se fosse sincero dizia-te o quanto me apetece matar-te
usar esta pedra no meu peito, negra e suja de sangue
para destruir a luz dos teus olhos, apagá-la para sempre
se fosse verdadeiro terias verdadeiramente medo de mim
saberias que nos meus olhos se escondem os passos escuros
as garras afiadas de quem te quer esmagar o pescoço fino
se eu fosse realmente eu quando eu estou contigo
verias o sangue dos teus lábios a bailar nos meus
o meu riso a aumentar com o medo dos teus olhos
se um dia eu amanheço como eu sou mesmo
beberei os tuas lágrimas misturadas com o teu sangue
desfarei o teu corpo por entre os lençóis da tua cama
apetece-me estragar-te
destruir-te
desfazer-te
amar-te
"Mas eu, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos; Espalhei os meus sonhos debaixo dos teus pés; Caminha suavemente, pois caminhas sobre os meus sonhos." W.B. Yeats
segunda-feira, julho 09, 2007
domingo, junho 24, 2007
Quase.
Já quase me tinha esquecido a que sabe uma pele, qual o sabor do suor de alguém que adormece nos nossos braços, já nem mesmo o peso doce de uma colher cheia de luz a dormir encostada a mim passava senão de uma vaga memória.
Tentei navegar calmamente esses oceanos de memória, forcei os meus dedos a não tremer, acho que não tremeram, sei que se tremeram não me importo realmente.
Os teus caracóis repousam no meu ombro como se de vinhas numa parede partida se tratassem, pequenas trepadeiras sufocantes de vida numa pele muito marcada, onde deixaste a tua marca, pelo sim pelo não, só porque podias e passaste por lá, pequeno graffiti rasgado com a ponta da unha.
Só sei que estou vivo quando entro na cozinha, a luz das 6 da manhã, aquela luz que ainda nem é luz, é um embrião de luminosidade, atravessa o balcão de uma ponta à outra, bate-me na cara, entras e beijas-me o pescoço, roubas uma torrada e ris alto demais, olhando por cima do ombro na tua fuga pelo corredor.
Acho que vou chegar atrasado, já me esperam quando chego a casa, parto logo, sentado lá atrás, o mundo é ruído de fundo, até a luz se desvanece, não estou realmente no carro, estou a lembrar o momento, aquele exacto momento em que me lembrei do que quase tinha esquecido.
Quase.
Tentei navegar calmamente esses oceanos de memória, forcei os meus dedos a não tremer, acho que não tremeram, sei que se tremeram não me importo realmente.
Os teus caracóis repousam no meu ombro como se de vinhas numa parede partida se tratassem, pequenas trepadeiras sufocantes de vida numa pele muito marcada, onde deixaste a tua marca, pelo sim pelo não, só porque podias e passaste por lá, pequeno graffiti rasgado com a ponta da unha.
Só sei que estou vivo quando entro na cozinha, a luz das 6 da manhã, aquela luz que ainda nem é luz, é um embrião de luminosidade, atravessa o balcão de uma ponta à outra, bate-me na cara, entras e beijas-me o pescoço, roubas uma torrada e ris alto demais, olhando por cima do ombro na tua fuga pelo corredor.
Acho que vou chegar atrasado, já me esperam quando chego a casa, parto logo, sentado lá atrás, o mundo é ruído de fundo, até a luz se desvanece, não estou realmente no carro, estou a lembrar o momento, aquele exacto momento em que me lembrei do que quase tinha esquecido.
Quase.
quarta-feira, maio 09, 2007
Os carros passam silenciosamente, deixando tiras vermelhas de quando passam por mim. Vou de cara pendurada, olho as estrelas no gelado céu da noite de verão, penduradas, esperando, olhando silenciosamente os carros que passam.
A noite é um espelho, silencioso e escuro como alcatrão, muralhas de árvores impedem os olhos de se perderem na paisagem sem lua, a adrenalina escorre das colunas, a batida faz as respirações acelerar, faz o carro acelerar, faz o mundo acelerar.
Só eu, pendurado da janela, permaneço imóvel.
Todo o carro arde, sente-se o calor, a fúria inflamada faz todos no carro arder, só eu sinto o ar gelado que entre às golfadas pela janela aberta. Os lábios torcem-se nervosamente, as conversas são curtas, todos guardam cada grama da sua fúria, todos a atiçam, para que arda mais e mais e mais.
Porquê?
Serei mais calmo?
Mais velho?
Mais sábio?
Só eu, pendurado da janela, permaneço imóvel.
Todo o carro arde, sente-se o calor, a fúria inflamada faz todos no carro arder, só eu sinto o ar gelado que entre às golfadas pela janela aberta. Os lábios torcem-se nervosamente, as conversas são curtas, todos guardam cada grama da sua fúria, todos a atiçam, para que arda mais e mais e mais.
Porquê?
Serei mais calmo?
Mais velho?
Mais sábio?
A minha fúria ardente, onde está, para onde foi, será que a perdi? Será que já não sou aquela chama de fúria, de calor e energia?
É nisto que penso quando o carro para subitamente, é este o meu verdadeiro medo, não a dor, não os outros, nunca, nunca os outros.
Todos saímos, e avançamos calmamente, e então reparo.
Já passei por isto antes, já sei onde estou, não mais estou perdido.
Não ardo de fúria.
Quem arderia estando aqui, num sitio familiar, rodeado do que conheces?
A minha fúria, se é que é fúria é gelada, temperada com um contentamento imenso, uma antecipação de quem volta de uma longa viagem e está em casa.
Vai começar.
Estou em casa.
quinta-feira, maio 03, 2007
chove porque eu peço
Oiço as pessoas, escondidas nos cafés, presas nas paragens cheias dos transportes públicos, encravadas debaixo de longas filas de guarda-chuvas, protegidas, fugidas desta chuva fria que cai torrencial que vem cortar um começo promissor de sol e calor...
Porque chove, que vem esta chuva fazer aqui, lembrar-me do inverno escuro na véspera do luminoso verão?
As suas vozes não me interessam , só me fazem sorrir de desprezo, nascido de um contentamento imenso como o cinzento das nuvens que me despejam as suas dores pela cara, pelo cabelo, pelas pontas dos dedos.
Esta chuva cai porque eu preciso dela, porque a pedi no meio da noite escura e sufocante, do suor e da culpa. Ela cai finalmente, são paredes de facas geladas que caem do céu, que me cortam o medo, que me separam das correntes que me prendem, chove e estou cá fora, o vento acorda-me os sentidos, levanta a alma que não tenho para o céu em que não acredito, faz-me sorrir de alivio e fúria.
Sinto a respiração do fumo,sinto o cheiro da vida, a terra encharcada que bebe a chuva tão ansiosamente como eu.
Mas, mais que tudo, abro os olhos lavados, estou rodeado de cores novas, lavadas, limpas, e sinto a sua força como se tocasse os ásperos óleos de um quadro renovado, brilhante.
Mas mais que tudo... mais até que a chuva e o vento... eu sinto.
O meu coração bate de novo, os meus olhos estão lavados, eu sinto.
EU SINTO!
E choveu porque eu pedi.
Porque chove, que vem esta chuva fazer aqui, lembrar-me do inverno escuro na véspera do luminoso verão?
As suas vozes não me interessam , só me fazem sorrir de desprezo, nascido de um contentamento imenso como o cinzento das nuvens que me despejam as suas dores pela cara, pelo cabelo, pelas pontas dos dedos.
Esta chuva cai porque eu preciso dela, porque a pedi no meio da noite escura e sufocante, do suor e da culpa. Ela cai finalmente, são paredes de facas geladas que caem do céu, que me cortam o medo, que me separam das correntes que me prendem, chove e estou cá fora, o vento acorda-me os sentidos, levanta a alma que não tenho para o céu em que não acredito, faz-me sorrir de alivio e fúria.
Sinto a respiração do fumo,sinto o cheiro da vida, a terra encharcada que bebe a chuva tão ansiosamente como eu.
Mas, mais que tudo, abro os olhos lavados, estou rodeado de cores novas, lavadas, limpas, e sinto a sua força como se tocasse os ásperos óleos de um quadro renovado, brilhante.
Mas mais que tudo... mais até que a chuva e o vento... eu sinto.
O meu coração bate de novo, os meus olhos estão lavados, eu sinto.
EU SINTO!
E choveu porque eu pedi.
quarta-feira, abril 18, 2007
neutro
uma pedra lisa, raspada, polida pelo uso
uma lâmina romba, que perdeu o fio
um espelho embaciado, rachado
um disco riscado, empenado
uma lâmina romba, que perdeu o fio
um espelho embaciado, rachado
um disco riscado, empenado
será que este bater compassado
que já nada afecta
que já nada acelera
será que sou mesmo eu
uma recordação esbatida
um vapor suspirado
num passado já quase esquecido
já quase uma vaga lembrança
onde está o monstro
para onde escorreu a fúria
em que sono perdi o sonho
não passou assim tanto tempo
quando foi que te toquei
quando foi que te vi e abracei
já não me importo
nem com isso
nem com nada
que já nada afecta
que já nada acelera
será que sou mesmo eu
uma recordação esbatida
um vapor suspirado
num passado já quase esquecido
já quase uma vaga lembrança
onde está o monstro
para onde escorreu a fúria
em que sono perdi o sonho
não passou assim tanto tempo
quando foi que te toquei
quando foi que te vi e abracei
já não me importo
nem com isso
nem com nada
domingo, março 18, 2007
prisão transparente
Atiro-me contra as paredes de vidro
desta masmorra luminosa e quente
demasiado desesperado para temer
demasiado assustado para parar
O meu corpo, o meu espírito,
todo o meu incompleto eu
desespera por ar, desespera pela chuva
por ficar de novo cativo do vento nas árvores
Atiro-me novamente
banhado em sangue e suor
demasiado estúpido para desistir
demasiado cansado para respirar
O meus músculos tremem
o ar rasga-me a garganta
embato novamente nas paredes de cristal
sinto os ossos ranger
mas a transparente muralha nem se mexe
Olho parado o exterior
reparo agora
o vento navega pelas copas das árvores
tomo balanço e atiro-me novamente
desta masmorra luminosa e quente
demasiado desesperado para temer
demasiado assustado para parar
O meu corpo, o meu espírito,
todo o meu incompleto eu
desespera por ar, desespera pela chuva
por ficar de novo cativo do vento nas árvores
Atiro-me novamente
banhado em sangue e suor
demasiado estúpido para desistir
demasiado cansado para respirar
O meus músculos tremem
o ar rasga-me a garganta
embato novamente nas paredes de cristal
sinto os ossos ranger
mas a transparente muralha nem se mexe
Olho parado o exterior
reparo agora
o vento navega pelas copas das árvores
tomo balanço e atiro-me novamente
terça-feira, janeiro 16, 2007
no nevoeiro
Matava por um cigarro, a noite está gelada,
o nevoeiro abraça todas as formas, distorce a noite num abraço apertado,
forma pequenas lágrimas geladas no meu cabelo, na minha cara
As recordações rodeiam-me, neste caminho mal iluminado,
aproximam-se como lobos, vejo os seus olhos vermelhos no limite da luz
vejo as suas formas disformes, as suas presas esfomeadas e sorridentes
Muitas noites passadas aqui, neste nevoeiro gelado
escondido num portal escuro, afastado das luzes, afastado das almas.
espero a altura de abrir as grades, de soltar a torrente de raiva, a fome de sangue
As minhas mãos tremem, não tenho cigarros, o cabedal das luvas rangem suavemente
o vulto à minha esquerda respira o sinal combinado,
o resto dos vultos mexe-se suavemente, não têm olhos, só têm braços, só têm corpo
abro suavemente as grades, abandono a um canto a máscara
vejo o sangue cobrir-me os olhos, a cara, as mãos
e sento-me dentro de mim, sossegadamente, a ouvir o eco
dos barulhos soltos
no nevoeiro
o nevoeiro abraça todas as formas, distorce a noite num abraço apertado,
forma pequenas lágrimas geladas no meu cabelo, na minha cara
As recordações rodeiam-me, neste caminho mal iluminado,
aproximam-se como lobos, vejo os seus olhos vermelhos no limite da luz
vejo as suas formas disformes, as suas presas esfomeadas e sorridentes
Muitas noites passadas aqui, neste nevoeiro gelado
escondido num portal escuro, afastado das luzes, afastado das almas.
espero a altura de abrir as grades, de soltar a torrente de raiva, a fome de sangue
As minhas mãos tremem, não tenho cigarros, o cabedal das luvas rangem suavemente
o vulto à minha esquerda respira o sinal combinado,
o resto dos vultos mexe-se suavemente, não têm olhos, só têm braços, só têm corpo
abro suavemente as grades, abandono a um canto a máscara
vejo o sangue cobrir-me os olhos, a cara, as mãos
e sento-me dentro de mim, sossegadamente, a ouvir o eco
dos barulhos soltos
no nevoeiro
sábado, dezembro 30, 2006
pormenores 3
neste mundo de infinitas chamas semeadas
que a tua voz plantou neste meu caminho
pelas sombras me perdi, devagar, devagarinho
procurei sem olhar, sem ver, sem ouvir
neste nó de infinitos crepúsculos
um só amanhecer de perfeição construído
pelas pontas dos dedos me guiei
entre abraços espinhosos e beijos envenenados
até adormecer nas tuas asas negras
e de dentro dos teus olhos nasceu
essa luz perfeita que nasce da fé inabalável
de quem nunca viajou pela escuridão
que a tua voz plantou neste meu caminho
pelas sombras me perdi, devagar, devagarinho
procurei sem olhar, sem ver, sem ouvir
neste nó de infinitos crepúsculos
um só amanhecer de perfeição construído
pelas pontas dos dedos me guiei
entre abraços espinhosos e beijos envenenados
até adormecer nas tuas asas negras
e de dentro dos teus olhos nasceu
essa luz perfeita que nasce da fé inabalável
de quem nunca viajou pela escuridão
segunda-feira, dezembro 18, 2006
pormenores 1
os meus olhos estão já habituados à ausência de luz no meu interior
e saudam todas as manhãs da minha vida com a mesma estranheza amedrontada
o meu sorriso são as barras que em mim prendem
todos os gritos, todas as lágrimas, todos os beijos
mas o pôr-do-sol, esse já me conhece bem
é um sonho que me arrasta
um chamamento imperfeito, feito de sons roubados ao dia
um empilhar de recordações
enrolo-me dentro de mim e adormeço
com um cobertor de escuridão melosa e fria
como um abraço de alcatrão gelado e amargo
como os meus sonhos realmente são
sexta-feira, dezembro 08, 2006
absolutos
Está um gelo absoluto nesta gloriosa e luminosa manhã, a luz corta-me a cara com as suas lâminas geladas, tento sair do teu abraço adormecido sem te trazer comigo para o dia, prefiro deixar-te adormecida, quente moldura de caracóis negros que me chama de volta para a cama, enquanto me arrasto para a água.
Já estou completamente acordado quando entro novamente no quarto, dentro de mim tenho já o cheiro a pão e café, tento ser absolutamente silencioso enquanto me mexo, beijo-te o pescoço para que me acompanhes, e saio para o exterior cinzento e cheio, para o mundo de barulho que me rodeia, bate-me na cara, quase que me magoa depois do silêncio, do nosso silêncio.
O frio abraça-me e puxa-me para os movimentos automáticos, acho que o filho da puta me conhece só de me ver sair, passo a língua pelos lábios e respiro fundo, guardo-te nesse enorme espaço que tenho dentro de mim, num canto escuro e confortável e parto, parto para as horas do apagamento.
Entro em casa e trago comigo o frio, tenho as mãos tão rijas que nem consigo desapertar os botões do casaco, quando começo a irritar-me a sério apareces do nada, como um vento quente que cheira a maçãs, beijas-me as mãos e tiras-me o casaco, estilhaças o gelo com o teu sorriso, acho que só sorrio por te ver sorrir, não me lembro sequer se antes sorria.
Sento-me e vejo-te voar, como um vapor de negros caracóis e oiço, pela primeira vez oiço verdadeiramente as primeiras palavras deste dia quase noite, e desenho-me de novo, tu desenhas-me de novo, depois das horas do meu apagamento.
De repente paras, como se te lembrasses de que estou ali, olhas-me e sorris, um sorriso largo como o horizonte, e eu sorrio de volta, puxo-te para mim e beijo-te o pescoço.
Não sei, acho que é este o meu absoluto.
Já estou completamente acordado quando entro novamente no quarto, dentro de mim tenho já o cheiro a pão e café, tento ser absolutamente silencioso enquanto me mexo, beijo-te o pescoço para que me acompanhes, e saio para o exterior cinzento e cheio, para o mundo de barulho que me rodeia, bate-me na cara, quase que me magoa depois do silêncio, do nosso silêncio.
O frio abraça-me e puxa-me para os movimentos automáticos, acho que o filho da puta me conhece só de me ver sair, passo a língua pelos lábios e respiro fundo, guardo-te nesse enorme espaço que tenho dentro de mim, num canto escuro e confortável e parto, parto para as horas do apagamento.
Entro em casa e trago comigo o frio, tenho as mãos tão rijas que nem consigo desapertar os botões do casaco, quando começo a irritar-me a sério apareces do nada, como um vento quente que cheira a maçãs, beijas-me as mãos e tiras-me o casaco, estilhaças o gelo com o teu sorriso, acho que só sorrio por te ver sorrir, não me lembro sequer se antes sorria.
Sento-me e vejo-te voar, como um vapor de negros caracóis e oiço, pela primeira vez oiço verdadeiramente as primeiras palavras deste dia quase noite, e desenho-me de novo, tu desenhas-me de novo, depois das horas do meu apagamento.
De repente paras, como se te lembrasses de que estou ali, olhas-me e sorris, um sorriso largo como o horizonte, e eu sorrio de volta, puxo-te para mim e beijo-te o pescoço.
Não sei, acho que é este o meu absoluto.
segunda-feira, novembro 13, 2006
olá
energia
todo o teu corpo é um eléctrodo
propagas corrente pelas minhas mãos
como um cataclismo de luz
como se o sol
farto de esperar por mim
me esperasse já na porta
e me comesse os lábios
antes de me deixar sequer entrar
sobes
enrolas-te pelo meu corpo
como uma serpente alada e suave
e arrancas-me a alma com doce perfume
envenenado pelos teus beijos
arrasto já os corpos pelo chão
numa direcção que nem sei bem
paras
olhas-me sorrindo
deixas-me respirar um momento
fechas a porta com um pé
arrancas os meus olhos com os teus olhos
e dizes-me olá
e chamas-me teu
todo o teu corpo é um eléctrodo
propagas corrente pelas minhas mãos
como um cataclismo de luz
como se o sol
farto de esperar por mim
me esperasse já na porta
e me comesse os lábios
antes de me deixar sequer entrar
sobes
enrolas-te pelo meu corpo
como uma serpente alada e suave
e arrancas-me a alma com doce perfume
envenenado pelos teus beijos
arrasto já os corpos pelo chão
numa direcção que nem sei bem
paras
olhas-me sorrindo
deixas-me respirar um momento
fechas a porta com um pé
arrancas os meus olhos com os teus olhos
e dizes-me olá
e chamas-me teu
terça-feira, novembro 07, 2006
atracção
Nunca sei bem o que te digo, as palavras pulam simplesmente na tua direcção, como se fosses um íman para o que digo, para o que vejo, para o meu corpo.
Torno-me um espectador ausente, como se dormitasse num cinema, apenas me apercebo do mundo através de grandes imagens coloridas, gigantescos quadros de óleo, enormes telas vivas e quentes narradas pela tua voz gotejante.
E a tua mão agarra minha.
Desperto debaixo de uma chuva infinita e negra, que cai da noite como pedaços de alcatrão gelados, parado à porta da tua casa, a tentar agarrar o calor da cama ao meu corpo, a tentar lembrar o teu cheiro na minha cara antes que se misture com as lágrimas das nuvens.
O primeiro passo é o mais difícil, mas o peso do sono empurra-me para a calçada e avanço por puro hábito de fazer o caminho de volta, o serpenteante caminho de pedra que me leva para um dia de névoa cinzenta e outras vozes.
Mas que leva também, quase que rezo enquanto ando, de volta para as tuas mãos.
Torno-me um espectador ausente, como se dormitasse num cinema, apenas me apercebo do mundo através de grandes imagens coloridas, gigantescos quadros de óleo, enormes telas vivas e quentes narradas pela tua voz gotejante.
E a tua mão agarra minha.
Desperto debaixo de uma chuva infinita e negra, que cai da noite como pedaços de alcatrão gelados, parado à porta da tua casa, a tentar agarrar o calor da cama ao meu corpo, a tentar lembrar o teu cheiro na minha cara antes que se misture com as lágrimas das nuvens.
O primeiro passo é o mais difícil, mas o peso do sono empurra-me para a calçada e avanço por puro hábito de fazer o caminho de volta, o serpenteante caminho de pedra que me leva para um dia de névoa cinzenta e outras vozes.
Mas que leva também, quase que rezo enquanto ando, de volta para as tuas mãos.
quinta-feira, outubro 19, 2006
olho as tempestuosas mãos como se nelas residisse realmente a minha salvação, como se pudesse rasgar o celeste cobertor cinzento de chumbo derretido e arrastar-me para o escuro conforto que reside detrás do céu
acho que só mesmo a chuva que cai me salva, deve ser de estar tão encharcado, nem sei se tremo de frio ou de coragem, tenho tanto sentir acumulado que tremo quando ele sai, quando a chuva me escorre das pontas dos dedos e o vento me enrola e dança comigo
sou uma pedra que anda, sou uma estátua flutuante
e não sei realmente o que fazer quando a barragem rebenta, quando as lágrimas que das nuvens caem me entram pelos olhos e puxam as minhas para o ar frio, ambas se misturam e me gelam a cara, parece que choro facas e respiro espadas, parece que os meus pulmões se enchem do sangue que me gela no copo todo
sou uma pedra que parte, sou ...
sei lá eu o que sou
sou um gajo encharcado, gelado e partido, e só me quero meter num mundo de vapor e lágrimas quentes e confortáveis com que o chuveiro me vai envolver, assim que chegar a casa
e aí, nos teus abraços, não me importo de não existir
acho que só mesmo a chuva que cai me salva, deve ser de estar tão encharcado, nem sei se tremo de frio ou de coragem, tenho tanto sentir acumulado que tremo quando ele sai, quando a chuva me escorre das pontas dos dedos e o vento me enrola e dança comigo
sou uma pedra que anda, sou uma estátua flutuante
e não sei realmente o que fazer quando a barragem rebenta, quando as lágrimas que das nuvens caem me entram pelos olhos e puxam as minhas para o ar frio, ambas se misturam e me gelam a cara, parece que choro facas e respiro espadas, parece que os meus pulmões se enchem do sangue que me gela no copo todo
sou uma pedra que parte, sou ...
sei lá eu o que sou
sou um gajo encharcado, gelado e partido, e só me quero meter num mundo de vapor e lágrimas quentes e confortáveis com que o chuveiro me vai envolver, assim que chegar a casa
e aí, nos teus abraços, não me importo de não existir
domingo, outubro 15, 2006
mãos geladas
Consigo saborear no ar que o teu beijo deixou nos meus pulmões aquele doce cheiro a vingança que aparece na noite, misturado no sabor gorduroso a morango que o teu baton plantou pela subida do meu pescoço até à minha boca.
Tens as mãos geladas, arrepias-me a pele quando me tocas o peito, que estranha mistura esta, as minhas costas suam, quase que tremo da mistura entre o frio e o nervoso, tenho medo que descubras que já perdeste, que já te puxei para mim, tenho medo que olhes à volta e descubras que já navegámos da sala para o quarto.
Os teus caracóis soltam-se quando te envolvo a cintura com a mão e te levanto, ris de espanto e de prazer, pareces uma criança que descobriu um baloiço, não te deixou logo, fico a segurar-te assim, em pleno ar, olhos nos olhos, as tuas mãos seguram a minha cabeça, sou real e o teu sorriso acredita, ainda tens uma ponta de riso pendurada nos lábios, passa uma eternidade, passam duas, quase que passam três quando saltas e me sugas a alma com um beijo.
Já não tens as mãos geladas.
Tens as mãos geladas, arrepias-me a pele quando me tocas o peito, que estranha mistura esta, as minhas costas suam, quase que tremo da mistura entre o frio e o nervoso, tenho medo que descubras que já perdeste, que já te puxei para mim, tenho medo que olhes à volta e descubras que já navegámos da sala para o quarto.
Os teus caracóis soltam-se quando te envolvo a cintura com a mão e te levanto, ris de espanto e de prazer, pareces uma criança que descobriu um baloiço, não te deixou logo, fico a segurar-te assim, em pleno ar, olhos nos olhos, as tuas mãos seguram a minha cabeça, sou real e o teu sorriso acredita, ainda tens uma ponta de riso pendurada nos lábios, passa uma eternidade, passam duas, quase que passam três quando saltas e me sugas a alma com um beijo.
Já não tens as mãos geladas.
segunda-feira, outubro 09, 2006
poema 43
sinto-me desenrolar
como um novelo que rebola lentamente pelo chão
tingido pelo sangue que me falta
sinto que me perco
que perco quem sou, que me vou erodindo
como uma pedra na praia
às vezes nem sinto nada
nem sei bem quem sou quando acordo
venho de um mundo que nem me lembro
nem sei se devia sentir
ou se me lembro bem como se sente
devia ter escrito o caminho de volta
só sei que me perdi
e que continuo a perder-me mais
tanto que já nem me lembro
de onde parti
como um novelo que rebola lentamente pelo chão
tingido pelo sangue que me falta
sinto que me perco
que perco quem sou, que me vou erodindo
como uma pedra na praia
às vezes nem sinto nada
nem sei bem quem sou quando acordo
venho de um mundo que nem me lembro
nem sei se devia sentir
ou se me lembro bem como se sente
devia ter escrito o caminho de volta
só sei que me perdi
e que continuo a perder-me mais
tanto que já nem me lembro
de onde parti
quarta-feira, setembro 27, 2006
A caminho do trabalho
A luz da manhã brilha gelada nos teus olhos cor de lágrimas, torna os teus cabelos negros ainda mais verdadeiros, como se de um novelo de lã se tratasse.
Neste exacto e medido momento sei que te amo, isto que explode no meu peito só pode ser amor, o desejo eu conheço bem, e esta dor de precisar ficar preso a ti é nova para mim.
Puxas-me para a luz quando nos afundamos nos lençóis, o teu nariz brinca no meu peito, as tuas unhas arranham os braços, é o meu corpo que te protege da luz líquida que entra a escorrer lentamente pelo quarto, mas para mim a luz é tua, é como agarrar um sol entre os braços.
Enquanto me calço escondes a cabeça debaixo da almofada, resmungas-me palavras inaudíveis, copiadas de antigos cantos de sereias, tentas arrastar-me de volta para a cama, a manhã está gelada e nem mesmo a fogueira do teu corpo me aquece as mãos.
E parto sorridente na direcção da servidão, só porque sei que podia ficar, e porque acho que te amo, mas de certeza que me fazes sorrir, até nesta manhã gelada de promessas cinzentas, e acho mesmo que te amo, mas de certeza que me cativaste, diria a sábia raposa, mas já perdi a capacidade de falar, ficou contigo a minha palavra, e só sorrio baixinho para que ninguém repare e me roube esta quase certeza, roubando-me um porquê.
Acho que te amo.
Neste exacto e medido momento sei que te amo, isto que explode no meu peito só pode ser amor, o desejo eu conheço bem, e esta dor de precisar ficar preso a ti é nova para mim.
Puxas-me para a luz quando nos afundamos nos lençóis, o teu nariz brinca no meu peito, as tuas unhas arranham os braços, é o meu corpo que te protege da luz líquida que entra a escorrer lentamente pelo quarto, mas para mim a luz é tua, é como agarrar um sol entre os braços.
Enquanto me calço escondes a cabeça debaixo da almofada, resmungas-me palavras inaudíveis, copiadas de antigos cantos de sereias, tentas arrastar-me de volta para a cama, a manhã está gelada e nem mesmo a fogueira do teu corpo me aquece as mãos.
E parto sorridente na direcção da servidão, só porque sei que podia ficar, e porque acho que te amo, mas de certeza que me fazes sorrir, até nesta manhã gelada de promessas cinzentas, e acho mesmo que te amo, mas de certeza que me cativaste, diria a sábia raposa, mas já perdi a capacidade de falar, ficou contigo a minha palavra, e só sorrio baixinho para que ninguém repare e me roube esta quase certeza, roubando-me um porquê.
Acho que te amo.
sexta-feira, setembro 15, 2006
alguns de nós
alguns de nós
que caminhamos perdidos neste chão
não tivemos a sorte
de ser filhos de Deus
descendentes do cruzamento
entre um pedaço de barro e uma costela
alguns de nós
nunca tiveram uma proposta
uma daquelas mesmo concretas
para vender uma alma que não temos
a um diabo que não existe
fora do nosso peito
alguns de nós
tivemos de nos construir do nada
como uma barraca de lata e contraplacado
só para ter um templo
nosso e de mais ninguém
onde acreditar é voar
alguns de nós
acreditam em vocês todos os dias
e abraçamos, e agarramos, e embalamos
os vossos corpos doridos e olhos vermelhos
nos dias em que os vossos vapores
não ouvem as vossas vozes
que caminhamos perdidos neste chão
não tivemos a sorte
de ser filhos de Deus
descendentes do cruzamento
entre um pedaço de barro e uma costela
alguns de nós
nunca tiveram uma proposta
uma daquelas mesmo concretas
para vender uma alma que não temos
a um diabo que não existe
fora do nosso peito
alguns de nós
tivemos de nos construir do nada
como uma barraca de lata e contraplacado
só para ter um templo
nosso e de mais ninguém
onde acreditar é voar
alguns de nós
acreditam em vocês todos os dias
e abraçamos, e agarramos, e embalamos
os vossos corpos doridos e olhos vermelhos
nos dias em que os vossos vapores
não ouvem as vossas vozes
terça-feira, setembro 05, 2006
marcas
deixas-te marcada no meu peito
as marcas da tua passagem
pegadas eternas
numa praia sem mar
ainda oiço nas vozes que passam
ecos daquela tua canção
que inventaste uma noite escura
só para me embalar
os meus olhos ainda pesam por vezes
dos beijos que lá plantaste
como nuvens de flores que nunca crescem
nem são levadas pelo vento
até a minha respiração aguarda ainda
a rodopiar no meu peito
à espera que a venhas beber
com os teus lábios sedentos
as marcas da tua passagem
pegadas eternas
numa praia sem mar
ainda oiço nas vozes que passam
ecos daquela tua canção
que inventaste uma noite escura
só para me embalar
os meus olhos ainda pesam por vezes
dos beijos que lá plantaste
como nuvens de flores que nunca crescem
nem são levadas pelo vento
até a minha respiração aguarda ainda
a rodopiar no meu peito
à espera que a venhas beber
com os teus lábios sedentos
segunda-feira, agosto 21, 2006
luz
Acho que és feita de luz
pelo modo como ela se reflecte casualmente
ao longo do teu pescoço,
dos teus cabelos,
do teu sorrir.
Mordes o lábio de baixo,
pequena menina num mundo de verde,
como que para o suster num sorriso solto,
num sorriso oferecido
com vontade,
com luz.
Amanheces de cabelo solto,
tão inalcansável, tão fugaz, tão livre e distante,
como a luz, amor, como a luz.
Vou ver se te apanho,
prender talvez num espelho, ou nos olhos,
nos olhos não, já me perdi nos teus.
E na luz me perco,
sorridente,
porque sei que és tu.
pelo modo como ela se reflecte casualmente
ao longo do teu pescoço,
dos teus cabelos,
do teu sorrir.
Mordes o lábio de baixo,
pequena menina num mundo de verde,
como que para o suster num sorriso solto,
num sorriso oferecido
com vontade,
com luz.
Amanheces de cabelo solto,
tão inalcansável, tão fugaz, tão livre e distante,
como a luz, amor, como a luz.
Vou ver se te apanho,
prender talvez num espelho, ou nos olhos,
nos olhos não, já me perdi nos teus.
E na luz me perco,
sorridente,
porque sei que és tu.
segunda-feira, agosto 14, 2006
canção dos caídos
sei o que os meus olhos olharam
naqueles dias em que ainda via
em que lambi as nuvens de cinza
do fogo que então ardia em mim
carreguei caixas de madeira escura
para covas de terra a cheirar a chuva
enterrei pedaços queimados de mim
debaixo de cada tampa de pedra
não há mais fogo nunca mais
não há mais lágrimas para dissolver
nem mesmo a dor me embala o sono
e as recordações do riso e do sol
são sombras no nevoeiro sonhado
é por isso que canto esta canção
aos que caíram e partiram à frente
guardem aí o meu lugar, irmãos
nessa mesa de dores e sangue e saudade
que em breve também eu terei
um barco de madeira escura
debaixo de uma tampa de pedra
naqueles dias em que ainda via
em que lambi as nuvens de cinza
do fogo que então ardia em mim
carreguei caixas de madeira escura
para covas de terra a cheirar a chuva
enterrei pedaços queimados de mim
debaixo de cada tampa de pedra
não há mais fogo nunca mais
não há mais lágrimas para dissolver
nem mesmo a dor me embala o sono
e as recordações do riso e do sol
são sombras no nevoeiro sonhado
é por isso que canto esta canção
aos que caíram e partiram à frente
guardem aí o meu lugar, irmãos
nessa mesa de dores e sangue e saudade
que em breve também eu terei
um barco de madeira escura
debaixo de uma tampa de pedra
terça-feira, agosto 08, 2006
sem asas
Sem asas é mais fácil amarSem asas é mais fácil voar
Sem asas é mais fácil mentir
Sem asas é mais fácil fugir
Arranquei as minhas asas
Para as pôr a teus pés
E sem asas fico a ver
tu e as estrelas no céu
lá longe... muito, muito longe
E sem asas sorrio enquanto voas
E falas com as estrelas cadentes
que se enleiam no teu cabelo
terça-feira, agosto 01, 2006
entre beijos
... suspiras bem junto ao meu pescoço, o calor do bar acompanhou-nos até aqui, até esta porta semiaberta, até este degrau, montanha que conquistaste para partilharmos a luz desta lua mansa e parda, que se derrama lentamente dos olhos para os lábios...
... a carpete da sala abraça-nos o corpo quando o sofá nos cospe para o mundo, rebolando, bato de costas e os reflexos fazem-me rodar contigo nos braços, gaiola de carne protectora que te faço por instantes e instintos, pequeno pássaro de luz que és, guardada aqui nos meus braços...
... olhos nos olhos, corpo no corpo, o meu braço esquerdo sustém todo o meu peso, amanhã vai doer mas agora sustém-me, sustém o mundo, só para que a minha mão se passeie pelo canto do teu sorrir, só para que ela te afaste os cabelos pegados de suor da tua cara brilhante...
... o teu corpo sobe e choca de mansinho no meu a cada respiração que tens, as tuas pernas estão enleadas nas minhas, és uma trepadeira viva, a minha mão direita posou na curva da tua anca, seguro-te como se fosses uma viola, a tua voz murmura como a canção que o vento toca nas cordas...
... está calor demais para me afastar de ti, dormes pendurada no meu braço, a boca entreaberta faz-me querer beber mais, está calor, tenho sede, e a tua pele queima como o vento que me lambe a pele de dia, mas não me mexo, só a mão se mexe, quero beber dos teus olhos a luz que a lua oferece pela janela, afasto as tuas madeixas, vejo a fonte que nasce nos teus lábios, bebo uma última vez, e derramo-me nos sonhos escuros...
... a carpete da sala abraça-nos o corpo quando o sofá nos cospe para o mundo, rebolando, bato de costas e os reflexos fazem-me rodar contigo nos braços, gaiola de carne protectora que te faço por instantes e instintos, pequeno pássaro de luz que és, guardada aqui nos meus braços...
... olhos nos olhos, corpo no corpo, o meu braço esquerdo sustém todo o meu peso, amanhã vai doer mas agora sustém-me, sustém o mundo, só para que a minha mão se passeie pelo canto do teu sorrir, só para que ela te afaste os cabelos pegados de suor da tua cara brilhante...
... o teu corpo sobe e choca de mansinho no meu a cada respiração que tens, as tuas pernas estão enleadas nas minhas, és uma trepadeira viva, a minha mão direita posou na curva da tua anca, seguro-te como se fosses uma viola, a tua voz murmura como a canção que o vento toca nas cordas...
... está calor demais para me afastar de ti, dormes pendurada no meu braço, a boca entreaberta faz-me querer beber mais, está calor, tenho sede, e a tua pele queima como o vento que me lambe a pele de dia, mas não me mexo, só a mão se mexe, quero beber dos teus olhos a luz que a lua oferece pela janela, afasto as tuas madeixas, vejo a fonte que nasce nos teus lábios, bebo uma última vez, e derramo-me nos sonhos escuros...
segunda-feira, julho 17, 2006
Carne
O teu corpo brilha na noite, suave deusa de metal bronzeado, e as pingas de luz dos candeeiros reflectem o suor que se demora pelas curvas do teu corpo, pérolas perdidas que te abandonam.
O ar dentro e fora do quarto está apertado pelo calor, agarra o peito, agarra o pescoço e aperta, sufoca, é um ar morto que nos parece querer matar também, deve querer companhia.
As tuas mãos fervem no meu peito, como é possível estares mais quente que o ar, mais quente que eu, tens fogo nos olhos, esse teu fogo negro, emoldurado por uma chuva de cabelos dourados, pegados, suados.
Mordes-me o ombro quando me apertas o peito, parábola de vida és, misturas o bem com o mal, a dor e o prazer, aqui, neste quarto pintado de noite escura onde somos apenas carne, nós os dois, o mesmo suor, o mesmo ser, a mesma carne.
O ar dentro e fora do quarto está apertado pelo calor, agarra o peito, agarra o pescoço e aperta, sufoca, é um ar morto que nos parece querer matar também, deve querer companhia.
As tuas mãos fervem no meu peito, como é possível estares mais quente que o ar, mais quente que eu, tens fogo nos olhos, esse teu fogo negro, emoldurado por uma chuva de cabelos dourados, pegados, suados.
Mordes-me o ombro quando me apertas o peito, parábola de vida és, misturas o bem com o mal, a dor e o prazer, aqui, neste quarto pintado de noite escura onde somos apenas carne, nós os dois, o mesmo suor, o mesmo ser, a mesma carne.
domingo, julho 09, 2006
e tu num sol poente
o sol vermelho do poente reflecte-se
transparente e irreal
nas tuas asas de fada perdida
espalhando a água que trazes
pelas curvas da tua pele
pela tua boca viva
pintada de ouro
bebo as gotas de água
vermelhas da luz poente
que descem do teu cabelo
até à tua cara
até ao teu pescoço
até à tua boca viva
pintada de ouro
pousas a mão no meu peito
fada perdida na planície
que pintaste de ouro
como os teus lábios
como os teus cabelos
mas és frescura e trazes a água
apagas o fogo em que ardo
com o teu corpo ondulado
pintado de ouro
transparente e irreal
nas tuas asas de fada perdida
espalhando a água que trazes
pelas curvas da tua pele
pela tua boca viva
pintada de ouro
bebo as gotas de água
vermelhas da luz poente
que descem do teu cabelo
até à tua cara
até ao teu pescoço
até à tua boca viva
pintada de ouro
pousas a mão no meu peito
fada perdida na planície
que pintaste de ouro
como os teus lábios
como os teus cabelos
mas és frescura e trazes a água
apagas o fogo em que ardo
com o teu corpo ondulado
pintado de ouro
domingo, julho 02, 2006
a estrada escura
Ando devagar, sei que aqui sou imparável, posso levar o tempo que quiser a navegar ruelas desertas e parques de estacionamento, esses poços que de dia nada são e que de noite são as arcas que guardam a verdadeira essência da escuridão, daquela podridão humana que nasce do acumular dos nossos medos.
Levo o máximo de tempo possível, só aqui a verdadeira canção do vento morre, embate nas paredes e revolve, julga-se solitário, este vento nocturno, ou então nem se importa comigo, importo-me eu com ele, atravessa-me os olhos, gela-me os lábios, passa-me as mãos pelo cabelo. Até ele sabe que sou imparável, sabe que me sinto um deus mortal, o sangue salta-me das veias, tenta sair-me pelos dedos.
O vento transporta o fogo dos meus olhos até ao céu, a fúria enrola-se num grito que não me sai da garganta, ressoa na minha cabeça enquanto a lua rasga as nuvens e ilumina o meu sorriso, leva com ela as pérolas de suor frio que me surgem na testa, espero pela chuva que não vai chegar nunca.
Entro num caminho largo, nem uma luz no horizonte, nem um candeeiro, sorrio porque sei que é este o meu caminho, é aqui que pertenço, os olhos de negro líquido olham-me como predadores esfomeados, apontam-me dedos de osso frio, tentam arrastar-me para fora do caminho, levar-me esperneando para os abismos.
E a chuva que não vai chegar nunca, dela tenho saudades, dos seus beijos cansados, caídos do céu como pequenas festas no meu cabelo, pequenos arrepios de vida a descer-me do cabelo para as costas, a fazer estradas de pele no pó que me cobre a cara. Mas sorrio enquanto desço a estrada escura, ergo a cabeça e sorrio, mostro ao que se esconde que sou eu quem vai caçar, que sou eu quem vai fazer sangrar, mostro que o predador sou eu.
Aqui, na escuridão, os meus olhos são brancos.
Aqui, na escuridão, sou mortal, não tenho medos, sangro fogo, estou em casa.
Levo o máximo de tempo possível, só aqui a verdadeira canção do vento morre, embate nas paredes e revolve, julga-se solitário, este vento nocturno, ou então nem se importa comigo, importo-me eu com ele, atravessa-me os olhos, gela-me os lábios, passa-me as mãos pelo cabelo. Até ele sabe que sou imparável, sabe que me sinto um deus mortal, o sangue salta-me das veias, tenta sair-me pelos dedos.
O vento transporta o fogo dos meus olhos até ao céu, a fúria enrola-se num grito que não me sai da garganta, ressoa na minha cabeça enquanto a lua rasga as nuvens e ilumina o meu sorriso, leva com ela as pérolas de suor frio que me surgem na testa, espero pela chuva que não vai chegar nunca.
Entro num caminho largo, nem uma luz no horizonte, nem um candeeiro, sorrio porque sei que é este o meu caminho, é aqui que pertenço, os olhos de negro líquido olham-me como predadores esfomeados, apontam-me dedos de osso frio, tentam arrastar-me para fora do caminho, levar-me esperneando para os abismos.
E a chuva que não vai chegar nunca, dela tenho saudades, dos seus beijos cansados, caídos do céu como pequenas festas no meu cabelo, pequenos arrepios de vida a descer-me do cabelo para as costas, a fazer estradas de pele no pó que me cobre a cara. Mas sorrio enquanto desço a estrada escura, ergo a cabeça e sorrio, mostro ao que se esconde que sou eu quem vai caçar, que sou eu quem vai fazer sangrar, mostro que o predador sou eu.
Aqui, na escuridão, os meus olhos são brancos.
Aqui, na escuridão, sou mortal, não tenho medos, sangro fogo, estou em casa.
segunda-feira, junho 19, 2006
digo-te adeus
digo-te adeus e beijo as árvores que tocaste
digo-te adeus e amo a relva que pisaste
digo-te adeus mudo no muro onde me mataste
digo-te adeus até os teus olhos voltarem
digo-te adeus para não ouvir resposta
digo-te adeus para que me arranhes o peito
digo-te adeus para que me arranques a cara
digo-te adeus para ouvir o eco do teu nome
digo-te adeus para não te poder mais beijar
digo-te adeus debaixo da lua de poeira dourada
digo-te adeus
digo-te adeus e amo a relva que pisaste
digo-te adeus mudo no muro onde me mataste
digo-te adeus até os teus olhos voltarem
digo-te adeus para não ouvir resposta
digo-te adeus para que me arranhes o peito
digo-te adeus para que me arranques a cara
digo-te adeus para ouvir o eco do teu nome
digo-te adeus para não te poder mais beijar
digo-te adeus debaixo da lua de poeira dourada
digo-te adeus
e ponto final
sábado, junho 17, 2006
dúvidas em quadras
dança poeta dança,
enquanto a música não abala
p'ra casa da lua meia viva
que a bala matou o resto.
canta poeta canta,
que aqui ninguém te ouve
e se ouvisse que importava,
se nem mesmo tu importas.
olha poeta olha,
isso até tu aqui consegues,
nem eras menos que os outros,
só mais cego, só mais poeta.
grita poeta grita
até os pulmões te sangrarem
dessa ideia que ai corre perdida
de que sabes fazer mais que sangrar.
vive poeta vive
ah, disso já não és capaz!
de viver, e amar , e criar?
de ter a coragem de ser uno e real?
então morre, poeta, morre
que só sabes sonhar e escrever
e neste lugar não há já lugar
para quem se sonha e se sente.
enquanto a música não abala
p'ra casa da lua meia viva
que a bala matou o resto.
canta poeta canta,
que aqui ninguém te ouve
e se ouvisse que importava,
se nem mesmo tu importas.
olha poeta olha,
isso até tu aqui consegues,
nem eras menos que os outros,
só mais cego, só mais poeta.
grita poeta grita
até os pulmões te sangrarem
dessa ideia que ai corre perdida
de que sabes fazer mais que sangrar.
vive poeta vive
ah, disso já não és capaz!
de viver, e amar , e criar?
de ter a coragem de ser uno e real?
então morre, poeta, morre
que só sabes sonhar e escrever
e neste lugar não há já lugar
para quem se sonha e se sente.
sexta-feira, junho 02, 2006
nota de amor
nota de amor
para ninguém
em especial
só uma nota
escrita
com papel e tinta
e algum amor
para ninguém
em especial
só porque
me deu na cabeça
amar agora
e não está aqui
ninguém especial
que se deixe amar
para ninguém
em especial
só uma nota
escrita
com papel e tinta
e algum amor
para ninguém
em especial
só porque
me deu na cabeça
amar agora
e não está aqui
ninguém especial
que se deixe amar
menina dos olhos
menina dos olhos cansados
deixa-me embalá-los nos meus braços
e carregar os pesos nos meus ombros de pedra
menina dos olhos tristes
deixa-me arrancar as minhas mãos
para afogar as tuas lágrimas no meu sangue
menina dos olhos fechados
deixa-me cantar-te um sol novo
para encher de luz e calor a tua cara escondida
menina dos olhos castanhos
os teus poços são meus também
estamos os dois pegados pela linha do teu olhar
deixa-me embalá-los nos meus braços
e carregar os pesos nos meus ombros de pedra
menina dos olhos tristes
deixa-me arrancar as minhas mãos
para afogar as tuas lágrimas no meu sangue
menina dos olhos fechados
deixa-me cantar-te um sol novo
para encher de luz e calor a tua cara escondida
menina dos olhos castanhos
os teus poços são meus também
estamos os dois pegados pela linha do teu olhar
quarta-feira, maio 31, 2006
horizonte
perdida a razão procuro
nos teus olhos o perdão
aquela força que dizes não ter
na luz negra dos teus olhos
não tenho a tua voz aqui
sólida e inteira e presente
só ecos quebrados de gritos
e lágrimas desenhadas no chão
por isso escrevo para mim
uma nova direcção do olhar
porque me dizes que preciso
porque mo grita a tua ausência
um novo horizonte encoberto
desenhado pelas linhas do teu corpo
com florestas de beijos teus em mim
mas sempre sem ti, amor, sempre sem ti
nos teus olhos o perdão
aquela força que dizes não ter
na luz negra dos teus olhos
não tenho a tua voz aqui
sólida e inteira e presente
só ecos quebrados de gritos
e lágrimas desenhadas no chão
por isso escrevo para mim
uma nova direcção do olhar
porque me dizes que preciso
porque mo grita a tua ausência
um novo horizonte encoberto
desenhado pelas linhas do teu corpo
com florestas de beijos teus em mim
mas sempre sem ti, amor, sempre sem ti
quinta-feira, maio 11, 2006
viagem
O meu pensamento perde-se enquanto olho através do reflexo irreal da janela do autocarro.
Na noite que cai quase que me vejo a mim, num quase espelho do qual é tal fácil escapar como ao cair da noite, tão fácil quanto fugir da lua que nasce certamente detrás destas nuvens.
Não penso realmente, não existo realmente, o meu ser dilui-se pelas bermas da estrada, pelo contorno a carvão gelado que se começa a desenhar na planície, já se escapam pormenores desta fotografia viva, mas que importa, se não estou realmente aqui, apenas estou distraído olhando as margens.
Estou tão transparente quanto o vento, neste momento perdido, nada ressoa no interior do meu ser senão o eco tremido do motor, e o vago sabor da música que escorre pelo ar como alcatrão viscoso e se entranha pelos poros da pele.
Mexes-te levemente no meu ombro, tens a minha mão escondida nas tuas desde que nos sentámos, quando adormeceste no meu ombro a paisagem pintava de luz os teus olhos, essa luz escorria como água fresca pela tua cara, pelo teu sorriso vago, pelo teu peito encostado a mim.
O teu peito respira ainda calmamente, suspira vagamente sobressaltado apenas no momento em que acordas, e olhas o mundo que escurece, devolves a luz que guardaste nos teus olhos, que fechaste em ti no momento em que adormeceste, voltas a aparecer no reflexo do vidro, voltas a mexer-te.
Sorrio-te apesar do meu ombro dormente, da dor no meu braço, das horas que permaneci imóvel.
Sorrio-te porque é a única coisa que sei fazer, quando amanheces assim, mesmo num começo de noite, abraçaste-me e apertas-me a alma, já se vêm as luzes da chegada, a viagem canta já o seu fim.
Mas só a luz que escorre de ti, lentamente, gota a preciosa gota, permanece no ar abafado. E, de repente, eu já sou eu outra vez, já existo, aqui, nos teus braços.
Na noite que cai quase que me vejo a mim, num quase espelho do qual é tal fácil escapar como ao cair da noite, tão fácil quanto fugir da lua que nasce certamente detrás destas nuvens.
Não penso realmente, não existo realmente, o meu ser dilui-se pelas bermas da estrada, pelo contorno a carvão gelado que se começa a desenhar na planície, já se escapam pormenores desta fotografia viva, mas que importa, se não estou realmente aqui, apenas estou distraído olhando as margens.
Estou tão transparente quanto o vento, neste momento perdido, nada ressoa no interior do meu ser senão o eco tremido do motor, e o vago sabor da música que escorre pelo ar como alcatrão viscoso e se entranha pelos poros da pele.
Mexes-te levemente no meu ombro, tens a minha mão escondida nas tuas desde que nos sentámos, quando adormeceste no meu ombro a paisagem pintava de luz os teus olhos, essa luz escorria como água fresca pela tua cara, pelo teu sorriso vago, pelo teu peito encostado a mim.
O teu peito respira ainda calmamente, suspira vagamente sobressaltado apenas no momento em que acordas, e olhas o mundo que escurece, devolves a luz que guardaste nos teus olhos, que fechaste em ti no momento em que adormeceste, voltas a aparecer no reflexo do vidro, voltas a mexer-te.
Sorrio-te apesar do meu ombro dormente, da dor no meu braço, das horas que permaneci imóvel.
Sorrio-te porque é a única coisa que sei fazer, quando amanheces assim, mesmo num começo de noite, abraçaste-me e apertas-me a alma, já se vêm as luzes da chegada, a viagem canta já o seu fim.
Mas só a luz que escorre de ti, lentamente, gota a preciosa gota, permanece no ar abafado. E, de repente, eu já sou eu outra vez, já existo, aqui, nos teus braços.
quarta-feira, maio 10, 2006
Uma criança
São quatro e meia da manhã, e já devia estar deitado há muitas horas atrás.
Mas não consigo dormir, não consigo mesmo, nem vale a pena tentar, as lágrimas escorrem-me pela cara, o lábio de baixo quase sangra de tanto o morder, o meu coração morreu à uns momentos atrás.
Acabei de ver um filme, aliás, uma cena de um filme, que sorte a minha, apanho sempre a mesma cena do filme, começo a achar que é uma mensagem para mim, atirada ao mar por outra parte de mim que me quer bem ferido e cru por dentro. O filme é "A Lista de Schindler", e a cena é a do massacre dos judeus no gueto de Varsóvia, aquela cena em que no meio das imensidões cruelmente cinzentas do filme se vê uma pequena menina perdida, com um casaco vermelho, um capuchinho perdido no meio dos lobos, uma pincelada de cor, de vida, no meio da morte que a rodeia.
Lembro-me de quando vi o filme no cinema, a revolta volta, é revolta pura o que sinto, não por motivos religiosos, não acredito nem no Bem nem em nenhuma religião em especial, há muito que perdi a pouca fé que ainda se me agarrava aos ossos. Nem se quer é a morte, essa não me afecta nem um pouco, conheço-a bem, chamo-a por vários nomes, nomes de amigos, nomes de família, nomes que não os meus sonhos não me deixam esquecer.
Para dizer a verdade, é a criança, a menina de vermelho.
Algo em mim se parte quando vejo aquela criança ali, aquela criança que sei que morrerá, morrerá como tantas, mas é aquela que dá corpo aos meus medos, que dá nome aos meus desgostos.
Todos os músculos do meu corpo querem agarrá-la, levá-la dali, protegê-la desta morte que a rodeia, a esta menina que não existiu nunca realmente, mas que existe para mim, que existe para os meus olhos. E as lágrimas caem dos meus olhos porque estou sentado, num confortável sofá, mais de cinquenta anos depois, a ver uma menina que nunca existiu caminhar inocentemente para a morte.
E, apesar disso, quero salvá-la. Quero mesmo. E o meu desgosto é não conseguir, não conseguir que aquela criança se salve, que nenhuma delas se salve, simplesmente porque ela é, como tantas outras, uma pincelada de cor de sangue vivo no nosso mundo de purgatórios cinzentos e mortos.
E nunca os conseguimos salvar.
Que vontade de matar quem a mata, de esmagar quem vai esbater o seu sorriso, por motivos que nem eu nem ela percebemos bem.
E mesmo assim não a consigo salvar.
Nem mesmo dentro de mim.
Mas não consigo dormir, não consigo mesmo, nem vale a pena tentar, as lágrimas escorrem-me pela cara, o lábio de baixo quase sangra de tanto o morder, o meu coração morreu à uns momentos atrás.
Acabei de ver um filme, aliás, uma cena de um filme, que sorte a minha, apanho sempre a mesma cena do filme, começo a achar que é uma mensagem para mim, atirada ao mar por outra parte de mim que me quer bem ferido e cru por dentro. O filme é "A Lista de Schindler", e a cena é a do massacre dos judeus no gueto de Varsóvia, aquela cena em que no meio das imensidões cruelmente cinzentas do filme se vê uma pequena menina perdida, com um casaco vermelho, um capuchinho perdido no meio dos lobos, uma pincelada de cor, de vida, no meio da morte que a rodeia.
Lembro-me de quando vi o filme no cinema, a revolta volta, é revolta pura o que sinto, não por motivos religiosos, não acredito nem no Bem nem em nenhuma religião em especial, há muito que perdi a pouca fé que ainda se me agarrava aos ossos. Nem se quer é a morte, essa não me afecta nem um pouco, conheço-a bem, chamo-a por vários nomes, nomes de amigos, nomes de família, nomes que não os meus sonhos não me deixam esquecer.
Para dizer a verdade, é a criança, a menina de vermelho.
Algo em mim se parte quando vejo aquela criança ali, aquela criança que sei que morrerá, morrerá como tantas, mas é aquela que dá corpo aos meus medos, que dá nome aos meus desgostos.
Todos os músculos do meu corpo querem agarrá-la, levá-la dali, protegê-la desta morte que a rodeia, a esta menina que não existiu nunca realmente, mas que existe para mim, que existe para os meus olhos. E as lágrimas caem dos meus olhos porque estou sentado, num confortável sofá, mais de cinquenta anos depois, a ver uma menina que nunca existiu caminhar inocentemente para a morte.
E, apesar disso, quero salvá-la. Quero mesmo. E o meu desgosto é não conseguir, não conseguir que aquela criança se salve, que nenhuma delas se salve, simplesmente porque ela é, como tantas outras, uma pincelada de cor de sangue vivo no nosso mundo de purgatórios cinzentos e mortos.
E nunca os conseguimos salvar.
Que vontade de matar quem a mata, de esmagar quem vai esbater o seu sorriso, por motivos que nem eu nem ela percebemos bem.
E mesmo assim não a consigo salvar.
Nem mesmo dentro de mim.
terça-feira, maio 02, 2006
Renascer
Três horas de dor pura, não adulterada, tinham já passado. Não que fosse uma dor especialmente forte, tinha já passado por dores bem piores, daquelas dores que nos fazem querer enrolar no chão e chorar, que nos fazem querer arrancar a pele dos braços com os dentes.
Até esta dor não era desconhecida, já tinha passado por mim antes, as sucessivas picadas do tinteiro na pele nua, rasgando e criando ao mesmo tudo, deve ser esta a dor da criação, a pele abandona o seu estado natural e funde-se com a tinta, cria um conceito, cria um novo ser através da dor.
Mas nunca durante três longas horas. Tento nem pensar nisso, tento que a minha mente voe daqui e me faça esquecer que estou imóvel à três longas eternidades.Até esta dor não era desconhecida, já tinha passado por mim antes, as sucessivas picadas do tinteiro na pele nua, rasgando e criando ao mesmo tudo, deve ser esta a dor da criação, a pele abandona o seu estado natural e funde-se com a tinta, cria um conceito, cria um novo ser através da dor.
Falho redondamente, cada risco do tinteiro puxa-me violentamente de volta para a realidade, cada músculo das minhas pernas clama vingança, a pele massacrada do meu braço vai cair a qualquer momento.
Torna-se uma luta contra o meu corpo, fico reduzido ao mínimo que sou, é só a minha vontade que me impede de cair na súbita escuridão, só ela me impede de desistir. Quando aqui entrei ela, a minha vontade, já estava no seu limite, gasta por cinco anos de purgatório, batida e de lágrimas nos olhos por um ano de inferno. Não sei sequer como ela me aguenta de pé quando finalmente acaba.
Quando saio é já noite, um vento frio faz-me tremer tudo menos o braço, esse está dormente, a Fénix renascida dorme já encostada a mim, sou já outro e ninguém vê, ninguém se apercebe da mudança.
Caminho devagar pelas ruas mal iluminadas, passam por várias sombras que evitam ser vistas, mas não me importo nada, estou finalmente vazio, finalmente limpo, três horas de dor limparam todas as outras dores, apagaram todo o mundo passado para sempre, estou limpo e leve e livre, sou eu a negra Fénix que voa anichada no meu braço.
E atrás de mim, só as cinzas restam.
Só as cinzas.
sexta-feira, abril 21, 2006
Soneto para Fernanda
Pequena pérola de luz
num cofre de conchinhas,
guardado no mar
que guardas na alma.
Alegre lágrima perdida
a rolar pelo sorriso solto,
naufraga dos teus olhos
castanhos da côr da terra.
Mil olhares para o céu,
mil passos na margem,
das páginas que escreves.
Promessa de flor humana,
agarrada a ti como as margaridas
que trazes a beijar-te o cabelo.
num cofre de conchinhas,
guardado no mar
que guardas na alma.
Alegre lágrima perdida
a rolar pelo sorriso solto,
naufraga dos teus olhos
castanhos da côr da terra.
Mil olhares para o céu,
mil passos na margem,
das páginas que escreves.
Promessa de flor humana,
agarrada a ti como as margaridas
que trazes a beijar-te o cabelo.
quarta-feira, abril 12, 2006
Às vezes...
Às vezes...
Às vezes penso que só existes na ponta dos meus dedos, quando desenho o teu corpo por cima da roupa com que o tapas, que só existes naquele espaço que escavaste para ti no meu ombro esquerdo, aquele espaço onde os teus sonhos nascem e terminam.
Às vezes penso que só existes na ponta dos meus dedos, quando desenho o teu corpo por cima da roupa com que o tapas, que só existes naquele espaço que escavaste para ti no meu ombro esquerdo, aquele espaço onde os teus sonhos nascem e terminam.
Às vezes bebo a minha força dos teus lábios, como se tudo aquilo que preciso para viver nascesse na tua voz cantada em notas roubadas, como se os teus lábios finos fossem os pilares que sustêm o meu mundo, o meu firmamento, tudo o que conheço.
Às vezes acordo nos teus braços e tenho medo de me mexer, medo até de respirar, medo que um só sopro afaste a névoa de calor e chuva que o teu corpo encostado ao meu provoca nos meus olhos, que aquele peso subtil do teu corpo no meu desapareça.
Às vezes, fico acordado a ver o sol nascer pela janela do teu quarto e encher os teus caracóis de dourado, banhar os teus ombros nus de mel luminoso, enquanto te olho adormecida e espero que acordes com os olhos cheios da luz matinal.
Às vezes tento desenhar palavras em páginas amarrotadas, juntar em quadros escritos os pedaços mal cortados deste mundo que construí para ti, que construí na esperança de um dia ser só nosso, só meu e teu.
Às vezes, até acho que consigo viver sem ti, respirar sem ti, voltar a olhar o céu como o olhava antes de teres dado novo nome às estrelas, acordar como acordava quando estava só, fazer o pequeno-almoço só para mim, viver só para o meu corpo.
Às vezes...
Às vezes tento desenhar palavras em páginas amarrotadas, juntar em quadros escritos os pedaços mal cortados deste mundo que construí para ti, que construí na esperança de um dia ser só nosso, só meu e teu.
Às vezes, até acho que consigo viver sem ti, respirar sem ti, voltar a olhar o céu como o olhava antes de teres dado novo nome às estrelas, acordar como acordava quando estava só, fazer o pequeno-almoço só para mim, viver só para o meu corpo.
Às vezes...
terça-feira, abril 11, 2006
volto amanhã
os meus pensamentos voam soltos
como dragões na névoa irreal do quarto
fazem uma escadaria para onde a lua brilha
e os teus olhos nunca choram
nem mesmo quando eu os faço chorar
faço festas nas ondas douradas do teu cabelo
enquanto espero que acordes para me despedir
não chores mais meu amor eu volto amanhã
para onde os teus lábios me tentam agarrar
agora não me abraçes amor senão não consigo voar
terça-feira, abril 04, 2006
Estátua de Sal
Debaixo desta torrente de líquido quente que me escorre pelo cabelo para a cara, para as costas, para o resto do corpo, tento apagar o cheiro de ti, substituir o calor de ti pelo calor da água que o chuveiro vomita violentamente.
Viro a cara para cima, talvez olhando este mar fervente consiga apagar os teus olhos dos meus, mesmo assim, talvez mesmo com eles fechados, te consiga apagar, a água entra-me morna pelos lábios, recorda-me a tua língua, também a água dança na minha boca...
Entras neste mundo de vapor como uma avalanche morena, o teu cabelo apanhado no topo da cabeça, pareces uma medusa pronta a consumir o mundo, a transformá-lo em pedra, a mim transformas-me numa estátua de sal, sal que se tenta desfazer debaixo desta cascata antes que me desfaças tu com os teus lábios.
Agarras-me pelas costas, as formas do teu corpo frio coladas a mim como uma sereia a uma rocha fria da praia, cruzas as mãos no meu peito e cantas baixinho, encostas a cara ao meu coração, ouves o que sinto através das minhas costas, escondida da água e do mundo pelos meus ombros, a canção que me teces pergunta-me se há espaço para ti.
Meu amor, para mim não existem espaços sem ti.
Viro a cara para cima, talvez olhando este mar fervente consiga apagar os teus olhos dos meus, mesmo assim, talvez mesmo com eles fechados, te consiga apagar, a água entra-me morna pelos lábios, recorda-me a tua língua, também a água dança na minha boca...
Entras neste mundo de vapor como uma avalanche morena, o teu cabelo apanhado no topo da cabeça, pareces uma medusa pronta a consumir o mundo, a transformá-lo em pedra, a mim transformas-me numa estátua de sal, sal que se tenta desfazer debaixo desta cascata antes que me desfaças tu com os teus lábios.
Agarras-me pelas costas, as formas do teu corpo frio coladas a mim como uma sereia a uma rocha fria da praia, cruzas as mãos no meu peito e cantas baixinho, encostas a cara ao meu coração, ouves o que sinto através das minhas costas, escondida da água e do mundo pelos meus ombros, a canção que me teces pergunta-me se há espaço para ti.
Meu amor, para mim não existem espaços sem ti.
quinta-feira, março 30, 2006
Tarde na casa de chá
Está sol e chove.
Ambas as naturezas que sou, misturadas numa só substância, num só caminho descendente dos céus. O mundo sorri, sorri ao sol que o abraça, e à chuva que o beija, ou se calhar sou só eu que assim o vejo, só eu que assim o percebo.
Deve ser de estarmos os dois aqui, a trocar momentos.
A casa de chá está vazia, à nossa volta apenas cadeiras solitárias esperando ansiosamente quem as ocupe, e o vapor que sobe das taças de chá envolve-nos os sentidos, fotografa para nós os raios de sol filtrados pela chuva, esses raios que nem os vidros param, que nos aquecem, como o chá.
O teu cabelo está molhado, o teu sorriso também, mas a tua voz canta, será este o som da alegria, será esta a voz que se ouve quando se está assim, em paz?
Não sei.
Só sei que o tempo está parado, aqui, neste momento luminoso, enquanto o vapor adocicado do chá sustém carinhosamente as nossas palavras e o leve cheiro a doce de amoras se mistura com as palavras que me cantas.
Uma tarde a ouvir-te cantar palavras, separados por um mar de madeira navegado por um bule de chá, onde agora já só algumas migalhas relembram os bolos que fizemos naufragar.
Vivo, estou vivo outra vez.
Ambas as naturezas que sou, misturadas numa só substância, num só caminho descendente dos céus. O mundo sorri, sorri ao sol que o abraça, e à chuva que o beija, ou se calhar sou só eu que assim o vejo, só eu que assim o percebo.
Deve ser de estarmos os dois aqui, a trocar momentos.
A casa de chá está vazia, à nossa volta apenas cadeiras solitárias esperando ansiosamente quem as ocupe, e o vapor que sobe das taças de chá envolve-nos os sentidos, fotografa para nós os raios de sol filtrados pela chuva, esses raios que nem os vidros param, que nos aquecem, como o chá.
O teu cabelo está molhado, o teu sorriso também, mas a tua voz canta, será este o som da alegria, será esta a voz que se ouve quando se está assim, em paz?
Não sei.
Só sei que o tempo está parado, aqui, neste momento luminoso, enquanto o vapor adocicado do chá sustém carinhosamente as nossas palavras e o leve cheiro a doce de amoras se mistura com as palavras que me cantas.
Uma tarde a ouvir-te cantar palavras, separados por um mar de madeira navegado por um bule de chá, onde agora já só algumas migalhas relembram os bolos que fizemos naufragar.
Vivo, estou vivo outra vez.
sexta-feira, março 24, 2006
Pintura de mim
destruíste-me
todas as máscaras
todos os muros que fiz
agarraste-me o braço nu
acariciaste a minha pele
e cantaste baixinho
só para mim
todas as máscaras
todos os muros que fiz
agarraste-me o braço nu
acariciaste a minha pele
e cantaste baixinho
só para mim
existes mas não és tu
és esta imagem pintada
és tu como ninguém vê
mas não, nunca és tu
beijei-te para te calar
mas ainda disseste
o que está aqui não és tu
é só uma pintura
uma pintura de ti
és esta imagem pintada
és tu como ninguém vê
mas não, nunca és tu
beijei-te para te calar
mas ainda disseste
o que está aqui não és tu
é só uma pintura
uma pintura de ti
segunda-feira, março 20, 2006
trovoada
O céu é um borrão de tinta negra, um cobertor abafado que se arrasta lentamente sobre a cidade, sobre o peito das pessoas, tapa até a luz, até mesmo a luz se altera.
A trovoada arrasta-se preguiçosa, ela não tem pressa, altera o mundo à sua passagem, todos se escondem, todos parecem querer fugir-lhe, a cidade a meus pés esvazia-se lentamente.
É aquele medo gravado bem fundo nas nossas recordações, aquele medo muito humano que temos de tudo o que não controlamos, aquele medo que temos também das tempestades no mar e dos fogos na floresta. Um medo fundo, genético, comum.
Pois eu adoro esse medo, talvez tanto quanto adoro a trovoada.
Neste terceiro direito anónimo, apenas mais uma varanda escondida à vista de todos, tenho a vista desimpedida sobre a cidade, vejo-a fugir, esconder-se, e em alguns minutos as ruas estão vazias, cada num está em sua casa, protegido da promessa de chuva, escondido do medo.
Apenas eu oiço este silêncio, este vento sufocante, frio e abafado, que lambe a cidade antes do primeiro raio.
Mas antes o trovão. Sempre o trovão antes.
Ao ouvir o primeiro trovão o meu coração salta, todos saltam, porque não o meu também, mas o meu não salta só de medo, salta porque quer sair, ver os rasgões de branco eléctrico que rasgam o negro cobertor celeste.
A minha alma rasga-me desesperada o interior, também ela quer sair, mas a ela não posso deixar sair, se ela sai já não volta. Junta-se a este infinito chão de nuvens negras, vai-se derramar pela cidade, com a chuva que já promete cair a qualquer momento.
Olho o céu como uma criança, a minha prenda, a minha prenda está aqui, derrama medo, escuridão, lava a cidade, esvazia-a só para eu a olhar, só para eu a tempestade ficarmos os dois, sozinhos, apaixonados nesta varanda.
Estou feliz. Verdadeiramente feliz.
A trovoada arrasta-se preguiçosa, ela não tem pressa, altera o mundo à sua passagem, todos se escondem, todos parecem querer fugir-lhe, a cidade a meus pés esvazia-se lentamente.
É aquele medo gravado bem fundo nas nossas recordações, aquele medo muito humano que temos de tudo o que não controlamos, aquele medo que temos também das tempestades no mar e dos fogos na floresta. Um medo fundo, genético, comum.
Pois eu adoro esse medo, talvez tanto quanto adoro a trovoada.
Neste terceiro direito anónimo, apenas mais uma varanda escondida à vista de todos, tenho a vista desimpedida sobre a cidade, vejo-a fugir, esconder-se, e em alguns minutos as ruas estão vazias, cada num está em sua casa, protegido da promessa de chuva, escondido do medo.
Apenas eu oiço este silêncio, este vento sufocante, frio e abafado, que lambe a cidade antes do primeiro raio.
Mas antes o trovão. Sempre o trovão antes.
Ao ouvir o primeiro trovão o meu coração salta, todos saltam, porque não o meu também, mas o meu não salta só de medo, salta porque quer sair, ver os rasgões de branco eléctrico que rasgam o negro cobertor celeste.
A minha alma rasga-me desesperada o interior, também ela quer sair, mas a ela não posso deixar sair, se ela sai já não volta. Junta-se a este infinito chão de nuvens negras, vai-se derramar pela cidade, com a chuva que já promete cair a qualquer momento.
Olho o céu como uma criança, a minha prenda, a minha prenda está aqui, derrama medo, escuridão, lava a cidade, esvazia-a só para eu a olhar, só para eu a tempestade ficarmos os dois, sozinhos, apaixonados nesta varanda.
Estou feliz. Verdadeiramente feliz.
terça-feira, março 14, 2006
Momento
Arrasto-me lentamente até à cama, a toalha branca envolve-me pela cintura, corte branco numa tela morena. A dor está lá, viva, a morder-me o joelho, a agarrar-me e a arrastar-me para a cama.
Deixo-me cair, fico a respirar pesadamente, como se o ar que saí de mim às golfadas conseguisse arrancar a dor para fora, como se me fosse obrigar a vomitá-la, o corpo molhado espalmado contra os lençóis, como se se tivessem esquecido de me erguer crucificado.
Tento concentrar-me na névoa açucarada de incenso e laranjas que se derrama pelo quarto, que se espalha das velas do teu tocador, o espelho a reflectir a vida das pequenas chamas pela luz cancerosa da tarde quente, vens sentar-te ao meu lado e o cheiro a fresco do teu cabelo acompanha as gotas mornas que me deixas cair nas costas.
A dor começa a subir-me pela perna como uma serpente escamosa e gelada, mesmo na tarde quente sinto a perna a gelar. As gotas que escorrem do meu cabelo passeiam-se pela minha cara, convidam as gotas mal presas aos meus olhos para as acompanharem.
Tocas-me nas costas e obrigas-me a virar, sem fazeres força, sem dizeres nada, obrigas-me a virar para ver os teus olhos, para me matar neles.
Deixas a minha cabeça fazer ninho no teu colo, será a rádio que me canta ou será que apenas acompanha a canção que escorre lentamente dos teus lábios, da tua boca, já não sei, apenas oiço a canção da dor, e a tua, qual delas a mais pura.
A tua mão direita tapa-me os olhos, penteia-me os cabelos, os teus dedos estão nos meus lábios, fizeram lá morada, tentam puxar a dor de dentro de mim.
A outra mão percorre o meu tronco, não me toca realmente, apenas desenhas as minhas cicatrizes com a promessa do teu toque, deixas-me quase adivinhar que me tocas, é como se estivesses a fazer um rascunho para guardar na memória.
Cantas baixinho, quase adivinho o teu sorriso através dos meus olhos fechados.
E assim adormeço, lavado do mundo, a doer-me no teu colo, crucificado nos teus dedos, onde a dor existe mas não importa, nem mesmo um pouco, nem mesmo nada.
Deixo-me cair, fico a respirar pesadamente, como se o ar que saí de mim às golfadas conseguisse arrancar a dor para fora, como se me fosse obrigar a vomitá-la, o corpo molhado espalmado contra os lençóis, como se se tivessem esquecido de me erguer crucificado.
Tento concentrar-me na névoa açucarada de incenso e laranjas que se derrama pelo quarto, que se espalha das velas do teu tocador, o espelho a reflectir a vida das pequenas chamas pela luz cancerosa da tarde quente, vens sentar-te ao meu lado e o cheiro a fresco do teu cabelo acompanha as gotas mornas que me deixas cair nas costas.
A dor começa a subir-me pela perna como uma serpente escamosa e gelada, mesmo na tarde quente sinto a perna a gelar. As gotas que escorrem do meu cabelo passeiam-se pela minha cara, convidam as gotas mal presas aos meus olhos para as acompanharem.
Tocas-me nas costas e obrigas-me a virar, sem fazeres força, sem dizeres nada, obrigas-me a virar para ver os teus olhos, para me matar neles.
Deixas a minha cabeça fazer ninho no teu colo, será a rádio que me canta ou será que apenas acompanha a canção que escorre lentamente dos teus lábios, da tua boca, já não sei, apenas oiço a canção da dor, e a tua, qual delas a mais pura.
A tua mão direita tapa-me os olhos, penteia-me os cabelos, os teus dedos estão nos meus lábios, fizeram lá morada, tentam puxar a dor de dentro de mim.
A outra mão percorre o meu tronco, não me toca realmente, apenas desenhas as minhas cicatrizes com a promessa do teu toque, deixas-me quase adivinhar que me tocas, é como se estivesses a fazer um rascunho para guardar na memória.
Cantas baixinho, quase adivinho o teu sorriso através dos meus olhos fechados.
E assim adormeço, lavado do mundo, a doer-me no teu colo, crucificado nos teus dedos, onde a dor existe mas não importa, nem mesmo um pouco, nem mesmo nada.
quinta-feira, março 09, 2006
entre nós
Entre nós não existem palavras,
existem apenas pequenos passeios
que as nossas mãos fazem pelo corpo.
Corpo só temos um, nem teu nem meu.
Nosso, como esta noite, como este suor,
como o amanhã que desponta já nos teus olhos.
Estremecemos juntos, formamos aqui
as ondas de um mar só nosso, apagamos
este espaço vazio que se forma entre nós.
E com gesto conhecidos pintamos mundos,
criamos estrelas, destruimos universos,
e segredamos os passos da nossa viagem
um ao outro, para que nada caminhe entre nós.
existem apenas pequenos passeios
que as nossas mãos fazem pelo corpo.
Corpo só temos um, nem teu nem meu.
Nosso, como esta noite, como este suor,
como o amanhã que desponta já nos teus olhos.
Estremecemos juntos, formamos aqui
as ondas de um mar só nosso, apagamos
este espaço vazio que se forma entre nós.
E com gesto conhecidos pintamos mundos,
criamos estrelas, destruimos universos,
e segredamos os passos da nossa viagem
um ao outro, para que nada caminhe entre nós.
terça-feira, fevereiro 28, 2006
minh'alma
É ainda de noite quando me levanto, o corpo ainda me pesa no fôfo conforto dos lençóis e da casa aquecida, mas é preciso acordar, é preciso vestir, enfrentar o mundo gelado, pintado de negro, que me quer lá fora tanto quanto eu quero sair.
Lá fora oiço o céu chorar, lavar o mundo com as suas lágrimas, muito deve sofrer o céu, muitas devem ser as saudades que as nuvens têm, para tanto chorarem enquanto correm no seu caminho. Visto-me depressa, tento agarrar ao corpo o calor da cama, o vapor dos sonhos, que nos aquecem as noites.
Sou o último a entrar na cozinha, todos estão de pé, pratos na mão, comem sossegadamente no escuro, o copo de vinho ao alcance da mão, nenhuma palavra corta a madrugada, nenhuma ideia senão aproveitar o calor da comida na escuridão que nos abraça, a pequena figura da minha avó dança, enchendo pratos, cortando carnes, lavando já as coisas, move-se rapidamente entre os homens grandes, de pé na cozinha, uma fagulha de calor e vida no meio de pilares de carne que comem devagar, não vá a comida fugir.
O meu trabalho é simples, sei-o de cor, faço-o de olhos fechados. É o trabalho de quem não tem arte, de quem não vive da terra. Reconhecem-me o mérito, trabalhas muito rapaz, és grande, és forte, mas não tens arte. Ganhas respeito, mas não ganhas palavras, não tens arte nem rugas para isso, não és um dos antigos, é a lei eterna do campo.
Submeto-me à lei, o silêncio é total, nem no carro se fala, só na paragem na tasca, um copo de bagaço para aquecer o dia, trocar novidades conhecidas com quem se viu ainda ontem. Ai sim, ai sou importante, é importante mostrar o novo, o neto, o sobrinho, apresentar o doutor.
É grande e largo de ombros, não parece um doutor. Mas é, é doutor de letras, responde um sorriso, ao sorriso responde o espanto, homens das letras são de outro mundo, têm outra sabedoria, trocaram as mãos duras pelos olhos cansados, as penas dos corpo pelas da mente. Um homem dos dois lados, tem duas dores, será um dos seus que conhece os segredos dos outros, ou um espião? À noite se verá, vamos ver se se aguenta.
Com uma tira de meia luz, já uma promessa de sol aparece no horizonte, atiro o meu corpo ao trabalho, já levo uma hora de carga quando a luz do sol me invade os olhos e me apresenta ao dia. Mas não paro, mesmo sozinho, única voz no raio de quilómetros, só paro o trabalho acabado, a meio da manhã, e começo a andar pela lama para o local de encontro, ladeado de verde e de vida. Os animais seguem-me alguns momentos, mas depois desistem, os sinais que esperam não saem, caminho leva para longe da sua comida, é melhor ficar.
Ao subir o primeiro monte reparo finalmente que é já dia, o céu de chumbo parou de derramar tesouros sobre nós e agora parte, deixa-me aproveitar o sol, secar a roupa no corpo, aquecer-me os braços e ombros doridos.
O dia segue lentamente, o ritmo da planície marca homens e animais, aqui o tempo não passa, escorre lentamente pela paisagem, como mel, parece que escorre do próprio sol, espalha esplendor pela planície de pão e azeite.
Voltar a casa, o dia acabado, o sol já se põe, aqui não se trabalha sem sol, tomar um banho para lavar as dores, mudar de roupa, comer sentado pela primeira vez durante o dia, até o corpo estranha, primeiras conversas do dia, com quem todo o dia falou, parece que estamos noutro mundo, um mundo de barulho, parece que vimos da morte.
Sento-me na cama, dói-me o corpo todo, atiro-me ao sono sedento de descanso, sedento de paz, não mais um corpo, sou apenas um monte de cordas que alguém arrumou nesta cama.
Antes de dormir, lembro-me do sol a entrar nos meus olhos e fico com a certeza, aquela fé inabalável que nasce devagar, sem dar-mos por isso, que não pertenço a este mundo. Os antigos têm razão, das rugas nasce a sabedoria, um homem das letras sou, preso noutras lidas estou.
Mas esta é a minha terra, nunca tive tanta certeza, não é na minha língua que moro, nem nas palavras.
É na solidão da planície, num dia de trabalho chuvoso, que a minha alma reside.
Esta é a minha morada, a planície dos silêncios, sem casas, nem sons, nem palavras, sem um único pensamento fugidio de vãs demandas.
Apenas o chão, o céu, e a minh'alma.
Lá fora oiço o céu chorar, lavar o mundo com as suas lágrimas, muito deve sofrer o céu, muitas devem ser as saudades que as nuvens têm, para tanto chorarem enquanto correm no seu caminho. Visto-me depressa, tento agarrar ao corpo o calor da cama, o vapor dos sonhos, que nos aquecem as noites.
Sou o último a entrar na cozinha, todos estão de pé, pratos na mão, comem sossegadamente no escuro, o copo de vinho ao alcance da mão, nenhuma palavra corta a madrugada, nenhuma ideia senão aproveitar o calor da comida na escuridão que nos abraça, a pequena figura da minha avó dança, enchendo pratos, cortando carnes, lavando já as coisas, move-se rapidamente entre os homens grandes, de pé na cozinha, uma fagulha de calor e vida no meio de pilares de carne que comem devagar, não vá a comida fugir.
O meu trabalho é simples, sei-o de cor, faço-o de olhos fechados. É o trabalho de quem não tem arte, de quem não vive da terra. Reconhecem-me o mérito, trabalhas muito rapaz, és grande, és forte, mas não tens arte. Ganhas respeito, mas não ganhas palavras, não tens arte nem rugas para isso, não és um dos antigos, é a lei eterna do campo.
Submeto-me à lei, o silêncio é total, nem no carro se fala, só na paragem na tasca, um copo de bagaço para aquecer o dia, trocar novidades conhecidas com quem se viu ainda ontem. Ai sim, ai sou importante, é importante mostrar o novo, o neto, o sobrinho, apresentar o doutor.
É grande e largo de ombros, não parece um doutor. Mas é, é doutor de letras, responde um sorriso, ao sorriso responde o espanto, homens das letras são de outro mundo, têm outra sabedoria, trocaram as mãos duras pelos olhos cansados, as penas dos corpo pelas da mente. Um homem dos dois lados, tem duas dores, será um dos seus que conhece os segredos dos outros, ou um espião? À noite se verá, vamos ver se se aguenta.
Com uma tira de meia luz, já uma promessa de sol aparece no horizonte, atiro o meu corpo ao trabalho, já levo uma hora de carga quando a luz do sol me invade os olhos e me apresenta ao dia. Mas não paro, mesmo sozinho, única voz no raio de quilómetros, só paro o trabalho acabado, a meio da manhã, e começo a andar pela lama para o local de encontro, ladeado de verde e de vida. Os animais seguem-me alguns momentos, mas depois desistem, os sinais que esperam não saem, caminho leva para longe da sua comida, é melhor ficar.
Ao subir o primeiro monte reparo finalmente que é já dia, o céu de chumbo parou de derramar tesouros sobre nós e agora parte, deixa-me aproveitar o sol, secar a roupa no corpo, aquecer-me os braços e ombros doridos.
O dia segue lentamente, o ritmo da planície marca homens e animais, aqui o tempo não passa, escorre lentamente pela paisagem, como mel, parece que escorre do próprio sol, espalha esplendor pela planície de pão e azeite.
Voltar a casa, o dia acabado, o sol já se põe, aqui não se trabalha sem sol, tomar um banho para lavar as dores, mudar de roupa, comer sentado pela primeira vez durante o dia, até o corpo estranha, primeiras conversas do dia, com quem todo o dia falou, parece que estamos noutro mundo, um mundo de barulho, parece que vimos da morte.
Sento-me na cama, dói-me o corpo todo, atiro-me ao sono sedento de descanso, sedento de paz, não mais um corpo, sou apenas um monte de cordas que alguém arrumou nesta cama.
Antes de dormir, lembro-me do sol a entrar nos meus olhos e fico com a certeza, aquela fé inabalável que nasce devagar, sem dar-mos por isso, que não pertenço a este mundo. Os antigos têm razão, das rugas nasce a sabedoria, um homem das letras sou, preso noutras lidas estou.
Mas esta é a minha terra, nunca tive tanta certeza, não é na minha língua que moro, nem nas palavras.
É na solidão da planície, num dia de trabalho chuvoso, que a minha alma reside.
Esta é a minha morada, a planície dos silêncios, sem casas, nem sons, nem palavras, sem um único pensamento fugidio de vãs demandas.
Apenas o chão, o céu, e a minh'alma.
segunda-feira, fevereiro 20, 2006
A cama
Todos os os dias.
Eram todos nossos, era a nossa vida, não vivia sem ti.
Eramos um só ser, até quando estávamos separados, juntava-nos aquela sede do corpo, aquele querer ser um só outra vez.
Agora, passado tanto tempo, estás outra vez na minha cama.
O cenário mudou, até a própria cama não é a mesma, nem nós, mas os velhos gestos voltaram rápidos, como se só o dia nos separasse, como se tivessemos voltado agora a casa e despertado nos braços um do outro.
Enquanto escrevo sinto ainda o teu perfume, não o aquele artificial que apaguei com beijos do teu pescoço, mas sim aquela leve recordação do cheiro a maçâs que o champô deixou no teu cabelo, e aquele sentir quente que o peso subtil do teu corpo marcou no meu.
Olho a cama de relance, dormes sorridente, anichada no meio, a cama deve estar tão quente como a noite está fria.
E a noite está fria, começo a aperceber-me, ela lava-me do teu calor, da tua presença, acorda-me deste sonho.
Se aomenos não fosse a minha casa, podia ir-me embora enquanto dormias, deixar-te aí quente, irreal, uma noite de regresso ao futuro que um dia tivemos, que um dia sonhámos, nada mais, nada menos.
Tenho vontade de meter as minhas mãos nos teus olhos castanhos para limpar todo o lodo que te afoga a alma, encontrar um resto do que foste, talvez encontrar-me ai também, afogado, perdido ainda nos teus olhos.
Ilusões.
Vais acordar e nem me vais olhar. Vais dizer que tudo foi um erro, vais deitar umas lágrimas meio sentidas, meio por que sim, vais-te vestir e vais voltar à tua vida, vais sair outra vez da minha, pensando talvez que outro dia voltes.
A noite está mesmo fria, volto para a cama, estremeces e abraças-me quando entro de novo nos lençois, o sorriso está mesmo lá, precisavas de o encontrar, foi essa a razão de tudo isto.
Tinhas-te perdido, a mulher que realmente és, e precisavas voltar para um sítio seguro, um sítio feliz, que o teu sorriso conhecesse bem. A nossa cama.
Mas esta não é a nossa cama, é minha.
Não moras aqui, nesta cama, espero sinceramente que nunca mais percas o teu sorriso, que nunca mais te percas, esta cama é minha e este coração é meu, e foi a última noite em que os ocupaste.
Como eu desejei, até à pouco tempo, ter-te de novo aqui. Mas a nossa cama foi e veio, o nosso futuro nunca vai acontecer, até podiamos querer, mas saberiamos sempre que era mentira.
Por isso agora vou dormir, bem agarradinho a ti, e acordar feliz.
Porque já me despedi.
Eram todos nossos, era a nossa vida, não vivia sem ti.
Eramos um só ser, até quando estávamos separados, juntava-nos aquela sede do corpo, aquele querer ser um só outra vez.
Agora, passado tanto tempo, estás outra vez na minha cama.
O cenário mudou, até a própria cama não é a mesma, nem nós, mas os velhos gestos voltaram rápidos, como se só o dia nos separasse, como se tivessemos voltado agora a casa e despertado nos braços um do outro.
Enquanto escrevo sinto ainda o teu perfume, não o aquele artificial que apaguei com beijos do teu pescoço, mas sim aquela leve recordação do cheiro a maçâs que o champô deixou no teu cabelo, e aquele sentir quente que o peso subtil do teu corpo marcou no meu.
Olho a cama de relance, dormes sorridente, anichada no meio, a cama deve estar tão quente como a noite está fria.
E a noite está fria, começo a aperceber-me, ela lava-me do teu calor, da tua presença, acorda-me deste sonho.
Se aomenos não fosse a minha casa, podia ir-me embora enquanto dormias, deixar-te aí quente, irreal, uma noite de regresso ao futuro que um dia tivemos, que um dia sonhámos, nada mais, nada menos.
Tenho vontade de meter as minhas mãos nos teus olhos castanhos para limpar todo o lodo que te afoga a alma, encontrar um resto do que foste, talvez encontrar-me ai também, afogado, perdido ainda nos teus olhos.
Ilusões.
Vais acordar e nem me vais olhar. Vais dizer que tudo foi um erro, vais deitar umas lágrimas meio sentidas, meio por que sim, vais-te vestir e vais voltar à tua vida, vais sair outra vez da minha, pensando talvez que outro dia voltes.
A noite está mesmo fria, volto para a cama, estremeces e abraças-me quando entro de novo nos lençois, o sorriso está mesmo lá, precisavas de o encontrar, foi essa a razão de tudo isto.
Tinhas-te perdido, a mulher que realmente és, e precisavas voltar para um sítio seguro, um sítio feliz, que o teu sorriso conhecesse bem. A nossa cama.
Mas esta não é a nossa cama, é minha.
Não moras aqui, nesta cama, espero sinceramente que nunca mais percas o teu sorriso, que nunca mais te percas, esta cama é minha e este coração é meu, e foi a última noite em que os ocupaste.
Como eu desejei, até à pouco tempo, ter-te de novo aqui. Mas a nossa cama foi e veio, o nosso futuro nunca vai acontecer, até podiamos querer, mas saberiamos sempre que era mentira.
Por isso agora vou dormir, bem agarradinho a ti, e acordar feliz.
Porque já me despedi.
terça-feira, fevereiro 14, 2006
S. Valentim
Fui um abraço quando precisaste,
fui um corpo onde te afogaste,
fui um coração a bater compassado
com o teu sonho magoado.
Envolvi-te nos meus abraços
e nem o mundo, nem a luz,
nem as recordações do céu
passaram pelos teus olhos.
Fui o teu mundo quando pediste,
fui o chão dos teus passos,
parti o meu trono e a minha coroa
para te fazer sorrir de novo.
Mas nunca vou ser para ti
a salvação colorida e doce
que a tua voz é para mim
todos os dias deste mundo.
fui um corpo onde te afogaste,
fui um coração a bater compassado
com o teu sonho magoado.
Envolvi-te nos meus abraços
e nem o mundo, nem a luz,
nem as recordações do céu
passaram pelos teus olhos.
Fui o teu mundo quando pediste,
fui o chão dos teus passos,
parti o meu trono e a minha coroa
para te fazer sorrir de novo.
Mas nunca vou ser para ti
a salvação colorida e doce
que a tua voz é para mim
todos os dias deste mundo.
sexta-feira, fevereiro 03, 2006
Êxtase
O meu coração dispara quando a tua mão toca no meu peito e aperta.
Não é paixão, nem amor, apenas o querer provar os teus lábios, o teu corpo.
O desejo é animal, já não sou humano, sou apenas vontade, sou apenas querer.
Mordes-me o ombro, agarras-me os pulsos, voas nos meus braços, somos apenas vapor,
somos apenas calor.
Sigo as tuas linhas com a ponta dos meus dedos, escrevo na minha memória
a forma do teu corpo.
São dos corpos celestes que voam, são dois sóis, são dois cometas errantes que chocam
e se despedaçam um no outro.
Não há magia, não há amor, apenar sede, apenas vontade, apenas agora.
E finalmente o momento acaba, finalmente respiro de novo.
Respiro finalmente, apenas te respiro a ti, apenas respiro o teu perfume, o teu suor, o teu calor.
Tenho de voltar a casa, sair daqui, sentir o frio da noite na cara.
Mas a tua mão viaja no meu corpo, perdida de novo, de novo no meu coração.
E tudo recomeça.
Não é paixão, nem amor, apenas o querer provar os teus lábios, o teu corpo.
O desejo é animal, já não sou humano, sou apenas vontade, sou apenas querer.
Mordes-me o ombro, agarras-me os pulsos, voas nos meus braços, somos apenas vapor,
somos apenas calor.
Sigo as tuas linhas com a ponta dos meus dedos, escrevo na minha memória
a forma do teu corpo.
São dos corpos celestes que voam, são dois sóis, são dois cometas errantes que chocam
e se despedaçam um no outro.
Não há magia, não há amor, apenar sede, apenas vontade, apenas agora.
E finalmente o momento acaba, finalmente respiro de novo.
Respiro finalmente, apenas te respiro a ti, apenas respiro o teu perfume, o teu suor, o teu calor.
Tenho de voltar a casa, sair daqui, sentir o frio da noite na cara.
Mas a tua mão viaja no meu corpo, perdida de novo, de novo no meu coração.
E tudo recomeça.
segunda-feira, janeiro 30, 2006
Se tu não tivesses olhado para mim
Hoje, enquanto a neve caía, pensei para mim que este era um momento único, daqueles momentos que ficam gravados na memória como momentos de felicidade pura, e que sobrevivem mesmo quando os pormenores se esbatem, mesmo quando apenas a recordação vaga como vapor permanece, e a noção do que se passou vagueia pelos recantos da nossa mente, para ser encontrada apenas quando sorrir é necessário.
E no meio da minha alegria, pensei em ti.
Mas não te preocupes, disfarcei bem, ninguém percebeu, ninguém viu o fantasma de ti passar pelos meus olhos, pela minha boca, beijar-me os pensamentos.
Já mais tarde, sentado a secar ao calor, os meus pensamentos perderam no fogo, o seu calor a fazê-los voar, a fazê-los viajar para onde eu não quero que eles vão, para os teus braços, para o teu calor.
Oxalá estivesses aqui, este dia podiamos tê-lo partilhado, como duas crianças que partilham uma concha do mar, sem dúvidas nem condições, apenas o momento, apenas a alegria.
Uma voz do fogo sussurrou-me então levemente, mais valia nem te ter conhecido.
Essa pequena chama instalou-se em mim, ardeu um pouco e morreu.
Morreu porque eu sei que, se tu não tivesses olhado para mim, tantas vezes com amor, e outras tantas, tantas vezes com lágrimas a taparem a luz dos teus olhos, eu não saberia.
Se tu não tivesses olhado para mim, naquela primeira manhã da nossa vida, eu não saberia abraçar, segurar um coração com um abraço terno e seguro, nem saberia pular para o infinito, sem corda. sem rede, sem medo, só amor e esperança. Não saberia o real valor da fé, aquela fé inabalável que vem depois de acordar nos teus braços.
Se não tivesses olhado para mim, e eu para ti, um banal cruzar de olhos para todos os outros, num café estupidamente cheio, será que eu seria eu?
Provavelmente.
Mas se não tivesses olhado para mim, naquela manhã quase tarde em que acordámos nos braços um do outro, eu não saberia amar, amar realmente, aquele amor sem condições, sem dúvida, sem esperança de salvação.
Aquele amor que sabemos existir sem precisar de palavras para o dizer, ou sequer pensar.
E é assim que me vou deitar, cheio de certezas e saudades, mas mais de dor que tudo mais, porque não vou acordar mais embalado no teu olhar, por mais que neve lá fora.
E no meio da minha alegria, pensei em ti.
Mas não te preocupes, disfarcei bem, ninguém percebeu, ninguém viu o fantasma de ti passar pelos meus olhos, pela minha boca, beijar-me os pensamentos.
Já mais tarde, sentado a secar ao calor, os meus pensamentos perderam no fogo, o seu calor a fazê-los voar, a fazê-los viajar para onde eu não quero que eles vão, para os teus braços, para o teu calor.
Oxalá estivesses aqui, este dia podiamos tê-lo partilhado, como duas crianças que partilham uma concha do mar, sem dúvidas nem condições, apenas o momento, apenas a alegria.
Uma voz do fogo sussurrou-me então levemente, mais valia nem te ter conhecido.
Essa pequena chama instalou-se em mim, ardeu um pouco e morreu.
Morreu porque eu sei que, se tu não tivesses olhado para mim, tantas vezes com amor, e outras tantas, tantas vezes com lágrimas a taparem a luz dos teus olhos, eu não saberia.
Se tu não tivesses olhado para mim, naquela primeira manhã da nossa vida, eu não saberia abraçar, segurar um coração com um abraço terno e seguro, nem saberia pular para o infinito, sem corda. sem rede, sem medo, só amor e esperança. Não saberia o real valor da fé, aquela fé inabalável que vem depois de acordar nos teus braços.
Se não tivesses olhado para mim, e eu para ti, um banal cruzar de olhos para todos os outros, num café estupidamente cheio, será que eu seria eu?
Provavelmente.
Mas se não tivesses olhado para mim, naquela manhã quase tarde em que acordámos nos braços um do outro, eu não saberia amar, amar realmente, aquele amor sem condições, sem dúvida, sem esperança de salvação.
Aquele amor que sabemos existir sem precisar de palavras para o dizer, ou sequer pensar.
E é assim que me vou deitar, cheio de certezas e saudades, mas mais de dor que tudo mais, porque não vou acordar mais embalado no teu olhar, por mais que neve lá fora.
quinta-feira, janeiro 19, 2006
gemido
não quero continuar
a pagar assim
desta forma
os passos em falso
por favor
deixa-me cair aqui
coração
deixa-me desistir
e ficar aqui
deitado
morrido
sem marcas
nem recordações
de outros
corações
não
por favor não
já não tenho lágrimas
só soluços
e memórias
nem mesmo vontade
só o orgulho me move
e tu
e tu
coração
meu coração
mais por hábito
mecânico
automático
humano
que por
realmente
querer continuar
deixa-me ficar
aqui
coração
meu coração
a pagar assim
desta forma
os passos em falso
por favor
deixa-me cair aqui
coração
deixa-me desistir
e ficar aqui
deitado
morrido
sem marcas
nem recordações
de outros
corações
não
por favor não
já não tenho lágrimas
só soluços
e memórias
nem mesmo vontade
só o orgulho me move
e tu
e tu
coração
meu coração
mais por hábito
mecânico
automático
humano
que por
realmente
querer continuar
deixa-me ficar
aqui
coração
meu coração
segunda-feira, janeiro 16, 2006
Olhos castanhos
Tenho medo de mim naqueles momentos em que os meus olhos ficam cinzentos, como o céu está neste exacto momento.
Não sinto nada, nem o frio, nem o vento, nem a neve branca que navega perdida pelas ruas.
Sinto-me como uma estátua de sal, de dor e saudade, desesperado demais para me sentar num autocarro meio cheio, nesta cidade perdida pintada de cinzento e branco sujo.
Entro na sala de aula e nem tiro a cadeira do sítio.
Parado no estrado, em frente ao meu público habitual, os meus ombros são penedos de granito, a minha boca e os meus olhos são pequenas linhas perdidas no mapa do meu rosto.
Olho-os, suspiro e mergulho de cabeça naquele esquecimento que só o trabalho dá, aquele adormecer da nossa vida que existe para lá desta sala.
E deixo que a pouco e pouco as ondas de cansaço e esquecimento, que vão subindo pelo meu corpo, apaguem tudo o resto.
Excepto o cinzento do céu, excepto o cinzento dos meus olhos.
É já noite escura, é já a morte gelada, misto de frio e de esgotamento, quando saio para a liberdade novamente.
Assim que abro a porta o calor de casa quase que me queima a cara, devo estar morto, mas afinal estou só gelado e cansado. Deixo o rasto de roupa para marcar bem o caminho para o banho que me vai limpar do mundo, desfazer as linhas da cara, fazer-me sonhar com o meu país.
No final pareço outro, limpo, leve, quente.
Mas os meus olhos estão cinzentos.
O céu agora é negro, lá fora chovem as mágoas do mundo, que grita e chora a tempestade.
Aqui dentro há vida, há calor, só os meus olhos estão cinzentos.
Afogo-me um pouco em trabalho e depois vou fazer o jantar, naquela linha diária traçada de pessoa só, de fim de dia de estrangeiro em terras estranhas.
Enquanto como e me apago em frente ao televisor, fingindo que não durmo nesta ilha almofadada a vermelho e branco, chegas tu, pequeno furacão de energia resgatado de um dia de tempestade, com pequenas grinaldas de neve e diamantes de chuva no teu cabelo.
Molhas-me a cara quanto pousas nos meus braços, estás gelada e eu abraço-te, sinto a luz do teu corpo atravessar o meu como se fosse papel de arroz e iluminar toda a sala.
Olhas-me e dizes, numa voz cansada e sumida, empoleirada em lábios gelados como um pássaro doce, "Meu amor, hoje tens os olhos tão castanhos."
Não sinto nada, nem o frio, nem o vento, nem a neve branca que navega perdida pelas ruas.
Sinto-me como uma estátua de sal, de dor e saudade, desesperado demais para me sentar num autocarro meio cheio, nesta cidade perdida pintada de cinzento e branco sujo.
Entro na sala de aula e nem tiro a cadeira do sítio.
Parado no estrado, em frente ao meu público habitual, os meus ombros são penedos de granito, a minha boca e os meus olhos são pequenas linhas perdidas no mapa do meu rosto.
Olho-os, suspiro e mergulho de cabeça naquele esquecimento que só o trabalho dá, aquele adormecer da nossa vida que existe para lá desta sala.
E deixo que a pouco e pouco as ondas de cansaço e esquecimento, que vão subindo pelo meu corpo, apaguem tudo o resto.
Excepto o cinzento do céu, excepto o cinzento dos meus olhos.
É já noite escura, é já a morte gelada, misto de frio e de esgotamento, quando saio para a liberdade novamente.
Assim que abro a porta o calor de casa quase que me queima a cara, devo estar morto, mas afinal estou só gelado e cansado. Deixo o rasto de roupa para marcar bem o caminho para o banho que me vai limpar do mundo, desfazer as linhas da cara, fazer-me sonhar com o meu país.
No final pareço outro, limpo, leve, quente.
Mas os meus olhos estão cinzentos.
O céu agora é negro, lá fora chovem as mágoas do mundo, que grita e chora a tempestade.
Aqui dentro há vida, há calor, só os meus olhos estão cinzentos.
Afogo-me um pouco em trabalho e depois vou fazer o jantar, naquela linha diária traçada de pessoa só, de fim de dia de estrangeiro em terras estranhas.
Enquanto como e me apago em frente ao televisor, fingindo que não durmo nesta ilha almofadada a vermelho e branco, chegas tu, pequeno furacão de energia resgatado de um dia de tempestade, com pequenas grinaldas de neve e diamantes de chuva no teu cabelo.
Molhas-me a cara quanto pousas nos meus braços, estás gelada e eu abraço-te, sinto a luz do teu corpo atravessar o meu como se fosse papel de arroz e iluminar toda a sala.
Olhas-me e dizes, numa voz cansada e sumida, empoleirada em lábios gelados como um pássaro doce, "Meu amor, hoje tens os olhos tão castanhos."
terça-feira, janeiro 10, 2006
rosa vermelha
quero ser o teu sangue para percorrer cada centímetro do teu corpo, morar para sempre na tua mente e suster cada batida do teu coração, os limites de ti serem os limites do meu mundo
mesmo assim morria infeliz, porque nunca mais beijaria a tua pele, nem me perdia nos teus olhos
mas era parte de ti, tanto quanto és parte de mim
mesmo assim morria infeliz, porque nunca mais beijaria a tua pele, nem me perdia nos teus olhos
mas era parte de ti, tanto quanto és parte de mim
sábado, janeiro 07, 2006
A Barba
Fico em frente ao espelho, mas não estou realmente a prestar atenção.
Os gestos são automáticos, seguros, já fiz isto tantas vezes que a lâmina passeia suavemente pela pele rugosa.
Pouco a pouco a imagem no espelho muda, já não sou eu, o eu habitual, sou o eu passado, aquele que te pertencia. Pouco a pouco os olhos relembram esta máscara, foi só procurar no arquivo, está um pouco mais gasta mas é a mesma.
Mas eu não estou realmente a prestar atenção, nem estou realmente preocupado. Se quiser ser exacto, nem estou realmente aqui.
Nem mesmo a água gelada me acorda, nem mesmo ela consegue parar as recordações, em dois segundos elas passam de pequenas pingas a uma enorme torrente cinzento prateado que submerge a realidade, que me submerge a mim.
De repente é uma tarde de Agosto, uma tarde de sorrisos e luz, ou pelo menos é assim que eu a recordo, as recordações são como os filmes da infãncia, parecem sempre supremas obras de arte, são das poucas coisas que o tempo melhora, as recordações.
Estou sentado na tua cozinha, o único lugar fresco da casa, estou no meio de uma chama de luz que entra pela janela meio fechada e me queima as pernas e as mãos, o ar está abafado.Os gestos são automáticos, seguros, já fiz isto tantas vezes que a lâmina passeia suavemente pela pele rugosa.
Pouco a pouco a imagem no espelho muda, já não sou eu, o eu habitual, sou o eu passado, aquele que te pertencia. Pouco a pouco os olhos relembram esta máscara, foi só procurar no arquivo, está um pouco mais gasta mas é a mesma.
Mas eu não estou realmente a prestar atenção, nem estou realmente preocupado. Se quiser ser exacto, nem estou realmente aqui.
Nem mesmo a água gelada me acorda, nem mesmo ela consegue parar as recordações, em dois segundos elas passam de pequenas pingas a uma enorme torrente cinzento prateado que submerge a realidade, que me submerge a mim.
De repente é uma tarde de Agosto, uma tarde de sorrisos e luz, ou pelo menos é assim que eu a recordo, as recordações são como os filmes da infãncia, parecem sempre supremas obras de arte, são das poucas coisas que o tempo melhora, as recordações.
Protesto, mas tu finges não ouvir, só uma mais das pequenas farsas com que enchemos os nossos momentos mortos, chamas-me rezingão, chamo-te ditadora, quase consigo adivinhar o teu sorriso.
Espalhas-me a espuma pela cara, mordes o lábio de baixo, estás concentrada, evitas os meus olhos, proíbes-me de sorrir. Começas o teu trabalho, tentas não me cortar a cara, tentas não olhar nos meus olhos.
Mas a tua mão está por cima do meu coração, pequeno teste que me fazes, para saber se eu confio, para saber se eu me entrego. E eu só quero beber dos teus olhos, mas tu não deixas.
Acabas finalmente o teu trabalho e sorris, nem um corte, a tua mão sempre no meu coração, sempre mergulhada na minha alma. Ajoelhada à minha frente olhas-me finalmente e só ai sentes o meu coração explodir, só ai volto a respirar, só nos teus olhos vivo realmente, todo o universo lá vive.
Pelo menos o meu.
Vivia, corrijo-me.
De repente a chuva na cara acorda-me, já estou na rua, barbeado e vestido, mas é inverno e eu preciso de um café, preciso de acordar, acordar de todas as tardes de Agosto, parar de sonhar-te em cada gesto, e ir trabalhar.
Odeio fazer a barba.
segunda-feira, janeiro 02, 2006
Entardecer Dourado
São cinco minutos do entardecer, aqueles raios finais do sol, que já cansado estende os seus braços, tentando alcançar tudo, abraçar todos, talvez despedir-se.
Apesar do frio, da cidade branca, do céu cinzento, todo o mundo é dourado durante esses cinco minutos finais.
A luz entra pelos olhos e derrama-se pela cara, pingando gota a gota para a alma, aquecendo as pessoas que se apressam a regressar a casa.
Durante aquele tempo, império de uma só cor, as pessoas levantam a cara, respiram um pouco mais leve, caminham um pouco mais devagar, voltam a ser um pouco mais humanos.
É no mais glorioso momento deste cobertor dourado que a escuridão nasce, os seus dedos compridos saem das sombras e as suas mãos envolvem tudo.
O frio faz-se mais frio, o céu fica negro, o peso volta aos ombros, o momento passa.
Mas naquele glorioso entardecer do primeiro dia do ano, por cinco minutos apenas, a cidade foi dourada como a planície, como um tesouro, como o sol.
E como o sol, a cidade a todos abraçou, antes de partir para as mãos da noite escura.
Apesar do frio, da cidade branca, do céu cinzento, todo o mundo é dourado durante esses cinco minutos finais.
A luz entra pelos olhos e derrama-se pela cara, pingando gota a gota para a alma, aquecendo as pessoas que se apressam a regressar a casa.
Durante aquele tempo, império de uma só cor, as pessoas levantam a cara, respiram um pouco mais leve, caminham um pouco mais devagar, voltam a ser um pouco mais humanos.
É no mais glorioso momento deste cobertor dourado que a escuridão nasce, os seus dedos compridos saem das sombras e as suas mãos envolvem tudo.
O frio faz-se mais frio, o céu fica negro, o peso volta aos ombros, o momento passa.
Mas naquele glorioso entardecer do primeiro dia do ano, por cinco minutos apenas, a cidade foi dourada como a planície, como um tesouro, como o sol.
E como o sol, a cidade a todos abraçou, antes de partir para as mãos da noite escura.
terça-feira, dezembro 27, 2005
25
sento-me na mesa do café,
quieto,
à espera que me matem.
e nesta tarde aborrecida,
completamente banal,
nunca quis tanto viver.
nunca o café soube tão bem,
e cada vez que respiro
é como se respirasse ouro
já li o jornal três vezes,
fervo de ansiedade,
suo frio,
mas espero quieto.
nesta mesa do café,
à espera que se decidam
a atravessar a rua
e vir matar-me.
quieto,
à espera que me matem.
e nesta tarde aborrecida,
completamente banal,
nunca quis tanto viver.
nunca o café soube tão bem,
e cada vez que respiro
é como se respirasse ouro
já li o jornal três vezes,
fervo de ansiedade,
suo frio,
mas espero quieto.
nesta mesa do café,
à espera que se decidam
a atravessar a rua
e vir matar-me.
quinta-feira, dezembro 15, 2005
8.37 am
Está tanto frio que o vento me corta a cara, as mãos, os olhos.
Não há nuvens, a luz derrama-se pura do céu de metal azul claro.
O vento enrola-se no meu cabelo, é como se só a minha face existisse,
como se só ela enfrentasse a manhã gelada.
Apenas o vento e eu caminhamos nesta manhã azul metálica,
e estou feliz assim, só nós na praia de pedra do passeio,
com um mar de alcatrão cheio de carros parados â esquerda
e os muros vivos de verde do jardim à minha direita.
Entro em casa já com o sabor a café a dançar na boca,
o jornal e o pão ficam juntos a fazer amor na mesa da cozinha,
a tinta fresca e o calor do pão fresco ainda se agarram à vida,
ainda permanecem nas pontas dos dedos, na ponta do nariz.
Abro as cortinas e deixo a luz vasculhar o quarto enquanto
me dispo e entro neste ventre de flanela azul metálico,
da côr do céu lá fora, ainda aquecido pela tua pele açucarada,
e ranges com a cama enquanto me deito e me tapo.
Rodas e os teus braços apertam-me o tronco, ainda ai estou,
só saí nos teus sonhos, e olho-te neste amanhecer azul metálico.
O despertador diz-me baixinho que tenho mais vinte e três minutos
até ele te arrancar daqui, do ninho dos meus braços.
Sinto a tua respiração compassada no meu peito, sobe-me pelo pescoço,
queima-me a cara, faz-me esquecer o tempo que passa, que se lixe o tempo,
o momento fica, este momento que é só meu. Meu e do vento que dança lá fora.
Como o meu coração, cada um no seu céu azul metálico.
Não há nuvens, a luz derrama-se pura do céu de metal azul claro.
O vento enrola-se no meu cabelo, é como se só a minha face existisse,
como se só ela enfrentasse a manhã gelada.
Apenas o vento e eu caminhamos nesta manhã azul metálica,
e estou feliz assim, só nós na praia de pedra do passeio,
com um mar de alcatrão cheio de carros parados â esquerda
e os muros vivos de verde do jardim à minha direita.
Entro em casa já com o sabor a café a dançar na boca,
o jornal e o pão ficam juntos a fazer amor na mesa da cozinha,
a tinta fresca e o calor do pão fresco ainda se agarram à vida,
ainda permanecem nas pontas dos dedos, na ponta do nariz.
Abro as cortinas e deixo a luz vasculhar o quarto enquanto
me dispo e entro neste ventre de flanela azul metálico,
da côr do céu lá fora, ainda aquecido pela tua pele açucarada,
e ranges com a cama enquanto me deito e me tapo.
Rodas e os teus braços apertam-me o tronco, ainda ai estou,
só saí nos teus sonhos, e olho-te neste amanhecer azul metálico.
O despertador diz-me baixinho que tenho mais vinte e três minutos
até ele te arrancar daqui, do ninho dos meus braços.
Sinto a tua respiração compassada no meu peito, sobe-me pelo pescoço,
queima-me a cara, faz-me esquecer o tempo que passa, que se lixe o tempo,
o momento fica, este momento que é só meu. Meu e do vento que dança lá fora.
Como o meu coração, cada um no seu céu azul metálico.
quinta-feira, dezembro 08, 2005
4 da manhã
Desculpa telefonar-te a estas horas
mas preciso que me salves desta escuridão
que fica na minha alma,
no meu corpo,
no meu quarto,
quando não estou contigo.
Era só porque precisava muito
de ouvir a luz na tua voz,
sentir o vapor do teu corpo,
o teu peito a subir e a descer
enquanto dormes nos meus braços.
Diz-me só boa noite,
para eu poder ir tentar dormir,
a pensar que se calhar estás aqui,
e ser feliz, a sonhar assim,
pelo menos até acordar.
mas preciso que me salves desta escuridão
que fica na minha alma,
no meu corpo,
no meu quarto,
quando não estou contigo.
Era só porque precisava muito
de ouvir a luz na tua voz,
sentir o vapor do teu corpo,
o teu peito a subir e a descer
enquanto dormes nos meus braços.
Diz-me só boa noite,
para eu poder ir tentar dormir,
a pensar que se calhar estás aqui,
e ser feliz, a sonhar assim,
pelo menos até acordar.
domingo, novembro 27, 2005
Dançar
O copo está meio quando me tocas na mão para irmos dançar.
Apesar do barulho, apesar das pessoas, sabes que música será.
Sabes sempre.
Não sei como mas sabes.
Agarras-me a mão assim que me levanto e puxas-me para o meio da pista, longe da luz e de todo o resto do universo.
Pões os teus pés em cima dos meus, abraço-te suavemente para te proteger do mundo e dos olhares e porque gostas.
Anichas-te nos meus braços, a tua respiração quente a queimar-me o pescoço de desejo apesar do bar estar abafado.
A música começa e tu sorris, aquele sorriso que só eu vejo.
Dançamos.
Os teus lábios de sabor a licôr beijam os meus, tens a mão pousada no meu peito para sentir aquele sobressalto que o meu coração dá sempre que os nossos lábios se tocam, o teu corpo estremece quando a minha mão viaja pelas tuas costas, a música faz-nos derreter nos braços um do outro.
A música parou, outra música começou.
Ninguém percebeu.
Ninguém viu o universo a parar enquanto pairavas nos meus braços e eramos um.
Um coração, uma respiração, um beijo.
A dançar.
Apesar do barulho, apesar das pessoas, sabes que música será.
Sabes sempre.
Não sei como mas sabes.
Agarras-me a mão assim que me levanto e puxas-me para o meio da pista, longe da luz e de todo o resto do universo.
Pões os teus pés em cima dos meus, abraço-te suavemente para te proteger do mundo e dos olhares e porque gostas.
Anichas-te nos meus braços, a tua respiração quente a queimar-me o pescoço de desejo apesar do bar estar abafado.
A música começa e tu sorris, aquele sorriso que só eu vejo.
Dançamos.
Os teus lábios de sabor a licôr beijam os meus, tens a mão pousada no meu peito para sentir aquele sobressalto que o meu coração dá sempre que os nossos lábios se tocam, o teu corpo estremece quando a minha mão viaja pelas tuas costas, a música faz-nos derreter nos braços um do outro.
A música parou, outra música começou.
Ninguém percebeu.
Ninguém viu o universo a parar enquanto pairavas nos meus braços e eramos um.
Um coração, uma respiração, um beijo.
A dançar.
quinta-feira, novembro 17, 2005
Vou
Vou perseguir-te por todos os recantos de mim,
e apagar todos os fogos que deixaste.
Vou plantar nova vida neste mar de cinzas que ficou,
e lavar com lágrimas o teu sabor da minha boca.
Vou apagar todas as recordações de todos os momentos,
até não seres mais que um nevoeiro soprado pelo vento.
Vou finalmente olhar para dentro de mim, limpo de ti,
e sentar-me, e chorar, enquanto olho o vazio que ficou.
e apagar todos os fogos que deixaste.
Vou plantar nova vida neste mar de cinzas que ficou,
e lavar com lágrimas o teu sabor da minha boca.
Vou apagar todas as recordações de todos os momentos,
até não seres mais que um nevoeiro soprado pelo vento.
Vou finalmente olhar para dentro de mim, limpo de ti,
e sentar-me, e chorar, enquanto olho o vazio que ficou.
Dei-to
Dei-te...
Sei lá o que te dei...
Dei-me?
Seja o que fôr
perdi...
Não o encontro,
nem posso dar mais.
Se calhar nunca tive,
se calhar levaste contigo.
Dei-te...
E já não volta.
Passo a mão pelo cabelo,
fecho os olhos, imagino...
tento lembrar-me
do caminho de volta.
Não me lembro,
dei-to...
dei-me...
e já não volto mais.
Sei lá o que te dei...
Dei-me?
Seja o que fôr
perdi...
Não o encontro,
nem posso dar mais.
Se calhar nunca tive,
se calhar levaste contigo.
Dei-te...
E já não volta.
Passo a mão pelo cabelo,
fecho os olhos, imagino...
tento lembrar-me
do caminho de volta.
Não me lembro,
dei-to...
dei-me...
e já não volto mais.
sexta-feira, novembro 11, 2005
as sombras
Sempre pensei que as sombras são seres vivos,
presos a homens pouco humanos e a objectos sem alma.
Deve ser por isso que pensamos que o Mal,
(esse da letra e do medo maíusculo),
se esconde nas sombras.
Que ódio nos devem ter as sombras,
presas a nós que nada fazemos,
senão tapar a luz a que têm direito.
presos a homens pouco humanos e a objectos sem alma.
Deve ser por isso que pensamos que o Mal,
(esse da letra e do medo maíusculo),
se esconde nas sombras.
Que ódio nos devem ter as sombras,
presas a nós que nada fazemos,
senão tapar a luz a que têm direito.
terça-feira, novembro 08, 2005
Mergulhar
Mergulhar.
Sentir que o mundo acaba,
imerso no imenso silêncio
do frio e infinito horizonte azul.
Deixar-me lentamente cair,
procurando o fundo invisível,
até que os pulmões parecem
rebentar e me lembram bruscamente
que eu não pertenço aqui.
Por isso vôo para a superfície,
onde não há nenhum azul assim,
onde não há nem paz nem silêncio,
mas onde está, infelizmente,
todo o oxigénio.
Sentir que o mundo acaba,
imerso no imenso silêncio
do frio e infinito horizonte azul.
Deixar-me lentamente cair,
procurando o fundo invisível,
até que os pulmões parecem
rebentar e me lembram bruscamente
que eu não pertenço aqui.
Por isso vôo para a superfície,
onde não há nenhum azul assim,
onde não há nem paz nem silêncio,
mas onde está, infelizmente,
todo o oxigénio.
segunda-feira, novembro 07, 2005
rotina
Acorda
Come
Anda
Trabalha
Come
Trabalha
Anda
Come
Dorme
Todos os dias?
E se eu me apetecer
mandar-vos todos
todos à merda?
Não posso?
Então sejam voçês
essas tais pessoas.
Eu não quero.
Prefiro ser humano
e pensar por mim.
Come
Anda
Trabalha
Come
Trabalha
Anda
Come
Dorme
Todos os dias?
E se eu me apetecer
mandar-vos todos
todos à merda?
Não posso?
Então sejam voçês
essas tais pessoas.
Eu não quero.
Prefiro ser humano
e pensar por mim.
quarta-feira, novembro 02, 2005
Um feriado
Que saudades que eu tinha
de acordar nos teus braços,
e chamar-te princesa,
e sentir-te mulher e minha.
de acordar nos teus braços,
e chamar-te princesa,
e sentir-te mulher e minha.
quinta-feira, outubro 27, 2005
Sim, sei.
Sim, sei.
Sei que para onde fôr
nunca estarei só.
Porque te carrego,
recordada num altar,
feito dentro de mim.
Sim, sei.
Alías, tenho a certeza,
que já não me perco
outra vez neste caminho,
que escreveste para mim,
quando vivias para nós.
Sei que para onde fôr
nunca estarei só.
Porque te carrego,
recordada num altar,
feito dentro de mim.
Sim, sei.
Alías, tenho a certeza,
que já não me perco
outra vez neste caminho,
que escreveste para mim,
quando vivias para nós.
quinta-feira, outubro 20, 2005
Raio de luz
Todos os meus erros morrem
naquele milísegundo em que
os nossos lábios se cruzam,
em que a chuva fria cai
pelas goteiras dos cabelos,
e um raio de luz viva
nos atravessa agarrados,
neste estacionamento sujo
e escuro e feio e nosso.
Não me peças mais perdão,
eu não te peço mais desculpa.
Vamos só ficar aqui assim,
agarrados na noite sem lua,
enquanto eu desvendo se
este arrepio nas costas
é da chuva que me encharca,
das tuas mãos que me abraçam
ou deste raio de luz suja
que nos transporta assim,
naufragados um no outro,
neste milionésimo de segundo
onde a memória não existe.
naquele milísegundo em que
os nossos lábios se cruzam,
em que a chuva fria cai
pelas goteiras dos cabelos,
e um raio de luz viva
nos atravessa agarrados,
neste estacionamento sujo
e escuro e feio e nosso.
Não me peças mais perdão,
eu não te peço mais desculpa.
Vamos só ficar aqui assim,
agarrados na noite sem lua,
enquanto eu desvendo se
este arrepio nas costas
é da chuva que me encharca,
das tuas mãos que me abraçam
ou deste raio de luz suja
que nos transporta assim,
naufragados um no outro,
neste milionésimo de segundo
onde a memória não existe.
sexta-feira, outubro 14, 2005
Nunca vai cessar de me espantar
que as pessoas me vejam como
uma pessoa sensível e boa.
Talvez tu lhes devesses contar
sobre a noite em que te olhei nos olhos,
te arranquei o coração do peito e sorri.
Ou talvez devesses contar o que disse:
"Tu para mim morreste, és menos que nada,
não me fales, não me olhes, nem digas o meu nome."
Deixa.
Basta-lhes saber o bem que me soube
fazer sofrer a mulher que amei.
que as pessoas me vejam como
uma pessoa sensível e boa.
Talvez tu lhes devesses contar
sobre a noite em que te olhei nos olhos,
te arranquei o coração do peito e sorri.
Ou talvez devesses contar o que disse:
"Tu para mim morreste, és menos que nada,
não me fales, não me olhes, nem digas o meu nome."
Deixa.
Basta-lhes saber o bem que me soube
fazer sofrer a mulher que amei.
quarta-feira, outubro 12, 2005
Vivo

Chove torrencialmente e nem me importo.
Só sei que me sinto vivo, neste exacto momento,
da madrugada pintada de cinzento sepultura.
Caminho de braços abertos e cara levantada,
deixando a chuva gelada escorrer pelo pescoço
e inundar-me de vida a alma ressequida.
Na luz matinal, a chuva parece chumbo derretido,
e eu riu alto demais nas ruas desertas cheias de lama,
porque a chuva chegou para me lavar os olhos.
O vento brinca com o meu cabelo encharcado,
e sinto, e espero, e desejo que me agarre as mãos
e me leva a passear no meio das nuvens negras.
segunda-feira, outubro 10, 2005
as primeiras chuvas
vieste com as primeiras chuvas
à minha procura nos bares
por saberes que me tinhas
deixado partido e perdido
no fundo de uma garrafa
vieste na busca estúpida
da recordação esquecida
do nosso amor passado
porque não tinhas já
quem te abraçasse
vieste nos meus braços
numa nuvem quente
de álcool e prazer
e choraste saciada
perdida no meu peito
mas depois veio o sol
e quando a luz chegou
lá te lembraste que
agora já não me amavas
e sumiste na manhã
e lá me arrastei eu
nem melhor nem pior
para o fundo da garrafa
até que voltem a cair
as primeiras chuvas
à minha procura nos bares
por saberes que me tinhas
deixado partido e perdido
no fundo de uma garrafa
vieste na busca estúpida
da recordação esquecida
do nosso amor passado
porque não tinhas já
quem te abraçasse
vieste nos meus braços
numa nuvem quente
de álcool e prazer
e choraste saciada
perdida no meu peito
mas depois veio o sol
e quando a luz chegou
lá te lembraste que
agora já não me amavas
e sumiste na manhã
e lá me arrastei eu
nem melhor nem pior
para o fundo da garrafa
até que voltem a cair
as primeiras chuvas
intimidade
resolvi contar a todos o bela que és
quando ficas assim meia acordada
nos meus braços
com o pijama de flanela azul
que a tua mãe te deu nas férias
e me deixas o braço dormente
com essa tua mania
de te esconderes da luz
aninhando-te no meu ombro
e me acordas com o perfume
dos teus cabelos soltos
e com o calor da tua respiração
a arrepiar-me o meu pescoço
quando ficas assim meia acordada
nos meus braços
com o pijama de flanela azul
que a tua mãe te deu nas férias
e me deixas o braço dormente
com essa tua mania
de te esconderes da luz
aninhando-te no meu ombro
e me acordas com o perfume
dos teus cabelos soltos
e com o calor da tua respiração
a arrepiar-me o meu pescoço
o lobo
antes quebrar que dobrar
diziam-me os meus avós
quando eu era pequeno
quando entrei na escola
a professora batia-me
e eu não lhe dava razão
depois cresci e aprendi
a responder mordendo
à ignorância dos outros
muitas vezes quebrei
por erros meus
ou abandono dos outros
mas ainda guardo o orgulho
de mesmo quando a carneirada
foge, nunca ter dobrado
diziam-me os meus avós
quando eu era pequeno
quando entrei na escola
a professora batia-me
e eu não lhe dava razão
depois cresci e aprendi
a responder mordendo
à ignorância dos outros
muitas vezes quebrei
por erros meus
ou abandono dos outros
mas ainda guardo o orgulho
de mesmo quando a carneirada
foge, nunca ter dobrado
sexta-feira, outubro 07, 2005
o voto
não temos revoluções, temos cento e vinte canais
não temos cartas, temos mensagens em códigos
não temos torturas, temos grandes camadas
não temos censura, mas não dizemos nada
não me importa onde votam
não têm nada a ver onde eu voto
MAS VÃO VOTAR
PESSOAS MORRERAM PARA VOÇÊS O PODEREM FAZER
FAÇAM-NO
VOTEM
VOTEM
VOTEM
não temos cartas, temos mensagens em códigos
não temos torturas, temos grandes camadas
não temos censura, mas não dizemos nada
não me importa onde votam
não têm nada a ver onde eu voto
MAS VÃO VOTAR
PESSOAS MORRERAM PARA VOÇÊS O PODEREM FAZER
FAÇAM-NO
VOTEM
VOTEM
VOTEM
sábado, outubro 01, 2005
Amor em Prosa III
Só tu sabes o que enfrentas.
Acordas ao meu lado nos dias bons e adormecemos nos braços um do outro nos dias maus.
Mas eu sei o peso que carregas.
Só a mim a tua força não espanta.
Fazia vento nessa tarde, trazias o cabelo preso, e mas algumas madeixas soltas cortavam-te o rosto, como barras de uma prisão para os teus olhos.
Viste logo na minha cara o parecida que estavas com ela.
Soltaste os cabelos e olhaste-me nos olhos como que dizendo, eu sou eu, não sou ela.
Percebi.
Sentaste-te do outro lado da mesa, falando a todos com aquela voz de menina que sabes que me irrita, provavelmente ainda magoada por eu te ter achado parecida.
A conversa continuou por algumas horas até que, sem que ninguém se apercebesse, ou talvez tivessem percebido muito bem mas não quisessem mostrar, me mandas-te o olhar.
Já me enviaram esse olhar vezes suficientes para o reconhecer imediatamente.
O olhar "temos de falar".
Pedi logo uma bebida forte num copo grande, sem gelo, ajuda-me a pensar enquanto bebo, e a primeira coisa que pensei foi que asneira teria eu feito.
Às vezes sou mesmo cego.
O tempo passou e fomos ficando.
Era aquela hora, mesmo antes de jantar, em que os cafés ficam vazios e até os empregados desaparecem. Já estavamos sozinhos, mudos, a olhar o cinzeiro à cinco minutos e matei o resto da bebida de uma vez, para afogar o silêncio.
Disse logo, Então?
Hesitaste, talvez a pensar se o plano resultaria agora que o tinhas de pôr em prática. Mas tu és forte, e avançaste.
Eu não sou ela.
Eu sei, nunca disse que eras, e...
Cala-te.
A minha cara endureceu logo, sempre odiei que me mandassem calar, mas vi que tinhas ficado um pouco arrependida e resolvi poupar-te um pouco e soltar um meio sorriso.
Ainda pensas nela?
Sempre.
Baixaste os olhos, como se te pesasse cada palavra.
Ainda a amas?
Sim, respondi eu, depois de dois meses a dizer a mim próprio que não.
E nós?
Nós o quê?
Como ficamos?
Como quiseres.
O vento tinha parado, e as ruas estavam vazias, pairávamos entre o dia e a noite, naquele espaço de tempo em que a luz parece ser azulada. O silêncio entre nós era como se fosse uma almofada que crescia a cada segundo. Eu tinha feito o que devia. Tinha sido um idiota, facilitado tudo. A decisão era tua, ias decidir bem, ias mandar-me passear. Mínimo de sofrimento a longo prazo para os dois. A decisão correcta.
Eu quero.
A tua voz saiu devagar, cada sílaba uma certeza, uma pedra, uma torre, uma montanha.
Ouviste?
Ouviste?
Mas eu não ouvia, só via a tua mão pequena brincando com a chávena do café. Agarrei-a devagarinho, estava gelada e ficava mesmo pequena na minha, olhei-te e nada disse.
Vamos para casa?
A tua voz saiu meio rouca, como se no último momento hesitasses, talvez tivesses percebido mal, talvez eu estivesse a dizer adeus, a mandar-te embora.
Vamos.
A minha resposta ficou a pairar no ar como uma pena, como se o seu verdadeiro significado não fosse real, como se se tivesse perdido no momento. Levantámo-nos, a tua cara estava séria, como se a resposta não fosse o que estavas à espera, como se não soubesses o que fazer agora.
Só a meio caminho de casa me deste a mão, e nessa noite fui dormir em minha casa. Estava bem claro, tu não eras ela, mas também não eras a outra. Não vou mentir, sempre a vou amar. Ela fez parte de mim demasiado tempo para a apagar.
Sempre foste forte, lutas todos os dias por nós.
Quero que saibas...
Não...
Preciso que saibas que todas as noites quando me deito, e todas as manhãs quando acordo, o faço ao teu lado, que não estás em segundo lugar.
Podes posar esse peso que carregas.
Não quero acordar ao lado de mais ninguém.
Acordas ao meu lado nos dias bons e adormecemos nos braços um do outro nos dias maus.
Mas eu sei o peso que carregas.
Só a mim a tua força não espanta.
Fazia vento nessa tarde, trazias o cabelo preso, e mas algumas madeixas soltas cortavam-te o rosto, como barras de uma prisão para os teus olhos.
Viste logo na minha cara o parecida que estavas com ela.
Soltaste os cabelos e olhaste-me nos olhos como que dizendo, eu sou eu, não sou ela.
Percebi.
Sentaste-te do outro lado da mesa, falando a todos com aquela voz de menina que sabes que me irrita, provavelmente ainda magoada por eu te ter achado parecida.
A conversa continuou por algumas horas até que, sem que ninguém se apercebesse, ou talvez tivessem percebido muito bem mas não quisessem mostrar, me mandas-te o olhar.
Já me enviaram esse olhar vezes suficientes para o reconhecer imediatamente.
O olhar "temos de falar".
Pedi logo uma bebida forte num copo grande, sem gelo, ajuda-me a pensar enquanto bebo, e a primeira coisa que pensei foi que asneira teria eu feito.
Às vezes sou mesmo cego.
O tempo passou e fomos ficando.
Era aquela hora, mesmo antes de jantar, em que os cafés ficam vazios e até os empregados desaparecem. Já estavamos sozinhos, mudos, a olhar o cinzeiro à cinco minutos e matei o resto da bebida de uma vez, para afogar o silêncio.
Disse logo, Então?
Hesitaste, talvez a pensar se o plano resultaria agora que o tinhas de pôr em prática. Mas tu és forte, e avançaste.
Eu não sou ela.
Eu sei, nunca disse que eras, e...
Cala-te.
A minha cara endureceu logo, sempre odiei que me mandassem calar, mas vi que tinhas ficado um pouco arrependida e resolvi poupar-te um pouco e soltar um meio sorriso.
Ainda pensas nela?
Sempre.
Baixaste os olhos, como se te pesasse cada palavra.
Ainda a amas?
Sim, respondi eu, depois de dois meses a dizer a mim próprio que não.
E nós?
Nós o quê?
Como ficamos?
Como quiseres.
O vento tinha parado, e as ruas estavam vazias, pairávamos entre o dia e a noite, naquele espaço de tempo em que a luz parece ser azulada. O silêncio entre nós era como se fosse uma almofada que crescia a cada segundo. Eu tinha feito o que devia. Tinha sido um idiota, facilitado tudo. A decisão era tua, ias decidir bem, ias mandar-me passear. Mínimo de sofrimento a longo prazo para os dois. A decisão correcta.
Eu quero.
A tua voz saiu devagar, cada sílaba uma certeza, uma pedra, uma torre, uma montanha.
Ouviste?
Ouviste?
Mas eu não ouvia, só via a tua mão pequena brincando com a chávena do café. Agarrei-a devagarinho, estava gelada e ficava mesmo pequena na minha, olhei-te e nada disse.
Vamos para casa?
A tua voz saiu meio rouca, como se no último momento hesitasses, talvez tivesses percebido mal, talvez eu estivesse a dizer adeus, a mandar-te embora.
Vamos.
A minha resposta ficou a pairar no ar como uma pena, como se o seu verdadeiro significado não fosse real, como se se tivesse perdido no momento. Levantámo-nos, a tua cara estava séria, como se a resposta não fosse o que estavas à espera, como se não soubesses o que fazer agora.
Só a meio caminho de casa me deste a mão, e nessa noite fui dormir em minha casa. Estava bem claro, tu não eras ela, mas também não eras a outra. Não vou mentir, sempre a vou amar. Ela fez parte de mim demasiado tempo para a apagar.
Sempre foste forte, lutas todos os dias por nós.
Quero que saibas...
Não...
Preciso que saibas que todas as noites quando me deito, e todas as manhãs quando acordo, o faço ao teu lado, que não estás em segundo lugar.
Podes posar esse peso que carregas.
Não quero acordar ao lado de mais ninguém.
1\10\2004 - 7.45 am
deixo-te este papel
na nossa almofada
só para dizer bom dia
porque se oiço a tua voz
ou te olho um segundo
não tenho coragem
para ir para o trabalho
na nossa almofada
só para dizer bom dia
porque se oiço a tua voz
ou te olho um segundo
não tenho coragem
para ir para o trabalho
Que poetas são esses
que procuram musas
perfeitas e raras
as mulheres-anjo
dos poetas antigos?
Que poetas são esses
imitadores de Fausto
que vendem a alma
pelo calor e amor de
uma mulher-demónio?
Que posso eu querer
que seja mais que tu
não sou poeta, sou homem
sou teu, meu amor
minha mulher-humana
que procuram musas
perfeitas e raras
as mulheres-anjo
dos poetas antigos?
Que poetas são esses
imitadores de Fausto
que vendem a alma
pelo calor e amor de
uma mulher-demónio?
Que posso eu querer
que seja mais que tu
não sou poeta, sou homem
sou teu, meu amor
minha mulher-humana
na noite quente
ouvi
uma voz cristalina
e por ter medo
apertei-te junto a mim
só para acordar
na noite quente
sozinho
com os braços
e a cama
e o quarto
e eu
vazios
na noite quente
ouvi
uma voz cristalina
e por ter medo
apertei-te junto a mim
só para acordar
na noite quente
sozinho
com os braços
e a cama
e o quarto
e eu
vazios
na noite quente
sexta-feira, setembro 30, 2005
A dor posterior
entro devagar para não te acordar
não quero que me vejas ainda
não quero que vejas que voltei
a fazer os mesmos erros
a água fria do duche acorda-me
leva com ela o calor da luta
e mostra-me ao pormenor
onde me vai doer amanhã
tento apagar todas as marcas
mas as manchas de sangue
custam sempre mais a sair
quando caem nas mãos
penso que deve ser herança
marca genética de Caim e Pilatos
acho graça e sorrio cuspindo
m pouco de sangue dos dentes
entro na cama devagar, já seco
para não acordares e me veres
mas quase choro quando
me abraças as costelas doridas
afundo-me nas almofadas
aliviado porque sei que consegui
vais acordar e pensar que durmo
e não me vais ver assim
não quero que me vejas ainda
não quero que vejas que voltei
a fazer os mesmos erros
a água fria do duche acorda-me
leva com ela o calor da luta
e mostra-me ao pormenor
onde me vai doer amanhã
tento apagar todas as marcas
mas as manchas de sangue
custam sempre mais a sair
quando caem nas mãos
penso que deve ser herança
marca genética de Caim e Pilatos
acho graça e sorrio cuspindo
m pouco de sangue dos dentes
entro na cama devagar, já seco
para não acordares e me veres
mas quase choro quando
me abraças as costelas doridas
afundo-me nas almofadas
aliviado porque sei que consegui
vais acordar e pensar que durmo
e não me vais ver assim
quarta-feira, setembro 21, 2005
três dias sem dormir
sete livros lidos
cento e setenta e duas
páginas escritas
cinco cadeiras acabadas
cinco horas de carro
para uma reunião
de vinte minutos
quarenta minutos a pé
para adormecer no teu sofá
com a cabeça no teu colo
sete livros lidos
cento e setenta e duas
páginas escritas
cinco cadeiras acabadas
cinco horas de carro
para uma reunião
de vinte minutos
quarenta minutos a pé
para adormecer no teu sofá
com a cabeça no teu colo
domingo, setembro 18, 2005
Acordar Primeiro
Odeio acordar nas manhãs
em que trabalhas e em que sais
mais cedo do que eu
Odeio que não me acordes
e que me deixes dormir
até o despertador tocar
Odeio tomar banho sozinho
e apagar com água fria
o beijo com que te despediste
Odeio especialmente passar
dois e três dias longe a trabalhar
sem te olhar nos olhos e tocar
porque assim me pareces um sonho
e fico com medo de voltar a casa
e perceber que te imaginei
Odeio especialmente não poder
acordar contigo nos meus abraços
apertar-te de mansinho e dizer,
enquanto ainda sonhas e não ouves,
cheirando o teu calor e o teu cabelo:
Sou teu, sempre, mesmo enquanto dormes.
em que trabalhas e em que sais
mais cedo do que eu
Odeio que não me acordes
e que me deixes dormir
até o despertador tocar
Odeio tomar banho sozinho
e apagar com água fria
o beijo com que te despediste
Odeio especialmente passar
dois e três dias longe a trabalhar
sem te olhar nos olhos e tocar
porque assim me pareces um sonho
e fico com medo de voltar a casa
e perceber que te imaginei
Odeio especialmente não poder
acordar contigo nos meus abraços
apertar-te de mansinho e dizer,
enquanto ainda sonhas e não ouves,
cheirando o teu calor e o teu cabelo:
Sou teu, sempre, mesmo enquanto dormes.
quarta-feira, setembro 14, 2005
Devolvo-te
Devolvo-te as palavras
que me escreveste
pois sei que as sentes ainda
e a falta que te fazem
Devolvo-te os olhares
que me tentaste atirar
julgando talvez que eu
não fosse tão cego
Devolvo-te o teu coração
pois não o posso usar
porque nunca o quis
nem quando mo ofereceste
Devolvo-te as lágrimas
todas que usaste por mim
por culpas que eu
nunca soube ter tido
Devolvo-te principalmente
esse ódio cego e justo
que me guardas ainda hoje
por nunca ter dito sim
que me escreveste
pois sei que as sentes ainda
e a falta que te fazem
Devolvo-te os olhares
que me tentaste atirar
julgando talvez que eu
não fosse tão cego
Devolvo-te o teu coração
pois não o posso usar
porque nunca o quis
nem quando mo ofereceste
Devolvo-te as lágrimas
todas que usaste por mim
por culpas que eu
nunca soube ter tido
Devolvo-te principalmente
esse ódio cego e justo
que me guardas ainda hoje
por nunca ter dito sim
segunda-feira, setembro 05, 2005
Momentos Dourados
Resolvi finalmente publicar este texto depois de alguma reflexão, algo que espantará as pessoas que me conhecem , pois sabem que regra geral ajo por impulso. Mas como todas as boas ideias que tenho tido em termos de publicação de textos neste blog resultaram em eu ter de tentar explicar às pessoas que os meus textos não são ataques pessoais, mas impulsos de momento, tive de pensar um pouco.
Uns bons dois minutos.
Bom, aqui está.
Sou professor.
Sou talvez das poucas pessoas que sempre o quiseram ser.
Mas conheço muitas que amam verdadeiramente ensinar, ter uma turma que nos olha como os transmissores supremos de uma sabedoria quase mágica.
É quase uma droga.
Alguém que nunca ensinou não conhece o supremo prazer que é ensinar um aluno com dificuldades e vê-lo superá-las, ou encontrar uma aluna algum tempo depois e ouvir aquelas palavras para as quais todo o professor vive, "Ainda me lembro do que o professor me ensinou".
São esses momentos dourados que nos fazem superar as manhãs de segunda, as tardes de sexta, as reuniões com os pais, as intermináveis correcções de testes.
Momentos autenticamente dourados.
É por esses momentos que escrevo isto.
Eu escolhi o caminho mais díficil.
Nunca parar, ser melhor do sou.
Escolhi sair do meu país, estudar e falar noutra língua, para ser melhor professor.
Para ter mais momentos dourados.
Para que a minha sabedoria fosse ainda mais mágica.
Foi uma solução cobarde e cruel, agora que a vejo.
Passou uma semana desde que saíram as listas dos concursos.
A interminável espera acabara.
Seguiram-se as idas ao café, as conversas telefónicas e cibernéticas, quem ficou em que posição e à frente de quem, o normal.
O que vi deixou-me de rastos.
Não por mim, eu fui cobarde, eu tinha o que fazer, com que me ocupar.
Foi por ouvir na voz das pessoas, dos amigos, dos companheiros de profissão com quem falei uma desilusão e um desespero real.
Desespero.
Ver toda uma vida, dezassete anos no mínimo, de treino, deitada fora.
Não uma, mas duas gerações completamente perdidas, desesperadas.
Desilusão.
Nem mais um momento, nem mais um só segundo dourado.
E quando esses amigos se viram, as vozes tensas, algumas raivosas, outras embargadas, eu respondo com uma crueldade que me deixa mais triste ainda.
As coisas por lá correm-me bem, talvez fique por lá.
A minha voz some-se quando o digo, e nem tenho coragem de olhar as pessoas nos olhos.
Porque eu sei que estou a ser cruel.
Mas é dificil saber que não existem hipóteses.
É a desilusão.
É o desespero.
É o adeus aos momentos dourados.
Pergunto realmente se algum dia esta geração voltar ao ensino, conseguirá voltar a brilhar.
Ou será que também isso perdemos?
A capacidade de brilhar?
Espero que não, eu não seria capaz de carregar esse peso.
E vocês, seriam?
Uns bons dois minutos.
Bom, aqui está.
Sou professor.
Sou talvez das poucas pessoas que sempre o quiseram ser.
Mas conheço muitas que amam verdadeiramente ensinar, ter uma turma que nos olha como os transmissores supremos de uma sabedoria quase mágica.
É quase uma droga.
Alguém que nunca ensinou não conhece o supremo prazer que é ensinar um aluno com dificuldades e vê-lo superá-las, ou encontrar uma aluna algum tempo depois e ouvir aquelas palavras para as quais todo o professor vive, "Ainda me lembro do que o professor me ensinou".
São esses momentos dourados que nos fazem superar as manhãs de segunda, as tardes de sexta, as reuniões com os pais, as intermináveis correcções de testes.
Momentos autenticamente dourados.
É por esses momentos que escrevo isto.
Eu escolhi o caminho mais díficil.
Nunca parar, ser melhor do sou.
Escolhi sair do meu país, estudar e falar noutra língua, para ser melhor professor.
Para ter mais momentos dourados.
Para que a minha sabedoria fosse ainda mais mágica.
Foi uma solução cobarde e cruel, agora que a vejo.
Passou uma semana desde que saíram as listas dos concursos.
A interminável espera acabara.
Seguiram-se as idas ao café, as conversas telefónicas e cibernéticas, quem ficou em que posição e à frente de quem, o normal.
O que vi deixou-me de rastos.
Não por mim, eu fui cobarde, eu tinha o que fazer, com que me ocupar.
Foi por ouvir na voz das pessoas, dos amigos, dos companheiros de profissão com quem falei uma desilusão e um desespero real.
Desespero.
Ver toda uma vida, dezassete anos no mínimo, de treino, deitada fora.
Não uma, mas duas gerações completamente perdidas, desesperadas.
Desilusão.
Nem mais um momento, nem mais um só segundo dourado.
E quando esses amigos se viram, as vozes tensas, algumas raivosas, outras embargadas, eu respondo com uma crueldade que me deixa mais triste ainda.
As coisas por lá correm-me bem, talvez fique por lá.
A minha voz some-se quando o digo, e nem tenho coragem de olhar as pessoas nos olhos.
Porque eu sei que estou a ser cruel.
Mas é dificil saber que não existem hipóteses.
É a desilusão.
É o desespero.
É o adeus aos momentos dourados.
Pergunto realmente se algum dia esta geração voltar ao ensino, conseguirá voltar a brilhar.
Ou será que também isso perdemos?
A capacidade de brilhar?
Espero que não, eu não seria capaz de carregar esse peso.
E vocês, seriam?
Anúncio de Jornal
homem cansado procura mulher
com dicionário
e um tubo de super cola
que lhe cole o coração partido
e lhe ensine o que significa amar
com dicionário
e um tubo de super cola
que lhe cole o coração partido
e lhe ensine o que significa amar
segunda-feira, agosto 29, 2005
Moram ainda na minha mente
Moram ainda na minha mente
aquelas manhãs de Janeiro
em que matavamos as saudades
das férias passadas longe,
gastanto horas no teu quarto
olhando a chuva cantar,
furando o silêncio e o calor
enquanto batia nas vidraças
da janela tornando o teu cabelo
ainda mais escuro e vivo.
Moram ainda na minha mente
todas as vezes que acordei
com a minha cabeça no teu colo,
enquanto passavas a mão
pelo meu cabelo e cantavas
baixinho para não me acordar
e eu abria os olhos para ver
as formas do fumo do teu cigarro
enquanto subia para o tecto.
Moram ainda na minha mente
os momentos em que te sentias só
e atravessavas a cozinha a correr,
para te sentares ao meu colo
enquanto eu tentava escrever,
e me abraçavas os ombros
com a tua respiração quente
a arrepiar-me o pescoço,
enquanto me dizias baixinho
que precisavas de me agarrar.
Moram ainda na minha mente
cada um desses momentos,
que uso como medida injusta
para medir todas as outras,
recordações dolorosas demais
para não apagar para sempre,
do meu coração e da minha pele,
recordações que só posso guardar
na minha mente, para te guardar
para sempre dentro de mim.
aquelas manhãs de Janeiro
em que matavamos as saudades
das férias passadas longe,
gastanto horas no teu quarto
olhando a chuva cantar,
furando o silêncio e o calor
enquanto batia nas vidraças
da janela tornando o teu cabelo
ainda mais escuro e vivo.
Moram ainda na minha mente
todas as vezes que acordei
com a minha cabeça no teu colo,
enquanto passavas a mão
pelo meu cabelo e cantavas
baixinho para não me acordar
e eu abria os olhos para ver
as formas do fumo do teu cigarro
enquanto subia para o tecto.
Moram ainda na minha mente
os momentos em que te sentias só
e atravessavas a cozinha a correr,
para te sentares ao meu colo
enquanto eu tentava escrever,
e me abraçavas os ombros
com a tua respiração quente
a arrepiar-me o pescoço,
enquanto me dizias baixinho
que precisavas de me agarrar.
Moram ainda na minha mente
cada um desses momentos,
que uso como medida injusta
para medir todas as outras,
recordações dolorosas demais
para não apagar para sempre,
do meu coração e da minha pele,
recordações que só posso guardar
na minha mente, para te guardar
para sempre dentro de mim.
sábado, agosto 27, 2005
Parabéns
Este poema é para a minha amiga Tânia, no dia do seu aniversário
Gostava realmente
que todas as manhãs
acordasses sorridente
como mereces acordar
Abraçada por braços
não te largam
e por beijos
que te desejam
Gostava que soubesses
o quanto gosto de te ouvir
mesmo quando tu não
E sei que és especial
porque o teu mundo sorri
e nem todos somos assim
Gostava realmente
que todas as manhãs
acordasses sorridente
como mereces acordar
Abraçada por braços
não te largam
e por beijos
que te desejam
Gostava que soubesses
o quanto gosto de te ouvir
mesmo quando tu não
E sei que és especial
porque o teu mundo sorri
e nem todos somos assim
quarta-feira, agosto 24, 2005
15h16m
hora exacta
medida
analisada
cronometrada
em que a tua mão
atravesou a mesa
do café
meio vazio
e adormeceu
na minha mão
um suspiro
um minuto
um desejo
um piscar de olhos
um meio sorrir
e os teus olhos
fugitivos
correram
para o lado
a mão recuou
e o minuto...
...o minuto passou
medida
analisada
cronometrada
em que a tua mão
atravesou a mesa
do café
meio vazio
e adormeceu
na minha mão
um suspiro
um minuto
um desejo
um piscar de olhos
um meio sorrir
e os teus olhos
fugitivos
correram
para o lado
a mão recuou
e o minuto...
...o minuto passou
domingo, agosto 14, 2005
momento idiota 2

Poeta apercebe-se que, ou a inspiração divina não abrange os restaurantes, ou então estava a confundir o divino com um candeeiro.
segunda-feira, agosto 01, 2005
a cama é pequena
a cama é pequena
meu amor
dormes no meu peito
os teus cabelos
perfumados
libertos
enchem o meu sono
e não consigo
dormir sossegado
a cama é pequena
meu amor
abraças-te a mim
no escuro
e os meus braços
ficam dormentes
doridos
de te segurar
a cama é pequena
meu amor
nunca mais quero sair daqui
meu amor
dormes no meu peito
os teus cabelos
perfumados
libertos
enchem o meu sono
e não consigo
dormir sossegado
a cama é pequena
meu amor
abraças-te a mim
no escuro
e os meus braços
ficam dormentes
doridos
de te segurar
a cama é pequena
meu amor
nunca mais quero sair daqui
quarta-feira, julho 27, 2005
A Esfínge
Lembro-me perfeitamente.
Como se fosse hoje.
O meu amigo Ed dava-me boleia para casa depois das aulas, uma disciplina pedagógica qualquer totalmente inútil, que nos tinha ocupado uma tarde inteira.
Nesta altura, poucas pessoas da minha turma ainda me falavam, a maioria tinha decidido que eu era um perfeito sacana por não falar à mulher que me tinha trocado por um amigo.
Falar-lhes.
Se imaginassem o esforço que foi preciso fazer para não lhes arrancar a cabeça a pontapés, quanto mais respirara o mesmo ar que eles.
Mas eu era uma esfínge.
Pura pedra. Nem um sentimento, nem um olhar.
A mesma cara de pedra morena. O mesmo nariz partido. O olhar vago em pregado em frente. E sem ninguém por perto.
Resumindo, o leproso da turma.
Há que ser justo, alguns poucos resistentes ainda me falavam, curiosamente, as mesmas pessoas que me falam ainda hoje.
Curiosamente.
Uma semana antes tinha ido tirar o Mauro do meio de uma briga e tinham-me aberto um sobrolho com uma garrafa.
Nem um queixume. Nem uma lágrima. Piropos às enfermeiras. Uma esfinge.
Nem falsos heroísmos, nem forças sobre-humanas.
Hábitos da juventude.
Voçês aprenderam a andar de bicicleta, eu aprendi a pôr o maxilar no sítio sem pestanejar.
Lembro-me perfeitamente.
O carro seguia a muralha, mesmo na curva que leva ao Rossio. Apanha-se o sol de frente, quando se faz essa curva ao entardecer. Uma luz melosa, avermelhada, que nos bate na cara depois da sombra de uma rua ladeada de plátanos.
Pisquei os olhos e a dor dos pontos fez a minha cabeça abanar.
Mas a cara era a mesma.
Uma esfínge.
Havia muito trânsito (Évora, cinco e meia, só quem cá viveu sabe) e estavamos parados.
O Ed contava-me as últimas notícias sobre a turma, visto que eu, por ser leproso, não as podia saber.
Lembro-me das exactas palavras que ele disse.
"E foi então que a Xana me disse, não sei como podes falar com o Vitor, ele nem é uma pessoa, é um animal".
Ainda disse mais algumas palavras, mas como eu não respondia olhou para mim.
Lembro-me perfeitamente da sua cara.
Espanto.
Preocupação.
Medo.
A principio não percebi porque me olhava assim.
Só quando a primeira lágrima me bateu nas costas da mão que segurava os livros é que me apercebi que chorava.
A mesma cara de pedra morena.
O mesmo nariz partido.
O mesmo olhar vago.
Mas dos meus olhos rolavam lágrimas.
Lágrimas puras, sem soluços, sem som algum.
Limpei a cara devagar, e voltei a olhar em frente.
Fomos em silêncio o resto do caminho.
Acho que o Ed nunca contou isto a ninguém.
Não que eu lho tenha pedido. Acho que para ele não é mais do que uma memória vaga, meio apagada.
Mas mesmo na altura não comentou com ninguém. Nem comigo.
Também, quem iria acreditar?
Uma esfínge, a chorar?
Mas eu lembro-me.
Lembro-me perfeitamente.
Como se fosse hoje.
O meu amigo Ed dava-me boleia para casa depois das aulas, uma disciplina pedagógica qualquer totalmente inútil, que nos tinha ocupado uma tarde inteira.
Nesta altura, poucas pessoas da minha turma ainda me falavam, a maioria tinha decidido que eu era um perfeito sacana por não falar à mulher que me tinha trocado por um amigo.
Falar-lhes.
Se imaginassem o esforço que foi preciso fazer para não lhes arrancar a cabeça a pontapés, quanto mais respirara o mesmo ar que eles.
Mas eu era uma esfínge.
Pura pedra. Nem um sentimento, nem um olhar.
A mesma cara de pedra morena. O mesmo nariz partido. O olhar vago em pregado em frente. E sem ninguém por perto.
Resumindo, o leproso da turma.
Há que ser justo, alguns poucos resistentes ainda me falavam, curiosamente, as mesmas pessoas que me falam ainda hoje.
Curiosamente.
Uma semana antes tinha ido tirar o Mauro do meio de uma briga e tinham-me aberto um sobrolho com uma garrafa.
Nem um queixume. Nem uma lágrima. Piropos às enfermeiras. Uma esfinge.
Nem falsos heroísmos, nem forças sobre-humanas.
Hábitos da juventude.
Voçês aprenderam a andar de bicicleta, eu aprendi a pôr o maxilar no sítio sem pestanejar.
Lembro-me perfeitamente.
O carro seguia a muralha, mesmo na curva que leva ao Rossio. Apanha-se o sol de frente, quando se faz essa curva ao entardecer. Uma luz melosa, avermelhada, que nos bate na cara depois da sombra de uma rua ladeada de plátanos.
Pisquei os olhos e a dor dos pontos fez a minha cabeça abanar.
Mas a cara era a mesma.
Uma esfínge.
Havia muito trânsito (Évora, cinco e meia, só quem cá viveu sabe) e estavamos parados.
O Ed contava-me as últimas notícias sobre a turma, visto que eu, por ser leproso, não as podia saber.
Lembro-me das exactas palavras que ele disse.
"E foi então que a Xana me disse, não sei como podes falar com o Vitor, ele nem é uma pessoa, é um animal".
Ainda disse mais algumas palavras, mas como eu não respondia olhou para mim.
Lembro-me perfeitamente da sua cara.
Espanto.
Preocupação.
Medo.
A principio não percebi porque me olhava assim.
Só quando a primeira lágrima me bateu nas costas da mão que segurava os livros é que me apercebi que chorava.
A mesma cara de pedra morena.
O mesmo nariz partido.
O mesmo olhar vago.
Mas dos meus olhos rolavam lágrimas.
Lágrimas puras, sem soluços, sem som algum.
Limpei a cara devagar, e voltei a olhar em frente.
Fomos em silêncio o resto do caminho.
Acho que o Ed nunca contou isto a ninguém.
Não que eu lho tenha pedido. Acho que para ele não é mais do que uma memória vaga, meio apagada.
Mas mesmo na altura não comentou com ninguém. Nem comigo.
Também, quem iria acreditar?
Uma esfínge, a chorar?
Mas eu lembro-me.
Lembro-me perfeitamente.
sábado, julho 23, 2005
Explanada
Sorri
porque o teu sorriso
é luz
E a tua voz
é quente
quanto dizes
o meu nome
Enquanto as palavras
rolam
pela tua pele
Nesta explanada
banal
onde os nossos olhos
se amam
E a curva colorida
da tua voz
diz quente
o meu nome
porque o teu sorriso
é luz
E a tua voz
é quente
quanto dizes
o meu nome
Enquanto as palavras
rolam
pela tua pele
Nesta explanada
banal
onde os nossos olhos
se amam
E a curva colorida
da tua voz
diz quente
o meu nome
segunda-feira, julho 18, 2005
Unhas
Sempre odiei as tuas unhas
unhas de menina
que não parte um prato
Bem pintadas
arranjadas
opostos da tua alma
Sempre odiei as tuas unhas
que me comiam
e arranhavam as costas
Eram marcas
de posse
linhas do teu território
Sempre odiei as tuas unhas
a batucar
na mesa do café
Quando o meu olhar
se cruzava com outro
que não o teu
Sempre odiei as tuas unhas
de menina
bem comportada
Numa mão que descia
pelo meu peito
e me arrancava a alma
unhas de menina
que não parte um prato
Bem pintadas
arranjadas
opostos da tua alma
Sempre odiei as tuas unhas
que me comiam
e arranhavam as costas
Eram marcas
de posse
linhas do teu território
Sempre odiei as tuas unhas
a batucar
na mesa do café
Quando o meu olhar
se cruzava com outro
que não o teu
Sempre odiei as tuas unhas
de menina
bem comportada
Numa mão que descia
pelo meu peito
e me arrancava a alma
quarta-feira, julho 13, 2005
Quando eu morrer
Quando eu morrer
as minhas cinzas voarão
nas asas de mil corvos
para criar uma nuvem
tão escura e tempestuosa
que a chuva que cairá
lavará o o mundo
dos pecados que deixo
Quando eu morrer
a luz brilhará finalmente
na escuridão que sou
e como um sopro
sagrado e divino
furacão dos deuses
furará a escuridão
de todas as manhãs
Quando eu morrer
amanhã ou depois
não importa pois ninguém
me pode apanhar
nesta queda livre
do inferno para o céu
vou cair e sorrir
pois a história acabou
as minhas cinzas voarão
nas asas de mil corvos
para criar uma nuvem
tão escura e tempestuosa
que a chuva que cairá
lavará o o mundo
dos pecados que deixo
Quando eu morrer
a luz brilhará finalmente
na escuridão que sou
e como um sopro
sagrado e divino
furacão dos deuses
furará a escuridão
de todas as manhãs
Quando eu morrer
amanhã ou depois
não importa pois ninguém
me pode apanhar
nesta queda livre
do inferno para o céu
vou cair e sorrir
pois a história acabou
domingo, julho 03, 2005
sábado, junho 25, 2005
Amor em Prosa II
Não há, para mim, momento mais intenso do que acordar ao lado de uma mulher de quem se gosta.
É claro que isso sou eu, outros terão outras opiniões.
Mas essa é a minha.
Acordo de coração cheio, como se nada mais existisse senão aquele corpo, aquele ser feminino cuja respiração acompanha a minha.
Costumo acordar primeiro, não é fácil dormir agarrados, e ficar a olhar, só olhar, tentar capturar aquele momento de luz divina que se liberta ao acordar.
Lembro-me de cada segundo da manhã (quase tarde, confesso vergonhosamente) em que soube o que era sentir pela primeira vez.
Já muitas vezes tinha acordado acompanhado, e julgava estar preparado para qualquer situação.
Que estúpido.
Tanto quanto eu sabia, era um teste muito simples. Ou ela me olhava, sorria e se anichava no meu peito, e ai era amor, ou então virava-se para o outro lado e continuava a dormitar, e ai eu sabia que, apesar do que ela dissesse, nada sentia.
Que estúpido.
Mas não me podem condenar, eu não sabia.
Lembro-me de cada segundo, até mesmo de me deixar dormir com a sua voz, as suas mãos no meu cabelo.
Acordei então primeiro, como era meu costume, e esperei até que ela acordasse.
Um pequeno sobressalto na respiração.
O sinal.
O acordar finalmente.
E foi então que aconteceu.
Os nossos olhos cruzaram-se nesse momento.
Não, não se cruzaram, agarraram-se.
Durante uma hora não me mexi, o mundo não se mexeu, penso que ninguém sequer respirou.
Não existia tempo, nem lugar algum, nem a noite passada, nem futuro real ou imaginado, nada para além de dois pares de olhos, a menos de um palmo de distância, completamente abraçados.
Julguei que o meu coração ia explodir.
Nunca tinha dito tanto, e no entanto, não disse uma única palavra.
Olhamo-nos por três dias, enquanto o mundo passava por nós, nas aulas, nos bares, sempre sem que eles, os outros que não sabiam, não percebiam, sequer desconfiassem.
As noites passavam sempre na esperança de acordar nesse olhar.
Ainda sonho com esse olhar.
Ainda o procuro.
Apesar de saber exactamente onde ele está.
E quem ele agora olha.
Mas ainda sonho com a manhã em que acordei para esse olhar, e soube que amar não é ter a certeza, é entregar o que somos, mesmo sabendo que se vai perder.
Mas isso sou eu.
É claro que isso sou eu, outros terão outras opiniões.
Mas essa é a minha.
Acordo de coração cheio, como se nada mais existisse senão aquele corpo, aquele ser feminino cuja respiração acompanha a minha.
Costumo acordar primeiro, não é fácil dormir agarrados, e ficar a olhar, só olhar, tentar capturar aquele momento de luz divina que se liberta ao acordar.
Lembro-me de cada segundo da manhã (quase tarde, confesso vergonhosamente) em que soube o que era sentir pela primeira vez.
Já muitas vezes tinha acordado acompanhado, e julgava estar preparado para qualquer situação.
Que estúpido.
Tanto quanto eu sabia, era um teste muito simples. Ou ela me olhava, sorria e se anichava no meu peito, e ai era amor, ou então virava-se para o outro lado e continuava a dormitar, e ai eu sabia que, apesar do que ela dissesse, nada sentia.
Que estúpido.
Mas não me podem condenar, eu não sabia.
Lembro-me de cada segundo, até mesmo de me deixar dormir com a sua voz, as suas mãos no meu cabelo.
Acordei então primeiro, como era meu costume, e esperei até que ela acordasse.
Um pequeno sobressalto na respiração.
O sinal.
O acordar finalmente.
E foi então que aconteceu.
Os nossos olhos cruzaram-se nesse momento.
Não, não se cruzaram, agarraram-se.
Durante uma hora não me mexi, o mundo não se mexeu, penso que ninguém sequer respirou.
Não existia tempo, nem lugar algum, nem a noite passada, nem futuro real ou imaginado, nada para além de dois pares de olhos, a menos de um palmo de distância, completamente abraçados.
Julguei que o meu coração ia explodir.
Nunca tinha dito tanto, e no entanto, não disse uma única palavra.
Olhamo-nos por três dias, enquanto o mundo passava por nós, nas aulas, nos bares, sempre sem que eles, os outros que não sabiam, não percebiam, sequer desconfiassem.
As noites passavam sempre na esperança de acordar nesse olhar.
Ainda sonho com esse olhar.
Ainda o procuro.
Apesar de saber exactamente onde ele está.
E quem ele agora olha.
Mas ainda sonho com a manhã em que acordei para esse olhar, e soube que amar não é ter a certeza, é entregar o que somos, mesmo sabendo que se vai perder.
Mas isso sou eu.
terça-feira, junho 21, 2005
Não sei porque dizem que custa dizer adeus
Não sei porque dizem
que custa dizer adeus
Um sorriso
Um olhar
Um movimento da mão
Um abraço
Um beijo
E pronto
estamos mortos por dentro
que custa dizer adeus
Um sorriso
Um olhar
Um movimento da mão
Um abraço
Um beijo
E pronto
estamos mortos por dentro
Hoje
Vi-te hoje outra vez e nada senti.
Senão talvez o incómodo sabor a ferrugem das lâminas que deixaste dentro de mim.
Ou talvez fosse do café, não sei.
Seja como fôr, hoje vi-te e nada senti.
Agora se me dás licença, vou para o espelho.
Tenho de treinar para me convencer melhor.
De que hoje, quanto te vi, nada senti.
Senão talvez o incómodo sabor a ferrugem das lâminas que deixaste dentro de mim.
Ou talvez fosse do café, não sei.
Seja como fôr, hoje vi-te e nada senti.
Agora se me dás licença, vou para o espelho.
Tenho de treinar para me convencer melhor.
De que hoje, quanto te vi, nada senti.
Procuro
Não procuro já vozes
de doces mentiras
cheias e perfumadas
Procuro abraços desconhecidos
onde chorar minhas mágoas
Não procuro já beijos
com sabor a framboesas
cheios de luares
Procuro sim doces bocas
onde esconder meus venenos
Não procuro já tuas formas
de curvas distintas e
estradas de perdição
Procuro sim outros caminhos
que me levem a outros carinhos
de doces mentiras
cheias e perfumadas
Procuro abraços desconhecidos
onde chorar minhas mágoas
Não procuro já beijos
com sabor a framboesas
cheios de luares
Procuro sim doces bocas
onde esconder meus venenos
Não procuro já tuas formas
de curvas distintas e
estradas de perdição
Procuro sim outros caminhos
que me levem a outros carinhos
quinta-feira, junho 16, 2005
Mentira
Para A.
Faz-me um favor.
Não me mintas.
Eu sei que o mundo te puxa
revirando-te
entre a realidade
e os teus sonhos.
Mas que pensas
tu que me fazes
sempre que me olhas
com esses olhos de feiticeira?
Então porque mente
esse teu sorriso?
Faz-me um favor
Esquece-me.
A ver se assim
eu te consigo
esquecer de vez.
Faz-me um favor.
Não me mintas.
Eu sei que o mundo te puxa
revirando-te
entre a realidade
e os teus sonhos.
Mas que pensas
tu que me fazes
sempre que me olhas
com esses olhos de feiticeira?
Então porque mente
esse teu sorriso?
Faz-me um favor
Esquece-me.
A ver se assim
eu te consigo
esquecer de vez.
quarta-feira, junho 08, 2005
Odeio as manhãs
Queria dedicar este texto aos meus amigos, em especial à Carla, à Claudia e ao Ed, que tantas manhãs como esta me aturaram em 5 anos. Um grande abraço para voçês.
Odeio as manhãs.
Mais uma noite sem dormir.
Daqui a umas horas, o Sandro vem buscar-me para irmos ao ginásio, vai fingir que não pareço um zombie, dizer umas piadas e aturar mais uma manhã de silêncio.
Vou entrar naquela passadeira idiota, virada para um espelho, e vou-me apagar completamete na corrida.
Vou-te apagar completamente.
Enquanto corro, nada mais existe. Sempre que a minha cabeça tenta funcionar, acelero. Vou acabar outra vez num ritmo estupidamente alto, com os gajos que estão nos pesos a afastarem-se de mim quando passo, totalmente rebentado, com aquele sorriso que os meus amigos chamam de tresloucado.
Não olho o espelho uma única vez, o único que não o faz no ginásio, deve ser por isso que assusto os outros. Mas eles não estão ali para se perderem e eu estou.
Eles não precisam.
Eles não se levantaram contigo na cama, no pensamento, no sonho. Uma cama onde não estás realmente, um pensamento onde só resta a tua sombra, sonhos onde habitas em momentos tão doces que só podem ser pesadelos.
A água do duche não apaga o cansaço, mas apaga a realidade.
Fazer o almoço, almoçar, vestir café.
Voltar à vida.
Para quê? Amanhã vou repetir tudo. Amanhã será esta manhã. É sempre, sempre, sempre a mesma manhã., todos os dias a mesma.
Odeio as manhãs.
Odeio as manhãs.
Mais uma noite sem dormir.
Daqui a umas horas, o Sandro vem buscar-me para irmos ao ginásio, vai fingir que não pareço um zombie, dizer umas piadas e aturar mais uma manhã de silêncio.
Vou entrar naquela passadeira idiota, virada para um espelho, e vou-me apagar completamete na corrida.
Vou-te apagar completamente.
Enquanto corro, nada mais existe. Sempre que a minha cabeça tenta funcionar, acelero. Vou acabar outra vez num ritmo estupidamente alto, com os gajos que estão nos pesos a afastarem-se de mim quando passo, totalmente rebentado, com aquele sorriso que os meus amigos chamam de tresloucado.
Não olho o espelho uma única vez, o único que não o faz no ginásio, deve ser por isso que assusto os outros. Mas eles não estão ali para se perderem e eu estou.
Eles não precisam.
Eles não se levantaram contigo na cama, no pensamento, no sonho. Uma cama onde não estás realmente, um pensamento onde só resta a tua sombra, sonhos onde habitas em momentos tão doces que só podem ser pesadelos.
A água do duche não apaga o cansaço, mas apaga a realidade.
Fazer o almoço, almoçar, vestir café.
Voltar à vida.
Para quê? Amanhã vou repetir tudo. Amanhã será esta manhã. É sempre, sempre, sempre a mesma manhã., todos os dias a mesma.
Odeio as manhãs.
sexta-feira, junho 03, 2005
Acordar
Acordei hoje e vi
senti
um peso familiar
de um corpo
adormecido
Tentei recordar
saber
o local e o tempo
em que estava
vivo de novo
Fugir ou escolher
ficar
acordaste e sorriste
doce e perfumada
luz matinal
Fiquei quieto
horas
sem te ouvir falar
só a ver-te sorrir
a acordar
senti
um peso familiar
de um corpo
adormecido
Tentei recordar
saber
o local e o tempo
em que estava
vivo de novo
Fugir ou escolher
ficar
acordaste e sorriste
doce e perfumada
luz matinal
Fiquei quieto
horas
sem te ouvir falar
só a ver-te sorrir
a acordar
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