segunda-feira, abril 07, 2008

Como sempre

Fico deitado, bem aconchegado na escuridão do quarto, o corpo ainda fervente das carícias da água, a respiração arrastando-se dificilmente pela garganta acima, cada movimento especificamente pensado para que a dor não desperte do seu torpor, essa serpente enrolada à volta da perna, dois rubis brilhantes na escuridão, a promessa de uma dentada de dor peçonhenta e pegajosa a pairar na escuridão do quarto.
No meio da escuridão, no meio da dor, penso em ti.
Penso em ti com a clareza gelada que só a dor nos oferece, meço as palavras ditas e as não ditas com um cuidado quase sistemático, enrolo bem a situação pelos dedos para a ver em toda a sua gloriosa banalidade, para que nem uma só luminescência doentia me escape. Simplesmente, nunca gostei de não compreender, de não saber.
Acabou porque abandonei o nosso plano.
É justo.
Era um bom plano, pensado entre os dois, pensado durante noites em que afogámos a solidão em incenso de maçã e vodka negro, os fumos do álcool e do incenso misturados viam mais claramente que nós dois juntos, é sempre assim, formula-se um bom plano e espera-se que seja seguído.
A realidade veio, qual brisa que sobe do rio, como a que entra agora pela janela do quarto e trás mais silêncio com ela, mais escuridão, essa brisa real limpou o fumo quente e adocicado que tínhamos, no qual nos enrolávamos, no qual nos despíamos nos dias de desespero e mergulhávamos nos braços um dos outro, e deixou apenas dois caminhos separados.
O nosso e o meu.
Escolhi o meu.
Como sempre.
Devia sentir a dor do amor perdido, mas sinto a alegria da estrada minha que me possui e que reconheço, devia sentir que te perdi, mas agora sinto a perna, sinto a dor natural das consequências, sinto vontade de me arrastar na direcção do vento.
Como sempre.
Sempre, sempre na direcção do vento.

domingo, março 30, 2008

Até aqui

Evito falar de mim.
Apresento pequenos momentos, brilhantes nadas, bugigangas decoradas, que dependendo do modo como as rodo nos dedos, se tornam cativantes, assustadoras, apaixonadas.
E, acima de tudo, evitam responder a perguntas incómodas.
Sobre mim.
Por vezes, a meio de uma conversa, um vislumbre de mim, uns parcos segundos imparáveis, salta para a luz das velas.
E paro, faço rir, puxo sorrisos.
E assim evito falar sobre mim.
Até aqui, em binário.

sábado, março 29, 2008

Manhã de Páscoa

É uma cena ridícula.
Tão ridícula que poderia fazer parte de um qualquer postal ilustrado da época pascal.
São oito da manhã, oiço o rádio dizer uns escassos metros das minhas costas, na mesma direcção de onde vem a luz cortante do sol, na mesma direcção de onde nasce esta morrinha, esta estúpida ameaça de chuva cujos passos sonoros nos meus ombros incomodam muito mais do que molham verdadeiramente.
É de certeza um sonho estúpido, um ridículo masoquismo imaginado, estou numa cama antiga, afogado em cobertores, a sonhar que estou à chuva, a sonhar que espero, de costas para o sol, um sinal.
Os segundos passam intermináveis, escorrem para dentro dos minutos como a chuva que finalmente cai decidida a molhar alguém escorre pelos meus ombros gelados, mal aquecidos pelo abraço do oleado verde do meu pai, preferia estar em camisa, mas ou continuo com o oleado vestido ou volto a pé. Antes eu gelar que encharcar os estofos.
A vedação estica, lá de longe vem o sinal.
Subo a marreta bem acima da minha cabeça, é uma ferramenta antiga, que o tempo e a fome de quem a manejava tornaram quase viva, um prolongamento da minha fúria com mais do dobro da minha idade.
E simplesmente descarrego. A minha fúria saí em pequenos relâmpagos, em fugazes uniões do metal com as estacas de madeira. A estaca treme, a marreta treme, eu tremo. Por vezes a terra protesta, queixa-se de tanta violência, que mal me fez ela, atira-me pedaços de lama, mas de pouco lhe serve.
A minha mente, todos os meus sentidos, o meu próprio ser, são engolidos pela força. Ao fim de uns minutos, já nem mesmo a trepidação do embate me incomoda, nem mesmo me vou aperceber dela até ter de parar, e as mãos ainda tremerem. O próprio som do rádio se torna um zumbido apagado, uma abelha numa tarde luminosa de um Verão distante, deixaram-me sozinho com o rádio e o carro que o segura, poderia fugir, voar daqui.
Se me apercebesse disso.
Mas agora não, sou filho da força que liberto, só mesmo quando acabo percebo que estou só, e afegante, e gelado, e a própria luz da manhã me dá um pontapé nos olhos quando patino de volta para o carro.
Penso no que falta fazer e nem me sento. Fico cá fora à espera que me tragam os pobres animais, vou participar no seu sacrifício, tu morres para eu comer, vou recolher a tua vida, líquida e sólida, para alimentar as pessoas que estão provavelmente ainda a dormir.
Já voltam, perguntam-me se está feito, perguntam-me se acabei.
Sim.
E partimos então para casa, para a esperança de calor, para a morte dos seres que estão lá atrás, balindo mansamente, apreciando a viagem.
Domingo de Páscoa, 9.30 da manhã.
Vou a caminho de mais umas duas horas de trabalho, já perdi toda a esperança que seja um sonho, nem mesmo eu tenho sonhos tão estúpidos, nem penso no calor que me aguarda no fim, penso que, apesar da bela merda de manhã que vou ter, não trocava estes momentos por nada deste mundo.
Bom, minto.
Preferia ter ficado a dormir.
Mas olha, pequena fagulha de luz matinal que me corta a cara, isso já não tem remédio.


quarta-feira, fevereiro 13, 2008

esvaziamento

as palavras sobem num turbilhão
sufocadas num grito gigante
de raiva
de frustração
de ódio negro e solto
as mãos tremem tanto
quero rasgar o peito, quero magoar
quero matar
preciso partir alguma coisa
seja o que for
mesmo que seja eu

a lua ilumina segundos
depois perde-se nas sombras
as nuvens que tapam a rua escondem-me
nem as montras me vêm
tanto vidro, tanto reflexo, afasto-me da tentação
não são eles o meu alvo
preciso quebrar
preciso de um alvo


o ódio enche-me a boca
enche-me todo o corpo, na noite fria suo ódio
destilo raiva negra e envolvente
já na noite escura uma linha de pilares espera-me
aprecio a metáfora
e mergulho na sua direcção
voam membros descontrolados
os cães lá longe uivam a minha dor

respiro com o peso de todo o meu corpo
cada molécula de oxigénio arrancada à força da paisagem
a descarga de adrenalina é tal que as pernas ainda me tremem
os nós dos dedos sangram os restos da noite odiosa
e soltam-nos no cinzento pavimento
mal consigo segurar as chaves, já a porta é que me segura
mergulho num mar de flanela, meio despido,
com a paga em dor atirada por todo o corpo
e mergulho no abençoado esquecimento
vazio
total e completamente vazio
e o silêncio cai, numa imitação de paz que, sinceramente
chega perfeitamente

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

opiniões

Disseram-me hoje que não existe dia mais feliz como o primeiro dia de amor, que passamos o resto da nossa existência a procurar essa primeira onda de sentir, esse primeiro sol explosivo que nunca mais conseguimos igualar.

Que estupidez tão grande.

Amei de verdade quando passaste por mim, os cabelos mal secos presos na nuca por dois lápis, uma quase gueixa num pijama de flanela largo demais, a tua pele mal escondida por um céu azul platinado em forma de roupão farfalhudo, a sala cheia do cheiro a café com leite e torradas com mel, um cheiro a maçãs instalava-se na secretária junto aos livros sempre que soltavas o cabelo, maldito seja a merda do champô que ainda hoje me atinge o peito a pontapés, quando passa por mim corta-me a cara como se fossem facas.

Amei a sério quando beijar-te ao acordar não era mais que um reflexo, uma necessidade maquinal como respirar o mesmo ar, ou sorver a luz dos teus olhos, um passo que não tinha nada de pensado nem de obrigatório, mas que acontecia mesmo assim, porque assim estava desenhado no plano do dia com lápis de ceras coloridos em papel de cinza crua.

Amei mesmo quando discutíamos, e tu, pequena tempestade, ficavas vermelha como o sangue que te enchia os olhos e a paz do teu rosto se transformava em morte, em morte minha, e os teus rugidos e chuvas e trovões e ondas embatiam nos meus rochedos, sempre recuando e sempre voltando a bater, imensidão de raiva e fúria que em chuva se desfazia, e reconstruia todas as paredes e telhados que fizéramos antes, só para nós.

No primeiro dia gostei, mas a amar, aprendi com o voar dos dias, até que voavam depressa demais , como se cada momento passado juntos fosse apenas uma migalha de calor, um pequeno corte de um lâmina de luz, uma pegada de cor, uma pequena nuvem de cor num imenso céu azul.

No primeiro dia é que se ama...

Sua besta.

segunda-feira, janeiro 14, 2008

advérbios de modo

sim, beijei, mas não por sentir realmente que beijava, ou que sentia o que o beijo realmente transmitia
beijei pelo passo mecânico que levou ao resto do corpo, porta que tinha de passar para acordar nos teus braços, fase normal da dança dos corpos
beijei e o teu corpo subiu, eléctrico, pelos meus braços, como sabia que subiria, sabia o que fazia, beijei e as minhas mãos navegaram pelas tuas costas
senti o que calor que libertavas na tua respiração, como um pequeno dragão a libertar o primeiro fogo, suspiras quando os dedos gelados percorre a curva da tua coluna, conto mentalmente l1 l2 l3 l4, estúpido mecanismo de controle, porque me controlo eu quando estou aqui nos teus braços, porque não me esqueço realmente de sequer pensar, mas penso e controlo, penso em controlar, pedes que te abrace e sinto o teu corpo vergar no meu abraço, sorris e conto advérbios de modo, de modo a não me perder de repente, a não fugir totalmente de mim
sorrio de volta
de repente escapas, rindo alto demais, bates as asas e voas para longe, atiras uma careta por cima do ombro, estico o braço tarde demais, não te agarro, e soltas um pequeno grito de troça, de propósito para estreitares os meus olhos, desafias-me com as mãos no chão, lanças outra careta e de repente lanço-me no ar
sei o que faço e rodo no ar, bato no chão a seco, sinto o frio do choque atravessar a carpete do quarto e entrar-me como garras nas costelas, mas sigo e rebolo, reflexo adquirido, pavlov ia ficar orgulhoso, nem preciso pensar para o fazer, damos uma duas voltas meia volta, bato, acho que no armário e paro
respiramos pesado ao mesmo tempo, a mesma música, o mesmo tom
tens a cabeça presa entre a minha mão e o meu ombro, as asas nos teus olhos passam de medo a fome entre duas batidas de alma aclarada pela adrenalina, sobes por mim, como não sei, estava a prender-te, e beijas, soltas uma chama imensa de tristeza e fúria, uma nuvem passa entre os lábios, a velocidade descontrola-se, estamos já de pé, não te solto, prendes a minha cara entre as mãos, os teus pés penduram a um palmo do chão, um turbilhão de calor envolve-nos, sinto o sangue aos pontapés no meu peito, os minhas mãos tremem enquanto tento controlar o que faço, voltar ao plano, uma garra de gelo para no meu peito e o mundo explode em escuridão, mil tons de sombra envolvem a nossa respiração

faz frio, a noite está gelada e dormes demasiado junto a mim para eu conseguir dormir, fico a olhar o espaço, sei que amanhã não me vou mexer sem dores, mas olho o escuro e recordo, comparo, é injusto mas que me importo eu com justiças agora, pareces um pequeno tigre adormecido, pequenos caracóis de cobre cobrem a tua cara, o teu corpo mal mexe, adormeço com as primeiras luzes, quando o cansaço vence os fantasmas e a dor de não mexer

os teus olhos traem-te
mesmo de costas, enquanto me seco e visto, sei que olhas e esse olhar trai-te
tens medo
pequena gata medrosa, tigresa enterrada em cobertores de onde apenas os teus olhos saem, meio escondidos, quase de propósito, nesses cabelos que a manhã faz parecer serem feitos de ouro
tens mesmo medo
levanto-me, tento disfarçar a chapada de dor que levo só de respirar, sorrio porque sei que tenho que sorrir, beijo-te a testa, beijo-te os lábios, agarras-me as mãos, digo qualquer coisa, sorris aliviada, fecho a porta como pediste

porra, faz mesmo frio cá fora, a claridade troça comigo enquanto navego dorido para casa para ao menos mudar de roupa antes de ir trabalhar, para ao menos não parecer totalmente que não dormi

os teus olhos traem-te, ficaste a pensar
não sabes o que fazer
pensas demais
olha, conta advérbios de modo
comigo resulta





sábado, dezembro 29, 2007

marca

Só falo nisto porque é uma situação que não me deixam esquecer, como se fosse um sinal marcante da pessoa que sou, uma história que me descrevesse totalmente, aquela história que os meus amigos usam como alfinete para as ilusões alheias sobre a minha pessoa.
Acho impressionante que até pessoas que na altura me conheciam mal, para quem eu era aquela sombra de fogo que fui nos últimos tempos de vida do meu coração, saibam essa história tão bem ou melhor que eu, que lá estava... bom, estava e não estava, mas a isso lá chegaremos, o que interessa é que a sabem com pormenores que a mim me escapam, muitas vezes embelezados, como se de um mito se tratasse, uma qualquer batalha mitológica entre seres inumanos, cujo poder escapa à compreensão humana.
Lamento desiludir, mas tudo foi humano, tudo foi tão estupidamente humano, duas palavras teriam evitado essa marca, assim como meses de olhares murmurados e de vozes apagadas pelo chão. de conversas paradas a meio.
Por vezes uma pessoa bebe demais e não se lembra logo do que fez, a recordação demora a vir à tona, mas acaba por vir, puxada pela luz e puxando o remorso, mas este não é o caso, não me lembro mesmo.
Não me lembro.
Sei que falava com a Dulce, falava sobre a Ana, era sempre a mesma merda da mesma conversa, sempre a dificuldade em compreender de quem se encontra no meio, de quem quer o equilíbrio de volta ao seu mundo perfeito, ao seu grupo do café. E eu, a habitual estátua, já tinha metido o queixo para a frente, já ela desistia, já todos dançavam na sala ao lado, quando aconteceu, e o Mauro foi tentar parar.
Vamos ser bem claros. Não me podia importar menos a dor alheia, mas fui lá buscar o Mauro. Nem mais nem menos.
Alguma coisa partiu em cima de mim.
Ouvi gritar, só dias depois soube que tinha sido a Dulce, ficou assustada, nunca me tinha visto cair, tentei levantar-me, e senti-me dormente, um pé na cabeça tirou-me logo essa ideia estúpida da cabeça, tentei levantar-me outra vez e vi os olhos em mim, e não percebi.
Juro que não percebi.
Vi a mancha vermelha escorreu sobre o meu peito, demorei uns bons três, quatro segundos a perceber de onde vinha, vinha de mim, e de repente partiu.
Qualquer coisa em mim partiu.
Chamem-lhe o que quiserem, não me lembro e pronto.
Sei o que fiz porque me contaram.
E não fiquei propriamente orgulhoso, a vergonha e o alívio tomaram conta de mim, em partes irmãs e iguais, como se caminhassem de mão dada, nos dias seguintes senti que de dentro de mim tinham vertido todas as dores, que nesse momento de dor tinha purgado, como se de uma sangria medieval se tratasse, todos os males que em mim escorriam, que tinham vertido por essa ferida.
O que me lembro bem foi do medo que vi quando voltei a mim, o medo que vi naqueles olhos que me rodearam, medo por mim e não de mim, medo do que fui nesses instantes.
Medo que o mal que fui ali apagasse o Vitor que me tinha tornado.
Não sei sinceramente o que fiz.
Sei que tudo o que me contaram me parece exagerado, como se me tivesse dito que tinha voado, que de mim tinha saído uma luz e pago todas as despesas.
Sei que destrui, magoei, a mim e aos outros.
Preferia não ter essa marca.

terça-feira, dezembro 04, 2007

Faz assim...

Hoje uma colega de trabalho, conhecedora do monstro que fui, testemunha das florestas de braços erguidos que queimei, transpôs os poucos metros que nos separam e disse-me, numa voz envergonhada e meio sumida, como se a pessoa que realmente é a quisesse impedir de dizer as palavras que da sua boca partiam para o mundo.
Vitor, ensina-me a destruir uma pessoa.
Aparentemente, a surpresa no meu rosto trouxe consigo uma máscara de dúvida, um simulacro de sorriso a tentar levar o pesado silêncio do demasiado cedo para pensar em seja o que for, e tentei aprofundar a questão, não fosse mais uma idiotice cor-de-rosa, mais uma perda de tempo enjoativa e açucarada, das que formam os rochedos das horas de almoço partilhadas com as colegas, rochedos que é preciso navegar cuidadosamente para se sair, depressa e bem, sem um arranhão.
A questão era, aparentemente, tão séria quanto uma questão do coração poderia ser, ou seja, completamente e quase nada, mas a meio da explicação, que poderia ter sido resumida nas frases que tudo do amor resumem, eu quero e não tenho, há quem tenha e quero tirar, preciso e não sei como apanhar, pensei para comigo.
Espera.
Repete lá.
Vitor, ensina-me a destruir uma pessoa.
O choque do punhal atravessou-me a coluna, como só um punhal de fonemas construido é capaz, e quedou-se pendurado, dançando como uma nuvem no céu, entre a minha mente e o meu espanto, aterrando na minha raiva e furando a revolta.
Porquê eu?
Porque que raios me pedes isso.
A resposta veio célere, a seta seguiu o punhal, e as lembranças doeram mais como qualquer outra avalanche, merda das avalanches, são sempre assim, enleou-me as ideias, uns pontapés pelos dentes, e o já famoso olhar pensas que me enganas mas eu estava lá e vi as cinzas dos fogos, cheirei a destruição no vento da tua voz, esse olhar conheço eu muito bem e calei-me, quem tem razão tem razão, mesmo quando é uma razão do passado.
E é isso que queres?
Não, não é isso.

Quero ganhar.
Claro que queres, quem não quer, bom, para ser sincero talvez não queira porque sei o que fica do outro lado da montanha que criamos no nosso interior, mas sei que tu vais perder algumas noites a pensar, a soltar o arrependimento pelos caminhos do talvez, a tentar ver se existiriam outros meios para atingir o fim que contigo se deita e que tão bem ganhaste.
Mas olha, fofa, que se lixe, quando é que eu medi as consequências dos meus actos?
Faz assim...




quinta-feira, novembro 15, 2007

de marcação

cheiros e sabores
pégadas nos sentidos
que me atraem e repelem
para o teu nosso corpo

lábios e dentes
demarcas o que te pertence
as partes de mim
que na noite chamas tuas

dormir de olhos abertos
porque na noite escura
a ausência de luz ilumina
a luz dourada dos teus olhos

acordar de olhos fechados
só para não misturar já, já
o perfume iluminado da manhã
com o o vapor da tua respiração

terça-feira, outubro 16, 2007

trovoada

a adrenalina sobe, é ela o meu verdadeiro e único vício, a aquela corrida do sangue contra as paredes do corpo

sou de ferro, sou uma parede de carne e gritos que puxa os raios que rasgam o céu, sorrio como não sorrio sem os trovões, o prazer sobe o meu corpo, estou completamente eléctrico, a luz que ao meu lado conduz o carro olha-me como se fosse louco, meio de espanto, meio de medo

abro os braços para tentar caçar o vento, as minhas garras rasgam o tablier do carro da luz, apetece-me partir tudo, quero destruir alguém, preciso matar rapidamente, sentir o sabor salgado do sangue nos olhos

quero porque quero, sou verdadeiramente eu, agarro a chamada com as mãos a tremer, a voz dela diz-me que não haverá sexo hoje, o meu corpo quase explode a cada raio que parte o céu, a luz há muito caiu, mergulha a cidade na minha escuridão, tu e eu somos um só, cospes os teus raios pelos telhados

o vento trás o cheiro a chuva e eu estou parado na absoluta e completa escuridão, começam as lanternas e as velas a aparecer pelas frestas das janelas, cobardes medrosos, cortam as tuas dádivas com facas de luz, preciso gritar e afasto-me, o grito é rouco e trás mais noite, e mais escuridão e mais raios, e finalmente as lágrimas em forma de chuva

quero mais , mas ela passa e afasta-se, o vento fica com a chuva, mas sabe a pouco, quero mais raios, mais destruição, saborear um pouco mais o medo dos outros misturado com o meu prazer,
a luz volta e retiro-me, o corpo ainda treme

a trovoada parte, o sorriso idiota de quem acabou de amar, fica até de manhã

sexta-feira, setembro 14, 2007

r 23

nem no chão caminho
nem com asas me sustento
nem na alma acredito
nem o toque me aquece

marcada na carne faço
esta última sentinela
esfinge que espera no céu
pela subida das sombras

estátua de sal
tigre de cartão
homem de lata

terra descoberta
pelo toque recente
da chuva do final da tarde

segunda-feira, setembro 10, 2007

medo

medo

se a alma existisse
alimentava-se de medo
o medo leva à fúria
à raiva
à mentira

se a alma existisse
era essa satisfação cruel
que nos enche o peito
e nos faz sorrir
quando fazemos
criamos
causamos

medo

esse depravado prazer
temperado com lágrimas
dos outros
que cercamos
que matamos
que enganamos

medo

medo deles
medo meu
muito
muito

medo

sábado, agosto 25, 2007

segunda-feira, julho 30, 2007

Passaram muitos anos... bom, não foram assim tantos, mas vão-se acumulando e as pessoas que me conhecem insistem que me marcaste, que alguma coisa fizeste que me impede de amar, de sentir, de dar aqueles pequenos passos em frente a que normalmente se chama ternura.
Não sei se é verdade.
A minha voz da verdade, olhando-me do outro lado do copo de sangria, diz-me que procuro, que procuro ela não sabe, por isso é ela a voz da verdade, a verdade é que eu também não sei, nem sequer acho que realmente procuro.
Digamos que espero.
Sim, mas que espero eu?
Espero por ti?
Não, não espero por ti, nunca esperei por ti, nem no primeiro dia do fim guardei a mais leve esperança ou ânsia.
Será isso? Será que espero pela esperança?
Eu não sei.
E sendo realmente sincero comigo, olhando a minha ausência nos olhos, não me importo com isso. Não gasto uma merda de um segundo a saber o que aguardo.
Sei que virá, repentina como a manhã.
Sei.
E até lá espero.

segunda-feira, julho 09, 2007

se fosse sincero dizia-te o quanto me apetece matar-te
usar esta pedra no meu peito, negra e suja de sangue
para destruir a luz dos teus olhos, apagá-la para sempre

se fosse verdadeiro terias verdadeiramente medo de mim
saberias que nos meus olhos se escondem os passos escuros
as garras afiadas de quem te quer esmagar o pescoço fino

se eu fosse realmente eu quando eu estou contigo
verias o sangue dos teus lábios a bailar nos meus
o meu riso a aumentar com o medo dos teus olhos

se um dia eu amanheço como eu sou mesmo
beberei os tuas lágrimas misturadas com o teu sangue
desfarei o teu corpo por entre os lençóis da tua cama

apetece-me estragar-te
destruir-te
desfazer-te
amar-te

domingo, junho 24, 2007

Quase.

Já quase me tinha esquecido a que sabe uma pele, qual o sabor do suor de alguém que adormece nos nossos braços, já nem mesmo o peso doce de uma colher cheia de luz a dormir encostada a mim passava senão de uma vaga memória.
Tentei navegar calmamente esses oceanos de memória, forcei os meus dedos a não tremer, acho que não tremeram, sei que se tremeram não me importo realmente.
Os teus caracóis repousam no meu ombro como se de vinhas numa parede partida se tratassem, pequenas trepadeiras sufocantes de vida numa pele muito marcada, onde deixaste a tua marca, pelo sim pelo não, só porque podias e passaste por lá, pequeno graffiti rasgado com a ponta da unha.
Só sei que estou vivo quando entro na cozinha, a luz das 6 da manhã, aquela luz que ainda nem é luz, é um embrião de luminosidade, atravessa o balcão de uma ponta à outra, bate-me na cara, entras e beijas-me o pescoço, roubas uma torrada e ris alto demais, olhando por cima do ombro na tua fuga pelo corredor.
Acho que vou chegar atrasado, já me esperam quando chego a casa, parto logo, sentado lá atrás, o mundo é ruído de fundo, até a luz se desvanece, não estou realmente no carro, estou a lembrar o momento, aquele exacto momento em que me lembrei do que quase tinha esquecido.
Quase.

quarta-feira, maio 09, 2007

Os carros passam silenciosamente, deixando tiras vermelhas de quando passam por mim. Vou de cara pendurada, olho as estrelas no gelado céu da noite de verão, penduradas, esperando, olhando silenciosamente os carros que passam.
A noite é um espelho, silencioso e escuro como alcatrão, muralhas de árvores impedem os olhos de se perderem na paisagem sem lua, a adrenalina escorre das colunas, a batida faz as respirações acelerar, faz o carro acelerar, faz o mundo acelerar.
Só eu, pendurado da janela, permaneço imóvel.
Todo o carro arde, sente-se o calor, a fúria inflamada faz todos no carro arder, só eu sinto o ar gelado que entre às golfadas pela janela aberta. Os lábios torcem-se nervosamente, as conversas são curtas, todos guardam cada grama da sua fúria, todos a atiçam, para que arda mais e mais e mais.
Porquê?
Serei mais calmo?
Mais velho?
Mais sábio?
Não, não sou melhor nem pior que estes corpos furiosos que acompanham o meu.
A minha fúria ardente, onde está, para onde foi, será que a perdi? Será que já não sou aquela chama de fúria, de calor e energia?
É nisto que penso quando o carro para subitamente, é este o meu verdadeiro medo, não a dor, não os outros, nunca, nunca os outros.
Todos saímos, e avançamos calmamente, e então reparo.
Já passei por isto antes, já sei onde estou, não mais estou perdido.
Não ardo de fúria.
Quem arderia estando aqui, num sitio familiar, rodeado do que conheces?
A minha fúria, se é que é fúria é gelada, temperada com um contentamento imenso, uma antecipação de quem volta de uma longa viagem e está em casa.
Vai começar.
Estou em casa.

quinta-feira, maio 03, 2007

chove porque eu peço

Oiço as pessoas, escondidas nos cafés, presas nas paragens cheias dos transportes públicos, encravadas debaixo de longas filas de guarda-chuvas, protegidas, fugidas desta chuva fria que cai torrencial que vem cortar um começo promissor de sol e calor...
Porque chove, que vem esta chuva fazer aqui, lembrar-me do inverno escuro na véspera do luminoso verão?
As suas vozes não me interessam , só me fazem sorrir de desprezo, nascido de um contentamento imenso como o cinzento das nuvens que me despejam as suas dores pela cara, pelo cabelo, pelas pontas dos dedos.
Esta chuva cai porque eu preciso dela, porque a pedi no meio da noite escura e sufocante, do suor e da culpa. Ela cai finalmente, são paredes de facas geladas que caem do céu, que me cortam o medo, que me separam das correntes que me prendem, chove e estou cá fora, o vento acorda-me os sentidos, levanta a alma que não tenho para o céu em que não acredito, faz-me sorrir de alivio e fúria.
Sinto a respiração do fumo,sinto o cheiro da vida, a terra encharcada que bebe a chuva tão ansiosamente como eu.
Mas, mais que tudo, abro os olhos lavados, estou rodeado de cores novas, lavadas, limpas, e sinto a sua força como se tocasse os ásperos óleos de um quadro renovado, brilhante.

Mas mais que tudo... mais até que a chuva e o vento... eu sinto.

O meu coração bate de novo, os meus olhos estão lavados, eu sinto.

EU SINTO!

E choveu porque eu pedi.

quarta-feira, abril 18, 2007

neutro

uma pedra lisa, raspada, polida pelo uso
uma lâmina romba, que perdeu o fio
um espelho embaciado, rachado
um disco riscado, empenado

será que este bater compassado
que já nada afecta
que já nada acelera
será que sou mesmo eu

uma recordação esbatida
um vapor suspirado
num passado já quase esquecido
já quase uma vaga lembrança

onde está o monstro
para onde escorreu a fúria
em que sono perdi o sonho
não passou assim tanto tempo

quando foi que te toquei
quando foi que te vi e abracei
já não me importo
nem com isso
nem com nada