segunda-feira, janeiro 16, 2012

there are torches that burn in my dreams
made of fire and darkness and sorrow
in darkness forever dancing around
as if they were chasing me to the ground

in my dreams there are eyes
burning red in the night
in darkness forever dancing around
just outside of the dim camp-fire light

in my dreams there is no fear
Nor do I run or hide from them
in darkness forever dancing around
in my dreams I stand and wait

for in there I know
that the torches and the eyes and the fear
in darkness forever dancing around
are running from me

segunda-feira, abril 12, 2010

alma coração


de toda a minha força, de toda a dureza do meu rosto, da minha falta de capacidade para sorrir, choro sempre na merda do filme.
algo em mim se move e faz as lágrimas correr pelo rosto, sem qualquer tipo de controlo, assim que vejo a menina do casaco vermelho.
que merda isto de sentir, de não controlar as nossas emoções.
e não ser capaz de não chorar quando vejo a pequena menina, no seu casaco vermelho.



http://www.youtube.com/watch?v=rRgNDffKHms

sábado, outubro 03, 2009

Nesta Terra

nesta terra dos mil verdes
faz-me falta o meu pó,
a minha secura dourada

nesta terra rodeada de mar
os meus olhos procuram-te,
imensidão de terra minha

nesta terra de ameno tempo
o meu corpo anda sedento
do meu suão que queima
e do vento norte que abraça

nesta terra que me dizem dos amores
quero de volta a solidão
extrema. cortante, suave,
da minha planície debruada a ouro

sábado, junho 06, 2009

mas amar

luto porque nada mais sei fazer
e luto para perder
porque luto contra mim
e são lutas que não se têm
e são lutas que não se vencem


O meu coração amanhece cheio de um ódio podre, pesado e cinzento, como se fosse um corpo de um animal à muito morto e esquecido, um ódio abandonado e esquecido, perdido num labirinto de claridade artificial.

Apenas sentir me retira de mim por um pouco, e o teu amor é um pingo de cor neste mar de cinzas gastas, só o teu amor me faz sentir, o teu amor e uma imensa dor.
Não sei amar como mereces, falta de prática ou excesso de cicatrizes ou simplesmente não sei, existem coisas que nunca fiz bem, será amar uma delas, nem isso sei bem, tento todos os dias amar-te mais, mas não chego ao que te quero dar, um amor imenso que no espaço pequeno que tenho dentro só sufoca, porque mais não sei fazer.

Sei odiar.
Sei odiar e causar dor com uma energia imensa, uma explosão de energia e de calor que percorre os meus olhos e me leva a agir, agir por ódio puro e imaculado que me arrasta pelo pescoço com correntes banhadas de sangue.

De pé isolado.
Sei desafiar, sei agir com orgulho e raiva e ódio e dor e mostrar a todos que estão enganados e que não ganharão e que não perderei, não perderei, não perderei, cai mil vezes, em lágrimas banhado e não cairei, não perderei.
Isso sei fazer.

Mas amar...

quinta-feira, março 19, 2009

Maltez

Lembro-me de ser pequeno, tão pequeno que nem ao cinto das calças azuis do meu pai chegava, e ir com o meu avô guardar ovelhas, no meio de um calor sufocante, rodeado de animais maiores que eu, com um cajadinho feito de uma cana, o cabelo comprido escondido debaixo de chapéuzinho de palha, daqueles que os miúdos tinham naquela altura.
Caminhavamos todo o dia, distâncias de gigantes pelo que me parecia naquela altura, e víamos maravilhas para as quais uma criança como eu não tinha ainda vocabulário, nem dito nem pensado. E o meu avô chamava-me pequeno maltez, por causa do meu cabelo comprido e pele bronzeada, pequeno cigano, pequeno nómada, palavras ditas com carinho para descrever uma criança, palavras usadas com desdém para descrever adultos, pessoas que viajavam de longe e para longe, sem que se lhes conhecesse a família até à décima geração.
Não que viajar fosse mau.
Um homem viaja porque tem de dar de comer à família, porque vai atrás do trabalho, que o trabalho é bicho irrequieto e foge, foge de nós até quando estamos a dormir.
E assim cresci, entre o dever e a vontade, entre esse pequeno maltez que mais não quer senão ver todo o grande mundo, as suas grandes tristezas e as suas pequenas maravilhas, e o dever mais velho e primeiro de um irmão e filho, ajudar quem não te pede mas que ajudas porque é o teu sangue e o sangue é mesmo assim, não há como dizer não.
Entre acordar cedo para ir trabalhar e não dormir para ver o pôr-do-sol.
Entre entrar no conforto morno da rotina e gelar os ossos a ver as estrelas na serra no inverno.
E o meu coração bate, bate, bate bate, até ao dia em que ir seja mais forte que ficar, e esse pequeno maltez sorridente parta, à procura de ver mais, de encher mais os olhos.
E depois volte.
Ou não, pá, ou não.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

às vezes perco-me na quantidade brutal e furiosa da minha raiva e deixo de saber quem sou ou passo a ser quem sou, em toda a minha gloriosa força e veneno, uma parede em queda rápida

não sei

sei que tenho dificuldade em amar, porque quando amo o meu peito doí e cada palavra é arrancada como se uma silva se tratasse, como se cada respiração fosse puxada do fundo de um poço negro e pestilento

sei que não sinto desespero, porque não sei o sabor da esperança, como qualquer boa máquina avanço por dever, e porque posso avançar, e abro caminho com ambas as mãos, arrancando carne com os dentes

sei acima de tudo que não devo beber quando começo a ser eu, porque sou uma boa máquina, e as boas máquinas sabem o valor das consequências, e mesmo marcado e grisalho e partido sei, sei voar e bater e criar consequências

como se o sol não nascesse, como se não existisse amanhã

porque não vai nascer, sabes?

porque não há amanhã



terça-feira, dezembro 23, 2008

short 1

sei que quando não durmo o sol nasce mais claro
e espreguiça-se na manhã gelada da planície
e o vento sopra daquele lado, do lado gelado da nortada
eu amo a minha planície nessas manhãs da minha dor
e a simples luz deste meu lar caiado me faz sorrir

domingo, outubro 26, 2008

num suspiro só

por vezes perco-me na profundidade verde cinza dos teus olhos e esqueço-me de respirar, esqueço-me que existes mesmo e tenho de te puxar para mim, puxar todo o meu corpo para trás para não te esmagar num abraço, tento sempre colar o calor do teu corpo ao meu, curar a minha indeferença com o sorriso fervente que me ofereces quando atiras a cabeça para trás, os pés no ar, apertada nos meus braços, podia acabar já aqui toda a existência futura, nos teus braços não há futuro, para quê, só existe neles um presente infinito de luz verde cinza que dos teus olhos salta para os meus

segunda-feira, outubro 06, 2008

É apenas uma farda

Sempre que passo pela superfície espelhada de uma montra não consigo evitar torcer os lábios selados num meio sorriso e repetir esse terço gasto, essa má reza já gasta pelas manhãs de todos os dias, é apenas uma farda de trabalho.
É apenas uma farda de trabalho.
Apenas um instrumento que usas para melhor te moveres no meio que escolheste como primeiro amor, como bússola da tua vida, como razão dos teus passos.
É apenas uma farda de trabalho.
E a merda da avenida tem umas mil montras, se não fosse o horário do autocarro já tinha parado para enrolar a pasta no blaser, usando a gravata, e tinha-lhes pago um bilhete só de ida pela montra maior que apanhasse. se calhar a do banco, ora que bela ideia,, nem parece que estás meio a dormir, nem tenho conta dos coelhos que essa cajadada matava.
No autocarro sou rodeado pelo calor e barulho dos que, mais jovens que eu, me olham como se fosse uma má mistura entre um nojento traidor e um pobre condenado.
Nem sabem o certos que estão, os pequenos cabrões.
Saio em frente ao Departamento, o mp3 quase sem pilhas cuidadosamente guardado no bolso interior do blaser, para carregar ao menos uma parte do verdadeiro eu perto do coração, e caminho calmamente, tenho ai uns vinte minutos.
Deixo escapar entre os batimentos das veias insultos ruidosos que só eu percebo, é a vantagem de trabalhar no estrangeiro, a esta arquitectura moderna e utilitária que me cerca.
Vidros por todo o lado. E nem um paralelo solto da calçada num raio de um quilómetro.
É apenas uma farda.
É apenas uma farda.

quarta-feira, julho 30, 2008

são quatro da manhã e já devia estar a dormir
especialmente tendo em conta que ontem nem dormi
ou foi hoje que não consegui dormir
e é o sono de amanhã que me escapa entre os dedos?
nem sei, deixei de saber à um mar de horas atrás
afogo-me devagar no abraço metálico e pesado
da armadura de cansaço que tenho em cima

o peso dos membros é tanto que nem me mexo
sou um corpo morto com uma réstia fina de força
um fio gelado de pensamento que corre apesar, a pesar,
a arrastar tudo sem sequer me apagar finalmente
gota a gota a gota a gota
no esquecimento morno do sonhar

sei o acontecimento, sei o sintoma, sei a cura
falta-me o corpo suave que acompanha o meu sono
e na cama vazia o momento arrasta-se
escala o pensamento a pouco e pouco, lento demais
até o corpo esgotar e morrer e dizer finalmente
basta
e dormir com ou sem corpo, por mais vazia
que a escuridão de mel seja


sorrio amargo
desconfio que não vou dormir tão cedo

terça-feira, julho 08, 2008

não senão

não penso uma clara manhã de luz cortante
sem procurar a claridade dos teus olhos

não imagino amanhecer sem misturar
os teus cabelos soltos com os meus sonhos

não faço ideia de como será não te ver
passar por mim leve como uma pena descalça

não acredito como os teus dedos frágeis e leves
apagaram a minha realidade como quem vira uma página

não toco senão a suavidade da tua pele branca
em cada superfície que embate nos meus dedos

não faço outro desenho no ar à frente do meu rosto
senão o modo como o teu corpo curva na escuridão

quinta-feira, junho 26, 2008

sorriso

gostava de saber quem vos meteu nos cornos que eu sou boa pessoa
a sério
só mesmo pra lhe meter uma bota pelos dentes
só uma ou duas vezes

a ver se arranjo outro mosh
para sentir outra vez
ossos a quebrar debaixo das minhas mãos
mergulhar no medo
mergulhar no olhar dos outros
ter ondas de dor a submergir-me o corpo
voar bater matar soltar

ver até onde a minha vontade
carrega o meu corpo quebrado
sentir mais e mais e mais
seja o que for
seja mesmo dor
sabor a suor
sabor a sangue

a sério
gostava de saber
só para apanhar essa pessoa agora mesmo

quinta-feira, junho 12, 2008

e sabe bem

de repente, já não és teu
partilhas o teu ser com alguém
e ninguém te avisou
nem ninguém te pediu opinião
aconteceu e pronto

misturas as respirações
divides olhares
e dedos intrusos entram
sem que se quer te importes
pelo teu coração adentro

de repente já não és teu
na vida que construíste
cabe um nascer do sol novo
e já não tens dores tuas
alguém se doí contigo e por ti

misturas as respirações
e quando a manhã te acorda
bebes a luz de outros olhos
e o que te alimenta não é o ódio
mas o conforto de outros braços

de repente já não és teu
misturas as respirações
e sabe bem

quarta-feira, maio 28, 2008

espaço alugado

não sei se o que escrevo satisfaz o que sinto
escrevo porque preciso tirar as facas dos dedos
preciso de tirar o veneno dos olhos
e por isso solto em páginas nuas
cicatrizes de crueldade e carinho
que não consigo mais suster

mas nestes dias cinzentos, de chuva gelada
torço os dedos e mordo os lábios
sinto o sangue fugir de mim pelos olhos
mas não solto nada
tento guardar dentro de mim cada olhar
cada momento de absurda claridade
como um pecado precioso
uma peça de um puzzle amado

ainda estou para perceber porquê
para perceber se assim conquisto alguma coisa
além do espaço interior alugado
por mais ou menos tempo
a raizes de plantas estranhas
que crescem na escuridão
e que sabem estranhamente bem

domingo, abril 27, 2008

(dito num sorriso)

fazemos um negócio,
um daqueles contratos gelados,
num momento de fúria lavrados
serei teu,como planeaste
contente assim?
feliz?
completa?

não ponho condições
serei o fogo que aprendi,
terás o carinho sonhado,
terás o meu corpo completo
os lábios gretados,
os olhos cansados,
as cicatrizes simetricamente dispostas
tudo incondicional

serei o que sonhaste,
não guardarei nada,
vai ser tal e qual o plano
construído enquanto choravas,
metida na solidão gelada
do teu coração,
da tua cama,
dos teus olhos

guardo apenas para mim,
o prazer doentio,
mas tão doce quanto supremo
de saber que vais chorar
e sofrer
e eu vou ver
no fim

apesar de te ter avisado
tantas vezes
que perdi à muito
o interesse em avisar

não sabes o que queres, e por isso
queres-me a mim
para ti
para guardares
nos teus cabelos de sol

erro teu

terça-feira, abril 22, 2008

amiga-irmã, irmã-amiga

Sento-me numa escura casa de chá, com umas velhas de cara suspeita e enrugada bebericando licores de pele rubi e cheiro duvidoso enquanto nos observam murmurando veneno, não gosto particularmente deste local, demasiadas recordações dolorosas de momentos luminosos, uma enorme pirâmide de explosões de sentidos, cheiro de amor, beijos a saber a chá negro, dedos a saber a chá de laranja, é demasiado para sequer pensar nisso agora.
Também não posso dizer que me agrade especialmente o modo como as velhas olham para nós, mas isso tem um motivo tão claro como as nuvens de tempestade que escurecem a tarde.
Que raios faz esta mulher morena de luz feita, esta quase-ainda menina que sorri com tanta inocência que só pode esconder tanta dor, tanto desespero que só os seus frágeis ombros seguram, os meus são grande e sucumbiam num instante, que faz este raio de luz que por acaso hoje até vem vestido de preto, sentada com aquilo.
Sim, por vezes nem eu percebo.
Mas estamos aqui porque ela é uma das três mulheres da minha vida, mulheres que amo verdadeiramente, que por vezes me sustêm por me deixarem suste-las, que me seguram nas noites de dúvida por simplesmente existirem e por vezes me deixarem segurá-las, a elas e às suas dúvidas, e por, na mais escura das dúvidas e na mais longa das confissões, as fazer soltar aquela música única que fazem ao sorrir quando é afogar a dor nas lágrimas que esperam à porta dos seus olhos que lhes apetece.
Sento-me em frente desta irmã pequena, que me escolheu e me acolheu muitas vezes, que me foi buscar ao poço fundo de garrafas vazias que tantas vezes me atirei, esta irmã que só tive quando a conheci, que me controla no seu rodopio descontrolado, e a quem susteria muitas mais vezes nos meus ombros, para a fazer ver no espelho da noite, as estrelas suas irmãs.
E é isso que as mentes encarquilhas das velhas não apanham, que esta mulher que vi crescer à minha frente do outro lado da mesa, em visões enfumaradas de álcool misturado sei lá eu com que dor, está aqui sentada porque juntos sorrimos, porque para duas horas de confissão mútua atravessei uma orgulhosamente bela e gelada tempestade sem sequer pensar nisso.
Amo-a porque acredita em mim, amo-as porque acreditam em mim, quase quase quase tanto quanto acredito nelas,na sua capacidade de sorrir quando doí, de me dizerem a verdade, de me quererem a amar quem me ame.
Até amo o cegas que por vezes são em relação a mim.
Por isso sento-me esperando o chá, sorrindo de volta à luz do outro lado da vela, e mentalmente mando as velhas pro caralho.
Uma por uma.


(escrito numa noite escura para T, para uma estrela cadente e especialmente para a minha neta)

domingo, abril 20, 2008

é estranho
procurei em todos os bolsos, todos os recantos, e não encontro
não sei onde anda, não sei onde a pousei
não encontro a minha necessidade de amar
não senti sequer a sua falta
até me acusares, de facas nos olhos e lágrimas nas palavras
de nunca ter andado com sequer com ela
o que é mentira
lembro-me vagamente de a ter usado
sei que já senti necessidade de amar
acho eu
se for aquele sentimento de querer
imperioso, sedento e vagamente lamechas
era?
esse mesmo?
hmmmmm
deve estar no bolso do casaco
com licença
vou procurar

segunda-feira, abril 07, 2008

Como sempre

Fico deitado, bem aconchegado na escuridão do quarto, o corpo ainda fervente das carícias da água, a respiração arrastando-se dificilmente pela garganta acima, cada movimento especificamente pensado para que a dor não desperte do seu torpor, essa serpente enrolada à volta da perna, dois rubis brilhantes na escuridão, a promessa de uma dentada de dor peçonhenta e pegajosa a pairar na escuridão do quarto.
No meio da escuridão, no meio da dor, penso em ti.
Penso em ti com a clareza gelada que só a dor nos oferece, meço as palavras ditas e as não ditas com um cuidado quase sistemático, enrolo bem a situação pelos dedos para a ver em toda a sua gloriosa banalidade, para que nem uma só luminescência doentia me escape. Simplesmente, nunca gostei de não compreender, de não saber.
Acabou porque abandonei o nosso plano.
É justo.
Era um bom plano, pensado entre os dois, pensado durante noites em que afogámos a solidão em incenso de maçã e vodka negro, os fumos do álcool e do incenso misturados viam mais claramente que nós dois juntos, é sempre assim, formula-se um bom plano e espera-se que seja seguído.
A realidade veio, qual brisa que sobe do rio, como a que entra agora pela janela do quarto e trás mais silêncio com ela, mais escuridão, essa brisa real limpou o fumo quente e adocicado que tínhamos, no qual nos enrolávamos, no qual nos despíamos nos dias de desespero e mergulhávamos nos braços um dos outro, e deixou apenas dois caminhos separados.
O nosso e o meu.
Escolhi o meu.
Como sempre.
Devia sentir a dor do amor perdido, mas sinto a alegria da estrada minha que me possui e que reconheço, devia sentir que te perdi, mas agora sinto a perna, sinto a dor natural das consequências, sinto vontade de me arrastar na direcção do vento.
Como sempre.
Sempre, sempre na direcção do vento.

domingo, março 30, 2008

Até aqui

Evito falar de mim.
Apresento pequenos momentos, brilhantes nadas, bugigangas decoradas, que dependendo do modo como as rodo nos dedos, se tornam cativantes, assustadoras, apaixonadas.
E, acima de tudo, evitam responder a perguntas incómodas.
Sobre mim.
Por vezes, a meio de uma conversa, um vislumbre de mim, uns parcos segundos imparáveis, salta para a luz das velas.
E paro, faço rir, puxo sorrisos.
E assim evito falar sobre mim.
Até aqui, em binário.

sábado, março 29, 2008

Manhã de Páscoa

É uma cena ridícula.
Tão ridícula que poderia fazer parte de um qualquer postal ilustrado da época pascal.
São oito da manhã, oiço o rádio dizer uns escassos metros das minhas costas, na mesma direcção de onde vem a luz cortante do sol, na mesma direcção de onde nasce esta morrinha, esta estúpida ameaça de chuva cujos passos sonoros nos meus ombros incomodam muito mais do que molham verdadeiramente.
É de certeza um sonho estúpido, um ridículo masoquismo imaginado, estou numa cama antiga, afogado em cobertores, a sonhar que estou à chuva, a sonhar que espero, de costas para o sol, um sinal.
Os segundos passam intermináveis, escorrem para dentro dos minutos como a chuva que finalmente cai decidida a molhar alguém escorre pelos meus ombros gelados, mal aquecidos pelo abraço do oleado verde do meu pai, preferia estar em camisa, mas ou continuo com o oleado vestido ou volto a pé. Antes eu gelar que encharcar os estofos.
A vedação estica, lá de longe vem o sinal.
Subo a marreta bem acima da minha cabeça, é uma ferramenta antiga, que o tempo e a fome de quem a manejava tornaram quase viva, um prolongamento da minha fúria com mais do dobro da minha idade.
E simplesmente descarrego. A minha fúria saí em pequenos relâmpagos, em fugazes uniões do metal com as estacas de madeira. A estaca treme, a marreta treme, eu tremo. Por vezes a terra protesta, queixa-se de tanta violência, que mal me fez ela, atira-me pedaços de lama, mas de pouco lhe serve.
A minha mente, todos os meus sentidos, o meu próprio ser, são engolidos pela força. Ao fim de uns minutos, já nem mesmo a trepidação do embate me incomoda, nem mesmo me vou aperceber dela até ter de parar, e as mãos ainda tremerem. O próprio som do rádio se torna um zumbido apagado, uma abelha numa tarde luminosa de um Verão distante, deixaram-me sozinho com o rádio e o carro que o segura, poderia fugir, voar daqui.
Se me apercebesse disso.
Mas agora não, sou filho da força que liberto, só mesmo quando acabo percebo que estou só, e afegante, e gelado, e a própria luz da manhã me dá um pontapé nos olhos quando patino de volta para o carro.
Penso no que falta fazer e nem me sento. Fico cá fora à espera que me tragam os pobres animais, vou participar no seu sacrifício, tu morres para eu comer, vou recolher a tua vida, líquida e sólida, para alimentar as pessoas que estão provavelmente ainda a dormir.
Já voltam, perguntam-me se está feito, perguntam-me se acabei.
Sim.
E partimos então para casa, para a esperança de calor, para a morte dos seres que estão lá atrás, balindo mansamente, apreciando a viagem.
Domingo de Páscoa, 9.30 da manhã.
Vou a caminho de mais umas duas horas de trabalho, já perdi toda a esperança que seja um sonho, nem mesmo eu tenho sonhos tão estúpidos, nem penso no calor que me aguarda no fim, penso que, apesar da bela merda de manhã que vou ter, não trocava estes momentos por nada deste mundo.
Bom, minto.
Preferia ter ficado a dormir.
Mas olha, pequena fagulha de luz matinal que me corta a cara, isso já não tem remédio.