosso e de mais ninguém
onde acreditar é voar
alguns de nós
acreditam em vocês todos os dias
e abraçamos, e agarramos, e embalamos
os vossos corpos doridos e olhos vermelhos
nos dias em que os vossos vapores
não ouvem as vossas vozes
que caminhamos perdidos neste chão
não tivemos a sorte
de ser filhos de Deus
descendentes do cruzamento
entre um pedaço de barro e uma costela
alguns de nós
nunca tiveram uma proposta
uma daquelas mesmo concretas
para vender uma alma que não temos
a um diabo que não existe
fora do nosso peito
alguns de nós
tivemos de nos construir do nada
como uma barraca de lata e contraplacado
só para ter um templo
nosso e de mais ninguém
onde acreditar é voar
alguns de nós
acreditam em vocês todos os dias
e abraçamos, e agarramos, e embalamos
os vossos corpos doridos e olhos vermelhos
nos dias em que os vossos vapores
não ouvem as vossas vozes
terça-feira, setembro 05, 2006
marcas
deixas-te marcada no meu peito
as marcas da tua passagem
pegadas eternas
numa praia sem mar
ainda oiço nas vozes que passam
ecos daquela tua canção
que inventaste uma noite escura
só para me embalar
os meus olhos ainda pesam por vezes
dos beijos que lá plantaste
como nuvens de flores que nunca crescem
nem são levadas pelo vento
até a minha respiração aguarda ainda
a rodopiar no meu peito
à espera que a venhas beber
com os teus lábios sedentos
as marcas da tua passagem
pegadas eternas
numa praia sem mar
ainda oiço nas vozes que passam
ecos daquela tua canção
que inventaste uma noite escura
só para me embalar
os meus olhos ainda pesam por vezes
dos beijos que lá plantaste
como nuvens de flores que nunca crescem
nem são levadas pelo vento
até a minha respiração aguarda ainda
a rodopiar no meu peito
à espera que a venhas beber
com os teus lábios sedentos
segunda-feira, agosto 21, 2006
luz
Acho que és feita de luz
pelo modo como ela se reflecte casualmente
ao longo do teu pescoço,
dos teus cabelos,
do teu sorrir.
Mordes o lábio de baixo,
pequena menina num mundo de verde,
como que para o suster num sorriso solto,
num sorriso oferecido
com vontade,
com luz.
Amanheces de cabelo solto,
tão inalcansável, tão fugaz, tão livre e distante,
como a luz, amor, como a luz.
Vou ver se te apanho,
prender talvez num espelho, ou nos olhos,
nos olhos não, já me perdi nos teus.
E na luz me perco,
sorridente,
porque sei que és tu.
pelo modo como ela se reflecte casualmente
ao longo do teu pescoço,
dos teus cabelos,
do teu sorrir.
Mordes o lábio de baixo,
pequena menina num mundo de verde,
como que para o suster num sorriso solto,
num sorriso oferecido
com vontade,
com luz.
Amanheces de cabelo solto,
tão inalcansável, tão fugaz, tão livre e distante,
como a luz, amor, como a luz.
Vou ver se te apanho,
prender talvez num espelho, ou nos olhos,
nos olhos não, já me perdi nos teus.
E na luz me perco,
sorridente,
porque sei que és tu.
segunda-feira, agosto 14, 2006
canção dos caídos
sei o que os meus olhos olharam
naqueles dias em que ainda via
em que lambi as nuvens de cinza
do fogo que então ardia em mim
carreguei caixas de madeira escura
para covas de terra a cheirar a chuva
enterrei pedaços queimados de mim
debaixo de cada tampa de pedra
não há mais fogo nunca mais
não há mais lágrimas para dissolver
nem mesmo a dor me embala o sono
e as recordações do riso e do sol
são sombras no nevoeiro sonhado
é por isso que canto esta canção
aos que caíram e partiram à frente
guardem aí o meu lugar, irmãos
nessa mesa de dores e sangue e saudade
que em breve também eu terei
um barco de madeira escura
debaixo de uma tampa de pedra
naqueles dias em que ainda via
em que lambi as nuvens de cinza
do fogo que então ardia em mim
carreguei caixas de madeira escura
para covas de terra a cheirar a chuva
enterrei pedaços queimados de mim
debaixo de cada tampa de pedra
não há mais fogo nunca mais
não há mais lágrimas para dissolver
nem mesmo a dor me embala o sono
e as recordações do riso e do sol
são sombras no nevoeiro sonhado
é por isso que canto esta canção
aos que caíram e partiram à frente
guardem aí o meu lugar, irmãos
nessa mesa de dores e sangue e saudade
que em breve também eu terei
um barco de madeira escura
debaixo de uma tampa de pedra
terça-feira, agosto 08, 2006
sem asas
Sem asas é mais fácil amarSem asas é mais fácil voar
Sem asas é mais fácil mentir
Sem asas é mais fácil fugir
Arranquei as minhas asas
Para as pôr a teus pés
E sem asas fico a ver
tu e as estrelas no céu
lá longe... muito, muito longe
E sem asas sorrio enquanto voas
E falas com as estrelas cadentes
que se enleiam no teu cabelo
terça-feira, agosto 01, 2006
entre beijos
... suspiras bem junto ao meu pescoço, o calor do bar acompanhou-nos até aqui, até esta porta semiaberta, até este degrau, montanha que conquistaste para partilharmos a luz desta lua mansa e parda, que se derrama lentamente dos olhos para os lábios...
... a carpete da sala abraça-nos o corpo quando o sofá nos cospe para o mundo, rebolando, bato de costas e os reflexos fazem-me rodar contigo nos braços, gaiola de carne protectora que te faço por instantes e instintos, pequeno pássaro de luz que és, guardada aqui nos meus braços...
... olhos nos olhos, corpo no corpo, o meu braço esquerdo sustém todo o meu peso, amanhã vai doer mas agora sustém-me, sustém o mundo, só para que a minha mão se passeie pelo canto do teu sorrir, só para que ela te afaste os cabelos pegados de suor da tua cara brilhante...
... o teu corpo sobe e choca de mansinho no meu a cada respiração que tens, as tuas pernas estão enleadas nas minhas, és uma trepadeira viva, a minha mão direita posou na curva da tua anca, seguro-te como se fosses uma viola, a tua voz murmura como a canção que o vento toca nas cordas...
... está calor demais para me afastar de ti, dormes pendurada no meu braço, a boca entreaberta faz-me querer beber mais, está calor, tenho sede, e a tua pele queima como o vento que me lambe a pele de dia, mas não me mexo, só a mão se mexe, quero beber dos teus olhos a luz que a lua oferece pela janela, afasto as tuas madeixas, vejo a fonte que nasce nos teus lábios, bebo uma última vez, e derramo-me nos sonhos escuros...
... a carpete da sala abraça-nos o corpo quando o sofá nos cospe para o mundo, rebolando, bato de costas e os reflexos fazem-me rodar contigo nos braços, gaiola de carne protectora que te faço por instantes e instintos, pequeno pássaro de luz que és, guardada aqui nos meus braços...
... olhos nos olhos, corpo no corpo, o meu braço esquerdo sustém todo o meu peso, amanhã vai doer mas agora sustém-me, sustém o mundo, só para que a minha mão se passeie pelo canto do teu sorrir, só para que ela te afaste os cabelos pegados de suor da tua cara brilhante...
... o teu corpo sobe e choca de mansinho no meu a cada respiração que tens, as tuas pernas estão enleadas nas minhas, és uma trepadeira viva, a minha mão direita posou na curva da tua anca, seguro-te como se fosses uma viola, a tua voz murmura como a canção que o vento toca nas cordas...
... está calor demais para me afastar de ti, dormes pendurada no meu braço, a boca entreaberta faz-me querer beber mais, está calor, tenho sede, e a tua pele queima como o vento que me lambe a pele de dia, mas não me mexo, só a mão se mexe, quero beber dos teus olhos a luz que a lua oferece pela janela, afasto as tuas madeixas, vejo a fonte que nasce nos teus lábios, bebo uma última vez, e derramo-me nos sonhos escuros...
segunda-feira, julho 17, 2006
Carne
O teu corpo brilha na noite, suave deusa de metal bronzeado, e as pingas de luz dos candeeiros reflectem o suor que se demora pelas curvas do teu corpo, pérolas perdidas que te abandonam.
O ar dentro e fora do quarto está apertado pelo calor, agarra o peito, agarra o pescoço e aperta, sufoca, é um ar morto que nos parece querer matar também, deve querer companhia.
As tuas mãos fervem no meu peito, como é possível estares mais quente que o ar, mais quente que eu, tens fogo nos olhos, esse teu fogo negro, emoldurado por uma chuva de cabelos dourados, pegados, suados.
Mordes-me o ombro quando me apertas o peito, parábola de vida és, misturas o bem com o mal, a dor e o prazer, aqui, neste quarto pintado de noite escura onde somos apenas carne, nós os dois, o mesmo suor, o mesmo ser, a mesma carne.
O ar dentro e fora do quarto está apertado pelo calor, agarra o peito, agarra o pescoço e aperta, sufoca, é um ar morto que nos parece querer matar também, deve querer companhia.
As tuas mãos fervem no meu peito, como é possível estares mais quente que o ar, mais quente que eu, tens fogo nos olhos, esse teu fogo negro, emoldurado por uma chuva de cabelos dourados, pegados, suados.
Mordes-me o ombro quando me apertas o peito, parábola de vida és, misturas o bem com o mal, a dor e o prazer, aqui, neste quarto pintado de noite escura onde somos apenas carne, nós os dois, o mesmo suor, o mesmo ser, a mesma carne.
domingo, julho 09, 2006
e tu num sol poente
o sol vermelho do poente reflecte-se
transparente e irreal
nas tuas asas de fada perdida
espalhando a água que trazes
pelas curvas da tua pele
pela tua boca viva
pintada de ouro
bebo as gotas de água
vermelhas da luz poente
que descem do teu cabelo
até à tua cara
até ao teu pescoço
até à tua boca viva
pintada de ouro
pousas a mão no meu peito
fada perdida na planície
que pintaste de ouro
como os teus lábios
como os teus cabelos
mas és frescura e trazes a água
apagas o fogo em que ardo
com o teu corpo ondulado
pintado de ouro
transparente e irreal
nas tuas asas de fada perdida
espalhando a água que trazes
pelas curvas da tua pele
pela tua boca viva
pintada de ouro
bebo as gotas de água
vermelhas da luz poente
que descem do teu cabelo
até à tua cara
até ao teu pescoço
até à tua boca viva
pintada de ouro
pousas a mão no meu peito
fada perdida na planície
que pintaste de ouro
como os teus lábios
como os teus cabelos
mas és frescura e trazes a água
apagas o fogo em que ardo
com o teu corpo ondulado
pintado de ouro
domingo, julho 02, 2006
a estrada escura
Ando devagar, sei que aqui sou imparável, posso levar o tempo que quiser a navegar ruelas desertas e parques de estacionamento, esses poços que de dia nada são e que de noite são as arcas que guardam a verdadeira essência da escuridão, daquela podridão humana que nasce do acumular dos nossos medos.
Levo o máximo de tempo possível, só aqui a verdadeira canção do vento morre, embate nas paredes e revolve, julga-se solitário, este vento nocturno, ou então nem se importa comigo, importo-me eu com ele, atravessa-me os olhos, gela-me os lábios, passa-me as mãos pelo cabelo. Até ele sabe que sou imparável, sabe que me sinto um deus mortal, o sangue salta-me das veias, tenta sair-me pelos dedos.
O vento transporta o fogo dos meus olhos até ao céu, a fúria enrola-se num grito que não me sai da garganta, ressoa na minha cabeça enquanto a lua rasga as nuvens e ilumina o meu sorriso, leva com ela as pérolas de suor frio que me surgem na testa, espero pela chuva que não vai chegar nunca.
Entro num caminho largo, nem uma luz no horizonte, nem um candeeiro, sorrio porque sei que é este o meu caminho, é aqui que pertenço, os olhos de negro líquido olham-me como predadores esfomeados, apontam-me dedos de osso frio, tentam arrastar-me para fora do caminho, levar-me esperneando para os abismos.
E a chuva que não vai chegar nunca, dela tenho saudades, dos seus beijos cansados, caídos do céu como pequenas festas no meu cabelo, pequenos arrepios de vida a descer-me do cabelo para as costas, a fazer estradas de pele no pó que me cobre a cara. Mas sorrio enquanto desço a estrada escura, ergo a cabeça e sorrio, mostro ao que se esconde que sou eu quem vai caçar, que sou eu quem vai fazer sangrar, mostro que o predador sou eu.
Aqui, na escuridão, os meus olhos são brancos.
Aqui, na escuridão, sou mortal, não tenho medos, sangro fogo, estou em casa.
Levo o máximo de tempo possível, só aqui a verdadeira canção do vento morre, embate nas paredes e revolve, julga-se solitário, este vento nocturno, ou então nem se importa comigo, importo-me eu com ele, atravessa-me os olhos, gela-me os lábios, passa-me as mãos pelo cabelo. Até ele sabe que sou imparável, sabe que me sinto um deus mortal, o sangue salta-me das veias, tenta sair-me pelos dedos.
O vento transporta o fogo dos meus olhos até ao céu, a fúria enrola-se num grito que não me sai da garganta, ressoa na minha cabeça enquanto a lua rasga as nuvens e ilumina o meu sorriso, leva com ela as pérolas de suor frio que me surgem na testa, espero pela chuva que não vai chegar nunca.
Entro num caminho largo, nem uma luz no horizonte, nem um candeeiro, sorrio porque sei que é este o meu caminho, é aqui que pertenço, os olhos de negro líquido olham-me como predadores esfomeados, apontam-me dedos de osso frio, tentam arrastar-me para fora do caminho, levar-me esperneando para os abismos.
E a chuva que não vai chegar nunca, dela tenho saudades, dos seus beijos cansados, caídos do céu como pequenas festas no meu cabelo, pequenos arrepios de vida a descer-me do cabelo para as costas, a fazer estradas de pele no pó que me cobre a cara. Mas sorrio enquanto desço a estrada escura, ergo a cabeça e sorrio, mostro ao que se esconde que sou eu quem vai caçar, que sou eu quem vai fazer sangrar, mostro que o predador sou eu.
Aqui, na escuridão, os meus olhos são brancos.
Aqui, na escuridão, sou mortal, não tenho medos, sangro fogo, estou em casa.
segunda-feira, junho 19, 2006
digo-te adeus
digo-te adeus e beijo as árvores que tocaste
digo-te adeus e amo a relva que pisaste
digo-te adeus mudo no muro onde me mataste
digo-te adeus até os teus olhos voltarem
digo-te adeus para não ouvir resposta
digo-te adeus para que me arranhes o peito
digo-te adeus para que me arranques a cara
digo-te adeus para ouvir o eco do teu nome
digo-te adeus para não te poder mais beijar
digo-te adeus debaixo da lua de poeira dourada
digo-te adeus
digo-te adeus e amo a relva que pisaste
digo-te adeus mudo no muro onde me mataste
digo-te adeus até os teus olhos voltarem
digo-te adeus para não ouvir resposta
digo-te adeus para que me arranhes o peito
digo-te adeus para que me arranques a cara
digo-te adeus para ouvir o eco do teu nome
digo-te adeus para não te poder mais beijar
digo-te adeus debaixo da lua de poeira dourada
digo-te adeus
e ponto final
sábado, junho 17, 2006
dúvidas em quadras
dança poeta dança,
enquanto a música não abala
p'ra casa da lua meia viva
que a bala matou o resto.
canta poeta canta,
que aqui ninguém te ouve
e se ouvisse que importava,
se nem mesmo tu importas.
olha poeta olha,
isso até tu aqui consegues,
nem eras menos que os outros,
só mais cego, só mais poeta.
grita poeta grita
até os pulmões te sangrarem
dessa ideia que ai corre perdida
de que sabes fazer mais que sangrar.
vive poeta vive
ah, disso já não és capaz!
de viver, e amar , e criar?
de ter a coragem de ser uno e real?
então morre, poeta, morre
que só sabes sonhar e escrever
e neste lugar não há já lugar
para quem se sonha e se sente.
enquanto a música não abala
p'ra casa da lua meia viva
que a bala matou o resto.
canta poeta canta,
que aqui ninguém te ouve
e se ouvisse que importava,
se nem mesmo tu importas.
olha poeta olha,
isso até tu aqui consegues,
nem eras menos que os outros,
só mais cego, só mais poeta.
grita poeta grita
até os pulmões te sangrarem
dessa ideia que ai corre perdida
de que sabes fazer mais que sangrar.
vive poeta vive
ah, disso já não és capaz!
de viver, e amar , e criar?
de ter a coragem de ser uno e real?
então morre, poeta, morre
que só sabes sonhar e escrever
e neste lugar não há já lugar
para quem se sonha e se sente.
sexta-feira, junho 02, 2006
nota de amor
nota de amor
para ninguém
em especial
só uma nota
escrita
com papel e tinta
e algum amor
para ninguém
em especial
só porque
me deu na cabeça
amar agora
e não está aqui
ninguém especial
que se deixe amar
para ninguém
em especial
só uma nota
escrita
com papel e tinta
e algum amor
para ninguém
em especial
só porque
me deu na cabeça
amar agora
e não está aqui
ninguém especial
que se deixe amar
menina dos olhos
menina dos olhos cansados
deixa-me embalá-los nos meus braços
e carregar os pesos nos meus ombros de pedra
menina dos olhos tristes
deixa-me arrancar as minhas mãos
para afogar as tuas lágrimas no meu sangue
menina dos olhos fechados
deixa-me cantar-te um sol novo
para encher de luz e calor a tua cara escondida
menina dos olhos castanhos
os teus poços são meus também
estamos os dois pegados pela linha do teu olhar
deixa-me embalá-los nos meus braços
e carregar os pesos nos meus ombros de pedra
menina dos olhos tristes
deixa-me arrancar as minhas mãos
para afogar as tuas lágrimas no meu sangue
menina dos olhos fechados
deixa-me cantar-te um sol novo
para encher de luz e calor a tua cara escondida
menina dos olhos castanhos
os teus poços são meus também
estamos os dois pegados pela linha do teu olhar
quarta-feira, maio 31, 2006
horizonte
perdida a razão procuro
nos teus olhos o perdão
aquela força que dizes não ter
na luz negra dos teus olhos
não tenho a tua voz aqui
sólida e inteira e presente
só ecos quebrados de gritos
e lágrimas desenhadas no chão
por isso escrevo para mim
uma nova direcção do olhar
porque me dizes que preciso
porque mo grita a tua ausência
um novo horizonte encoberto
desenhado pelas linhas do teu corpo
com florestas de beijos teus em mim
mas sempre sem ti, amor, sempre sem ti
nos teus olhos o perdão
aquela força que dizes não ter
na luz negra dos teus olhos
não tenho a tua voz aqui
sólida e inteira e presente
só ecos quebrados de gritos
e lágrimas desenhadas no chão
por isso escrevo para mim
uma nova direcção do olhar
porque me dizes que preciso
porque mo grita a tua ausência
um novo horizonte encoberto
desenhado pelas linhas do teu corpo
com florestas de beijos teus em mim
mas sempre sem ti, amor, sempre sem ti
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