quinta-feira, junho 26, 2008

sorriso

gostava de saber quem vos meteu nos cornos que eu sou boa pessoa
a sério
só mesmo pra lhe meter uma bota pelos dentes
só uma ou duas vezes

a ver se arranjo outro mosh
para sentir outra vez
ossos a quebrar debaixo das minhas mãos
mergulhar no medo
mergulhar no olhar dos outros
ter ondas de dor a submergir-me o corpo
voar bater matar soltar

ver até onde a minha vontade
carrega o meu corpo quebrado
sentir mais e mais e mais
seja o que for
seja mesmo dor
sabor a suor
sabor a sangue

a sério
gostava de saber
só para apanhar essa pessoa agora mesmo

quinta-feira, junho 12, 2008

e sabe bem

de repente, já não és teu
partilhas o teu ser com alguém
e ninguém te avisou
nem ninguém te pediu opinião
aconteceu e pronto

misturas as respirações
divides olhares
e dedos intrusos entram
sem que se quer te importes
pelo teu coração adentro

de repente já não és teu
na vida que construíste
cabe um nascer do sol novo
e já não tens dores tuas
alguém se doí contigo e por ti

misturas as respirações
e quando a manhã te acorda
bebes a luz de outros olhos
e o que te alimenta não é o ódio
mas o conforto de outros braços

de repente já não és teu
misturas as respirações
e sabe bem

quarta-feira, maio 28, 2008

espaço alugado

não sei se o que escrevo satisfaz o que sinto
escrevo porque preciso tirar as facas dos dedos
preciso de tirar o veneno dos olhos
e por isso solto em páginas nuas
cicatrizes de crueldade e carinho
que não consigo mais suster

mas nestes dias cinzentos, de chuva gelada
torço os dedos e mordo os lábios
sinto o sangue fugir de mim pelos olhos
mas não solto nada
tento guardar dentro de mim cada olhar
cada momento de absurda claridade
como um pecado precioso
uma peça de um puzzle amado

ainda estou para perceber porquê
para perceber se assim conquisto alguma coisa
além do espaço interior alugado
por mais ou menos tempo
a raizes de plantas estranhas
que crescem na escuridão
e que sabem estranhamente bem

domingo, abril 27, 2008

(dito num sorriso)

fazemos um negócio,
um daqueles contratos gelados,
num momento de fúria lavrados
serei teu,como planeaste
contente assim?
feliz?
completa?

não ponho condições
serei o fogo que aprendi,
terás o carinho sonhado,
terás o meu corpo completo
os lábios gretados,
os olhos cansados,
as cicatrizes simetricamente dispostas
tudo incondicional

serei o que sonhaste,
não guardarei nada,
vai ser tal e qual o plano
construído enquanto choravas,
metida na solidão gelada
do teu coração,
da tua cama,
dos teus olhos

guardo apenas para mim,
o prazer doentio,
mas tão doce quanto supremo
de saber que vais chorar
e sofrer
e eu vou ver
no fim

apesar de te ter avisado
tantas vezes
que perdi à muito
o interesse em avisar

não sabes o que queres, e por isso
queres-me a mim
para ti
para guardares
nos teus cabelos de sol

erro teu

terça-feira, abril 22, 2008

amiga-irmã, irmã-amiga

Sento-me numa escura casa de chá, com umas velhas de cara suspeita e enrugada bebericando licores de pele rubi e cheiro duvidoso enquanto nos observam murmurando veneno, não gosto particularmente deste local, demasiadas recordações dolorosas de momentos luminosos, uma enorme pirâmide de explosões de sentidos, cheiro de amor, beijos a saber a chá negro, dedos a saber a chá de laranja, é demasiado para sequer pensar nisso agora.
Também não posso dizer que me agrade especialmente o modo como as velhas olham para nós, mas isso tem um motivo tão claro como as nuvens de tempestade que escurecem a tarde.
Que raios faz esta mulher morena de luz feita, esta quase-ainda menina que sorri com tanta inocência que só pode esconder tanta dor, tanto desespero que só os seus frágeis ombros seguram, os meus são grande e sucumbiam num instante, que faz este raio de luz que por acaso hoje até vem vestido de preto, sentada com aquilo.
Sim, por vezes nem eu percebo.
Mas estamos aqui porque ela é uma das três mulheres da minha vida, mulheres que amo verdadeiramente, que por vezes me sustêm por me deixarem suste-las, que me seguram nas noites de dúvida por simplesmente existirem e por vezes me deixarem segurá-las, a elas e às suas dúvidas, e por, na mais escura das dúvidas e na mais longa das confissões, as fazer soltar aquela música única que fazem ao sorrir quando é afogar a dor nas lágrimas que esperam à porta dos seus olhos que lhes apetece.
Sento-me em frente desta irmã pequena, que me escolheu e me acolheu muitas vezes, que me foi buscar ao poço fundo de garrafas vazias que tantas vezes me atirei, esta irmã que só tive quando a conheci, que me controla no seu rodopio descontrolado, e a quem susteria muitas mais vezes nos meus ombros, para a fazer ver no espelho da noite, as estrelas suas irmãs.
E é isso que as mentes encarquilhas das velhas não apanham, que esta mulher que vi crescer à minha frente do outro lado da mesa, em visões enfumaradas de álcool misturado sei lá eu com que dor, está aqui sentada porque juntos sorrimos, porque para duas horas de confissão mútua atravessei uma orgulhosamente bela e gelada tempestade sem sequer pensar nisso.
Amo-a porque acredita em mim, amo-as porque acreditam em mim, quase quase quase tanto quanto acredito nelas,na sua capacidade de sorrir quando doí, de me dizerem a verdade, de me quererem a amar quem me ame.
Até amo o cegas que por vezes são em relação a mim.
Por isso sento-me esperando o chá, sorrindo de volta à luz do outro lado da vela, e mentalmente mando as velhas pro caralho.
Uma por uma.


(escrito numa noite escura para T, para uma estrela cadente e especialmente para a minha neta)

domingo, abril 20, 2008

é estranho
procurei em todos os bolsos, todos os recantos, e não encontro
não sei onde anda, não sei onde a pousei
não encontro a minha necessidade de amar
não senti sequer a sua falta
até me acusares, de facas nos olhos e lágrimas nas palavras
de nunca ter andado com sequer com ela
o que é mentira
lembro-me vagamente de a ter usado
sei que já senti necessidade de amar
acho eu
se for aquele sentimento de querer
imperioso, sedento e vagamente lamechas
era?
esse mesmo?
hmmmmm
deve estar no bolso do casaco
com licença
vou procurar

segunda-feira, abril 07, 2008

Como sempre

Fico deitado, bem aconchegado na escuridão do quarto, o corpo ainda fervente das carícias da água, a respiração arrastando-se dificilmente pela garganta acima, cada movimento especificamente pensado para que a dor não desperte do seu torpor, essa serpente enrolada à volta da perna, dois rubis brilhantes na escuridão, a promessa de uma dentada de dor peçonhenta e pegajosa a pairar na escuridão do quarto.
No meio da escuridão, no meio da dor, penso em ti.
Penso em ti com a clareza gelada que só a dor nos oferece, meço as palavras ditas e as não ditas com um cuidado quase sistemático, enrolo bem a situação pelos dedos para a ver em toda a sua gloriosa banalidade, para que nem uma só luminescência doentia me escape. Simplesmente, nunca gostei de não compreender, de não saber.
Acabou porque abandonei o nosso plano.
É justo.
Era um bom plano, pensado entre os dois, pensado durante noites em que afogámos a solidão em incenso de maçã e vodka negro, os fumos do álcool e do incenso misturados viam mais claramente que nós dois juntos, é sempre assim, formula-se um bom plano e espera-se que seja seguído.
A realidade veio, qual brisa que sobe do rio, como a que entra agora pela janela do quarto e trás mais silêncio com ela, mais escuridão, essa brisa real limpou o fumo quente e adocicado que tínhamos, no qual nos enrolávamos, no qual nos despíamos nos dias de desespero e mergulhávamos nos braços um dos outro, e deixou apenas dois caminhos separados.
O nosso e o meu.
Escolhi o meu.
Como sempre.
Devia sentir a dor do amor perdido, mas sinto a alegria da estrada minha que me possui e que reconheço, devia sentir que te perdi, mas agora sinto a perna, sinto a dor natural das consequências, sinto vontade de me arrastar na direcção do vento.
Como sempre.
Sempre, sempre na direcção do vento.

domingo, março 30, 2008

Até aqui

Evito falar de mim.
Apresento pequenos momentos, brilhantes nadas, bugigangas decoradas, que dependendo do modo como as rodo nos dedos, se tornam cativantes, assustadoras, apaixonadas.
E, acima de tudo, evitam responder a perguntas incómodas.
Sobre mim.
Por vezes, a meio de uma conversa, um vislumbre de mim, uns parcos segundos imparáveis, salta para a luz das velas.
E paro, faço rir, puxo sorrisos.
E assim evito falar sobre mim.
Até aqui, em binário.

sábado, março 29, 2008

Manhã de Páscoa

É uma cena ridícula.
Tão ridícula que poderia fazer parte de um qualquer postal ilustrado da época pascal.
São oito da manhã, oiço o rádio dizer uns escassos metros das minhas costas, na mesma direcção de onde vem a luz cortante do sol, na mesma direcção de onde nasce esta morrinha, esta estúpida ameaça de chuva cujos passos sonoros nos meus ombros incomodam muito mais do que molham verdadeiramente.
É de certeza um sonho estúpido, um ridículo masoquismo imaginado, estou numa cama antiga, afogado em cobertores, a sonhar que estou à chuva, a sonhar que espero, de costas para o sol, um sinal.
Os segundos passam intermináveis, escorrem para dentro dos minutos como a chuva que finalmente cai decidida a molhar alguém escorre pelos meus ombros gelados, mal aquecidos pelo abraço do oleado verde do meu pai, preferia estar em camisa, mas ou continuo com o oleado vestido ou volto a pé. Antes eu gelar que encharcar os estofos.
A vedação estica, lá de longe vem o sinal.
Subo a marreta bem acima da minha cabeça, é uma ferramenta antiga, que o tempo e a fome de quem a manejava tornaram quase viva, um prolongamento da minha fúria com mais do dobro da minha idade.
E simplesmente descarrego. A minha fúria saí em pequenos relâmpagos, em fugazes uniões do metal com as estacas de madeira. A estaca treme, a marreta treme, eu tremo. Por vezes a terra protesta, queixa-se de tanta violência, que mal me fez ela, atira-me pedaços de lama, mas de pouco lhe serve.
A minha mente, todos os meus sentidos, o meu próprio ser, são engolidos pela força. Ao fim de uns minutos, já nem mesmo a trepidação do embate me incomoda, nem mesmo me vou aperceber dela até ter de parar, e as mãos ainda tremerem. O próprio som do rádio se torna um zumbido apagado, uma abelha numa tarde luminosa de um Verão distante, deixaram-me sozinho com o rádio e o carro que o segura, poderia fugir, voar daqui.
Se me apercebesse disso.
Mas agora não, sou filho da força que liberto, só mesmo quando acabo percebo que estou só, e afegante, e gelado, e a própria luz da manhã me dá um pontapé nos olhos quando patino de volta para o carro.
Penso no que falta fazer e nem me sento. Fico cá fora à espera que me tragam os pobres animais, vou participar no seu sacrifício, tu morres para eu comer, vou recolher a tua vida, líquida e sólida, para alimentar as pessoas que estão provavelmente ainda a dormir.
Já voltam, perguntam-me se está feito, perguntam-me se acabei.
Sim.
E partimos então para casa, para a esperança de calor, para a morte dos seres que estão lá atrás, balindo mansamente, apreciando a viagem.
Domingo de Páscoa, 9.30 da manhã.
Vou a caminho de mais umas duas horas de trabalho, já perdi toda a esperança que seja um sonho, nem mesmo eu tenho sonhos tão estúpidos, nem penso no calor que me aguarda no fim, penso que, apesar da bela merda de manhã que vou ter, não trocava estes momentos por nada deste mundo.
Bom, minto.
Preferia ter ficado a dormir.
Mas olha, pequena fagulha de luz matinal que me corta a cara, isso já não tem remédio.


quarta-feira, fevereiro 13, 2008

esvaziamento

as palavras sobem num turbilhão
sufocadas num grito gigante
de raiva
de frustração
de ódio negro e solto
as mãos tremem tanto
quero rasgar o peito, quero magoar
quero matar
preciso partir alguma coisa
seja o que for
mesmo que seja eu

a lua ilumina segundos
depois perde-se nas sombras
as nuvens que tapam a rua escondem-me
nem as montras me vêm
tanto vidro, tanto reflexo, afasto-me da tentação
não são eles o meu alvo
preciso quebrar
preciso de um alvo


o ódio enche-me a boca
enche-me todo o corpo, na noite fria suo ódio
destilo raiva negra e envolvente
já na noite escura uma linha de pilares espera-me
aprecio a metáfora
e mergulho na sua direcção
voam membros descontrolados
os cães lá longe uivam a minha dor

respiro com o peso de todo o meu corpo
cada molécula de oxigénio arrancada à força da paisagem
a descarga de adrenalina é tal que as pernas ainda me tremem
os nós dos dedos sangram os restos da noite odiosa
e soltam-nos no cinzento pavimento
mal consigo segurar as chaves, já a porta é que me segura
mergulho num mar de flanela, meio despido,
com a paga em dor atirada por todo o corpo
e mergulho no abençoado esquecimento
vazio
total e completamente vazio
e o silêncio cai, numa imitação de paz que, sinceramente
chega perfeitamente

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

opiniões

Disseram-me hoje que não existe dia mais feliz como o primeiro dia de amor, que passamos o resto da nossa existência a procurar essa primeira onda de sentir, esse primeiro sol explosivo que nunca mais conseguimos igualar.

Que estupidez tão grande.

Amei de verdade quando passaste por mim, os cabelos mal secos presos na nuca por dois lápis, uma quase gueixa num pijama de flanela largo demais, a tua pele mal escondida por um céu azul platinado em forma de roupão farfalhudo, a sala cheia do cheiro a café com leite e torradas com mel, um cheiro a maçãs instalava-se na secretária junto aos livros sempre que soltavas o cabelo, maldito seja a merda do champô que ainda hoje me atinge o peito a pontapés, quando passa por mim corta-me a cara como se fossem facas.

Amei a sério quando beijar-te ao acordar não era mais que um reflexo, uma necessidade maquinal como respirar o mesmo ar, ou sorver a luz dos teus olhos, um passo que não tinha nada de pensado nem de obrigatório, mas que acontecia mesmo assim, porque assim estava desenhado no plano do dia com lápis de ceras coloridos em papel de cinza crua.

Amei mesmo quando discutíamos, e tu, pequena tempestade, ficavas vermelha como o sangue que te enchia os olhos e a paz do teu rosto se transformava em morte, em morte minha, e os teus rugidos e chuvas e trovões e ondas embatiam nos meus rochedos, sempre recuando e sempre voltando a bater, imensidão de raiva e fúria que em chuva se desfazia, e reconstruia todas as paredes e telhados que fizéramos antes, só para nós.

No primeiro dia gostei, mas a amar, aprendi com o voar dos dias, até que voavam depressa demais , como se cada momento passado juntos fosse apenas uma migalha de calor, um pequeno corte de um lâmina de luz, uma pegada de cor, uma pequena nuvem de cor num imenso céu azul.

No primeiro dia é que se ama...

Sua besta.

segunda-feira, janeiro 14, 2008

advérbios de modo

sim, beijei, mas não por sentir realmente que beijava, ou que sentia o que o beijo realmente transmitia
beijei pelo passo mecânico que levou ao resto do corpo, porta que tinha de passar para acordar nos teus braços, fase normal da dança dos corpos
beijei e o teu corpo subiu, eléctrico, pelos meus braços, como sabia que subiria, sabia o que fazia, beijei e as minhas mãos navegaram pelas tuas costas
senti o que calor que libertavas na tua respiração, como um pequeno dragão a libertar o primeiro fogo, suspiras quando os dedos gelados percorre a curva da tua coluna, conto mentalmente l1 l2 l3 l4, estúpido mecanismo de controle, porque me controlo eu quando estou aqui nos teus braços, porque não me esqueço realmente de sequer pensar, mas penso e controlo, penso em controlar, pedes que te abrace e sinto o teu corpo vergar no meu abraço, sorris e conto advérbios de modo, de modo a não me perder de repente, a não fugir totalmente de mim
sorrio de volta
de repente escapas, rindo alto demais, bates as asas e voas para longe, atiras uma careta por cima do ombro, estico o braço tarde demais, não te agarro, e soltas um pequeno grito de troça, de propósito para estreitares os meus olhos, desafias-me com as mãos no chão, lanças outra careta e de repente lanço-me no ar
sei o que faço e rodo no ar, bato no chão a seco, sinto o frio do choque atravessar a carpete do quarto e entrar-me como garras nas costelas, mas sigo e rebolo, reflexo adquirido, pavlov ia ficar orgulhoso, nem preciso pensar para o fazer, damos uma duas voltas meia volta, bato, acho que no armário e paro
respiramos pesado ao mesmo tempo, a mesma música, o mesmo tom
tens a cabeça presa entre a minha mão e o meu ombro, as asas nos teus olhos passam de medo a fome entre duas batidas de alma aclarada pela adrenalina, sobes por mim, como não sei, estava a prender-te, e beijas, soltas uma chama imensa de tristeza e fúria, uma nuvem passa entre os lábios, a velocidade descontrola-se, estamos já de pé, não te solto, prendes a minha cara entre as mãos, os teus pés penduram a um palmo do chão, um turbilhão de calor envolve-nos, sinto o sangue aos pontapés no meu peito, os minhas mãos tremem enquanto tento controlar o que faço, voltar ao plano, uma garra de gelo para no meu peito e o mundo explode em escuridão, mil tons de sombra envolvem a nossa respiração

faz frio, a noite está gelada e dormes demasiado junto a mim para eu conseguir dormir, fico a olhar o espaço, sei que amanhã não me vou mexer sem dores, mas olho o escuro e recordo, comparo, é injusto mas que me importo eu com justiças agora, pareces um pequeno tigre adormecido, pequenos caracóis de cobre cobrem a tua cara, o teu corpo mal mexe, adormeço com as primeiras luzes, quando o cansaço vence os fantasmas e a dor de não mexer

os teus olhos traem-te
mesmo de costas, enquanto me seco e visto, sei que olhas e esse olhar trai-te
tens medo
pequena gata medrosa, tigresa enterrada em cobertores de onde apenas os teus olhos saem, meio escondidos, quase de propósito, nesses cabelos que a manhã faz parecer serem feitos de ouro
tens mesmo medo
levanto-me, tento disfarçar a chapada de dor que levo só de respirar, sorrio porque sei que tenho que sorrir, beijo-te a testa, beijo-te os lábios, agarras-me as mãos, digo qualquer coisa, sorris aliviada, fecho a porta como pediste

porra, faz mesmo frio cá fora, a claridade troça comigo enquanto navego dorido para casa para ao menos mudar de roupa antes de ir trabalhar, para ao menos não parecer totalmente que não dormi

os teus olhos traem-te, ficaste a pensar
não sabes o que fazer
pensas demais
olha, conta advérbios de modo
comigo resulta





sábado, dezembro 29, 2007

marca

Só falo nisto porque é uma situação que não me deixam esquecer, como se fosse um sinal marcante da pessoa que sou, uma história que me descrevesse totalmente, aquela história que os meus amigos usam como alfinete para as ilusões alheias sobre a minha pessoa.
Acho impressionante que até pessoas que na altura me conheciam mal, para quem eu era aquela sombra de fogo que fui nos últimos tempos de vida do meu coração, saibam essa história tão bem ou melhor que eu, que lá estava... bom, estava e não estava, mas a isso lá chegaremos, o que interessa é que a sabem com pormenores que a mim me escapam, muitas vezes embelezados, como se de um mito se tratasse, uma qualquer batalha mitológica entre seres inumanos, cujo poder escapa à compreensão humana.
Lamento desiludir, mas tudo foi humano, tudo foi tão estupidamente humano, duas palavras teriam evitado essa marca, assim como meses de olhares murmurados e de vozes apagadas pelo chão. de conversas paradas a meio.
Por vezes uma pessoa bebe demais e não se lembra logo do que fez, a recordação demora a vir à tona, mas acaba por vir, puxada pela luz e puxando o remorso, mas este não é o caso, não me lembro mesmo.
Não me lembro.
Sei que falava com a Dulce, falava sobre a Ana, era sempre a mesma merda da mesma conversa, sempre a dificuldade em compreender de quem se encontra no meio, de quem quer o equilíbrio de volta ao seu mundo perfeito, ao seu grupo do café. E eu, a habitual estátua, já tinha metido o queixo para a frente, já ela desistia, já todos dançavam na sala ao lado, quando aconteceu, e o Mauro foi tentar parar.
Vamos ser bem claros. Não me podia importar menos a dor alheia, mas fui lá buscar o Mauro. Nem mais nem menos.
Alguma coisa partiu em cima de mim.
Ouvi gritar, só dias depois soube que tinha sido a Dulce, ficou assustada, nunca me tinha visto cair, tentei levantar-me, e senti-me dormente, um pé na cabeça tirou-me logo essa ideia estúpida da cabeça, tentei levantar-me outra vez e vi os olhos em mim, e não percebi.
Juro que não percebi.
Vi a mancha vermelha escorreu sobre o meu peito, demorei uns bons três, quatro segundos a perceber de onde vinha, vinha de mim, e de repente partiu.
Qualquer coisa em mim partiu.
Chamem-lhe o que quiserem, não me lembro e pronto.
Sei o que fiz porque me contaram.
E não fiquei propriamente orgulhoso, a vergonha e o alívio tomaram conta de mim, em partes irmãs e iguais, como se caminhassem de mão dada, nos dias seguintes senti que de dentro de mim tinham vertido todas as dores, que nesse momento de dor tinha purgado, como se de uma sangria medieval se tratasse, todos os males que em mim escorriam, que tinham vertido por essa ferida.
O que me lembro bem foi do medo que vi quando voltei a mim, o medo que vi naqueles olhos que me rodearam, medo por mim e não de mim, medo do que fui nesses instantes.
Medo que o mal que fui ali apagasse o Vitor que me tinha tornado.
Não sei sinceramente o que fiz.
Sei que tudo o que me contaram me parece exagerado, como se me tivesse dito que tinha voado, que de mim tinha saído uma luz e pago todas as despesas.
Sei que destrui, magoei, a mim e aos outros.
Preferia não ter essa marca.

terça-feira, dezembro 04, 2007

Faz assim...

Hoje uma colega de trabalho, conhecedora do monstro que fui, testemunha das florestas de braços erguidos que queimei, transpôs os poucos metros que nos separam e disse-me, numa voz envergonhada e meio sumida, como se a pessoa que realmente é a quisesse impedir de dizer as palavras que da sua boca partiam para o mundo.
Vitor, ensina-me a destruir uma pessoa.
Aparentemente, a surpresa no meu rosto trouxe consigo uma máscara de dúvida, um simulacro de sorriso a tentar levar o pesado silêncio do demasiado cedo para pensar em seja o que for, e tentei aprofundar a questão, não fosse mais uma idiotice cor-de-rosa, mais uma perda de tempo enjoativa e açucarada, das que formam os rochedos das horas de almoço partilhadas com as colegas, rochedos que é preciso navegar cuidadosamente para se sair, depressa e bem, sem um arranhão.
A questão era, aparentemente, tão séria quanto uma questão do coração poderia ser, ou seja, completamente e quase nada, mas a meio da explicação, que poderia ter sido resumida nas frases que tudo do amor resumem, eu quero e não tenho, há quem tenha e quero tirar, preciso e não sei como apanhar, pensei para comigo.
Espera.
Repete lá.
Vitor, ensina-me a destruir uma pessoa.
O choque do punhal atravessou-me a coluna, como só um punhal de fonemas construido é capaz, e quedou-se pendurado, dançando como uma nuvem no céu, entre a minha mente e o meu espanto, aterrando na minha raiva e furando a revolta.
Porquê eu?
Porque que raios me pedes isso.
A resposta veio célere, a seta seguiu o punhal, e as lembranças doeram mais como qualquer outra avalanche, merda das avalanches, são sempre assim, enleou-me as ideias, uns pontapés pelos dentes, e o já famoso olhar pensas que me enganas mas eu estava lá e vi as cinzas dos fogos, cheirei a destruição no vento da tua voz, esse olhar conheço eu muito bem e calei-me, quem tem razão tem razão, mesmo quando é uma razão do passado.
E é isso que queres?
Não, não é isso.

Quero ganhar.
Claro que queres, quem não quer, bom, para ser sincero talvez não queira porque sei o que fica do outro lado da montanha que criamos no nosso interior, mas sei que tu vais perder algumas noites a pensar, a soltar o arrependimento pelos caminhos do talvez, a tentar ver se existiriam outros meios para atingir o fim que contigo se deita e que tão bem ganhaste.
Mas olha, fofa, que se lixe, quando é que eu medi as consequências dos meus actos?
Faz assim...




quinta-feira, novembro 15, 2007

de marcação

cheiros e sabores
pégadas nos sentidos
que me atraem e repelem
para o teu nosso corpo

lábios e dentes
demarcas o que te pertence
as partes de mim
que na noite chamas tuas

dormir de olhos abertos
porque na noite escura
a ausência de luz ilumina
a luz dourada dos teus olhos

acordar de olhos fechados
só para não misturar já, já
o perfume iluminado da manhã
com o o vapor da tua respiração

terça-feira, outubro 16, 2007

trovoada

a adrenalina sobe, é ela o meu verdadeiro e único vício, a aquela corrida do sangue contra as paredes do corpo

sou de ferro, sou uma parede de carne e gritos que puxa os raios que rasgam o céu, sorrio como não sorrio sem os trovões, o prazer sobe o meu corpo, estou completamente eléctrico, a luz que ao meu lado conduz o carro olha-me como se fosse louco, meio de espanto, meio de medo

abro os braços para tentar caçar o vento, as minhas garras rasgam o tablier do carro da luz, apetece-me partir tudo, quero destruir alguém, preciso matar rapidamente, sentir o sabor salgado do sangue nos olhos

quero porque quero, sou verdadeiramente eu, agarro a chamada com as mãos a tremer, a voz dela diz-me que não haverá sexo hoje, o meu corpo quase explode a cada raio que parte o céu, a luz há muito caiu, mergulha a cidade na minha escuridão, tu e eu somos um só, cospes os teus raios pelos telhados

o vento trás o cheiro a chuva e eu estou parado na absoluta e completa escuridão, começam as lanternas e as velas a aparecer pelas frestas das janelas, cobardes medrosos, cortam as tuas dádivas com facas de luz, preciso gritar e afasto-me, o grito é rouco e trás mais noite, e mais escuridão e mais raios, e finalmente as lágrimas em forma de chuva

quero mais , mas ela passa e afasta-se, o vento fica com a chuva, mas sabe a pouco, quero mais raios, mais destruição, saborear um pouco mais o medo dos outros misturado com o meu prazer,
a luz volta e retiro-me, o corpo ainda treme

a trovoada parte, o sorriso idiota de quem acabou de amar, fica até de manhã

sexta-feira, setembro 14, 2007

r 23

nem no chão caminho
nem com asas me sustento
nem na alma acredito
nem o toque me aquece

marcada na carne faço
esta última sentinela
esfinge que espera no céu
pela subida das sombras

estátua de sal
tigre de cartão
homem de lata

terra descoberta
pelo toque recente
da chuva do final da tarde

segunda-feira, setembro 10, 2007

medo

medo

se a alma existisse
alimentava-se de medo
o medo leva à fúria
à raiva
à mentira

se a alma existisse
era essa satisfação cruel
que nos enche o peito
e nos faz sorrir
quando fazemos
criamos
causamos

medo

esse depravado prazer
temperado com lágrimas
dos outros
que cercamos
que matamos
que enganamos

medo

medo deles
medo meu
muito
muito

medo

sábado, agosto 25, 2007