sábado, março 29, 2008

Manhã de Páscoa

É uma cena ridícula.
Tão ridícula que poderia fazer parte de um qualquer postal ilustrado da época pascal.
São oito da manhã, oiço o rádio dizer uns escassos metros das minhas costas, na mesma direcção de onde vem a luz cortante do sol, na mesma direcção de onde nasce esta morrinha, esta estúpida ameaça de chuva cujos passos sonoros nos meus ombros incomodam muito mais do que molham verdadeiramente.
É de certeza um sonho estúpido, um ridículo masoquismo imaginado, estou numa cama antiga, afogado em cobertores, a sonhar que estou à chuva, a sonhar que espero, de costas para o sol, um sinal.
Os segundos passam intermináveis, escorrem para dentro dos minutos como a chuva que finalmente cai decidida a molhar alguém escorre pelos meus ombros gelados, mal aquecidos pelo abraço do oleado verde do meu pai, preferia estar em camisa, mas ou continuo com o oleado vestido ou volto a pé. Antes eu gelar que encharcar os estofos.
A vedação estica, lá de longe vem o sinal.
Subo a marreta bem acima da minha cabeça, é uma ferramenta antiga, que o tempo e a fome de quem a manejava tornaram quase viva, um prolongamento da minha fúria com mais do dobro da minha idade.
E simplesmente descarrego. A minha fúria saí em pequenos relâmpagos, em fugazes uniões do metal com as estacas de madeira. A estaca treme, a marreta treme, eu tremo. Por vezes a terra protesta, queixa-se de tanta violência, que mal me fez ela, atira-me pedaços de lama, mas de pouco lhe serve.
A minha mente, todos os meus sentidos, o meu próprio ser, são engolidos pela força. Ao fim de uns minutos, já nem mesmo a trepidação do embate me incomoda, nem mesmo me vou aperceber dela até ter de parar, e as mãos ainda tremerem. O próprio som do rádio se torna um zumbido apagado, uma abelha numa tarde luminosa de um Verão distante, deixaram-me sozinho com o rádio e o carro que o segura, poderia fugir, voar daqui.
Se me apercebesse disso.
Mas agora não, sou filho da força que liberto, só mesmo quando acabo percebo que estou só, e afegante, e gelado, e a própria luz da manhã me dá um pontapé nos olhos quando patino de volta para o carro.
Penso no que falta fazer e nem me sento. Fico cá fora à espera que me tragam os pobres animais, vou participar no seu sacrifício, tu morres para eu comer, vou recolher a tua vida, líquida e sólida, para alimentar as pessoas que estão provavelmente ainda a dormir.
Já voltam, perguntam-me se está feito, perguntam-me se acabei.
Sim.
E partimos então para casa, para a esperança de calor, para a morte dos seres que estão lá atrás, balindo mansamente, apreciando a viagem.
Domingo de Páscoa, 9.30 da manhã.
Vou a caminho de mais umas duas horas de trabalho, já perdi toda a esperança que seja um sonho, nem mesmo eu tenho sonhos tão estúpidos, nem penso no calor que me aguarda no fim, penso que, apesar da bela merda de manhã que vou ter, não trocava estes momentos por nada deste mundo.
Bom, minto.
Preferia ter ficado a dormir.
Mas olha, pequena fagulha de luz matinal que me corta a cara, isso já não tem remédio.


quarta-feira, fevereiro 13, 2008

esvaziamento

as palavras sobem num turbilhão
sufocadas num grito gigante
de raiva
de frustração
de ódio negro e solto
as mãos tremem tanto
quero rasgar o peito, quero magoar
quero matar
preciso partir alguma coisa
seja o que for
mesmo que seja eu

a lua ilumina segundos
depois perde-se nas sombras
as nuvens que tapam a rua escondem-me
nem as montras me vêm
tanto vidro, tanto reflexo, afasto-me da tentação
não são eles o meu alvo
preciso quebrar
preciso de um alvo


o ódio enche-me a boca
enche-me todo o corpo, na noite fria suo ódio
destilo raiva negra e envolvente
já na noite escura uma linha de pilares espera-me
aprecio a metáfora
e mergulho na sua direcção
voam membros descontrolados
os cães lá longe uivam a minha dor

respiro com o peso de todo o meu corpo
cada molécula de oxigénio arrancada à força da paisagem
a descarga de adrenalina é tal que as pernas ainda me tremem
os nós dos dedos sangram os restos da noite odiosa
e soltam-nos no cinzento pavimento
mal consigo segurar as chaves, já a porta é que me segura
mergulho num mar de flanela, meio despido,
com a paga em dor atirada por todo o corpo
e mergulho no abençoado esquecimento
vazio
total e completamente vazio
e o silêncio cai, numa imitação de paz que, sinceramente
chega perfeitamente

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

opiniões

Disseram-me hoje que não existe dia mais feliz como o primeiro dia de amor, que passamos o resto da nossa existência a procurar essa primeira onda de sentir, esse primeiro sol explosivo que nunca mais conseguimos igualar.

Que estupidez tão grande.

Amei de verdade quando passaste por mim, os cabelos mal secos presos na nuca por dois lápis, uma quase gueixa num pijama de flanela largo demais, a tua pele mal escondida por um céu azul platinado em forma de roupão farfalhudo, a sala cheia do cheiro a café com leite e torradas com mel, um cheiro a maçãs instalava-se na secretária junto aos livros sempre que soltavas o cabelo, maldito seja a merda do champô que ainda hoje me atinge o peito a pontapés, quando passa por mim corta-me a cara como se fossem facas.

Amei a sério quando beijar-te ao acordar não era mais que um reflexo, uma necessidade maquinal como respirar o mesmo ar, ou sorver a luz dos teus olhos, um passo que não tinha nada de pensado nem de obrigatório, mas que acontecia mesmo assim, porque assim estava desenhado no plano do dia com lápis de ceras coloridos em papel de cinza crua.

Amei mesmo quando discutíamos, e tu, pequena tempestade, ficavas vermelha como o sangue que te enchia os olhos e a paz do teu rosto se transformava em morte, em morte minha, e os teus rugidos e chuvas e trovões e ondas embatiam nos meus rochedos, sempre recuando e sempre voltando a bater, imensidão de raiva e fúria que em chuva se desfazia, e reconstruia todas as paredes e telhados que fizéramos antes, só para nós.

No primeiro dia gostei, mas a amar, aprendi com o voar dos dias, até que voavam depressa demais , como se cada momento passado juntos fosse apenas uma migalha de calor, um pequeno corte de um lâmina de luz, uma pegada de cor, uma pequena nuvem de cor num imenso céu azul.

No primeiro dia é que se ama...

Sua besta.

segunda-feira, janeiro 14, 2008

advérbios de modo

sim, beijei, mas não por sentir realmente que beijava, ou que sentia o que o beijo realmente transmitia
beijei pelo passo mecânico que levou ao resto do corpo, porta que tinha de passar para acordar nos teus braços, fase normal da dança dos corpos
beijei e o teu corpo subiu, eléctrico, pelos meus braços, como sabia que subiria, sabia o que fazia, beijei e as minhas mãos navegaram pelas tuas costas
senti o que calor que libertavas na tua respiração, como um pequeno dragão a libertar o primeiro fogo, suspiras quando os dedos gelados percorre a curva da tua coluna, conto mentalmente l1 l2 l3 l4, estúpido mecanismo de controle, porque me controlo eu quando estou aqui nos teus braços, porque não me esqueço realmente de sequer pensar, mas penso e controlo, penso em controlar, pedes que te abrace e sinto o teu corpo vergar no meu abraço, sorris e conto advérbios de modo, de modo a não me perder de repente, a não fugir totalmente de mim
sorrio de volta
de repente escapas, rindo alto demais, bates as asas e voas para longe, atiras uma careta por cima do ombro, estico o braço tarde demais, não te agarro, e soltas um pequeno grito de troça, de propósito para estreitares os meus olhos, desafias-me com as mãos no chão, lanças outra careta e de repente lanço-me no ar
sei o que faço e rodo no ar, bato no chão a seco, sinto o frio do choque atravessar a carpete do quarto e entrar-me como garras nas costelas, mas sigo e rebolo, reflexo adquirido, pavlov ia ficar orgulhoso, nem preciso pensar para o fazer, damos uma duas voltas meia volta, bato, acho que no armário e paro
respiramos pesado ao mesmo tempo, a mesma música, o mesmo tom
tens a cabeça presa entre a minha mão e o meu ombro, as asas nos teus olhos passam de medo a fome entre duas batidas de alma aclarada pela adrenalina, sobes por mim, como não sei, estava a prender-te, e beijas, soltas uma chama imensa de tristeza e fúria, uma nuvem passa entre os lábios, a velocidade descontrola-se, estamos já de pé, não te solto, prendes a minha cara entre as mãos, os teus pés penduram a um palmo do chão, um turbilhão de calor envolve-nos, sinto o sangue aos pontapés no meu peito, os minhas mãos tremem enquanto tento controlar o que faço, voltar ao plano, uma garra de gelo para no meu peito e o mundo explode em escuridão, mil tons de sombra envolvem a nossa respiração

faz frio, a noite está gelada e dormes demasiado junto a mim para eu conseguir dormir, fico a olhar o espaço, sei que amanhã não me vou mexer sem dores, mas olho o escuro e recordo, comparo, é injusto mas que me importo eu com justiças agora, pareces um pequeno tigre adormecido, pequenos caracóis de cobre cobrem a tua cara, o teu corpo mal mexe, adormeço com as primeiras luzes, quando o cansaço vence os fantasmas e a dor de não mexer

os teus olhos traem-te
mesmo de costas, enquanto me seco e visto, sei que olhas e esse olhar trai-te
tens medo
pequena gata medrosa, tigresa enterrada em cobertores de onde apenas os teus olhos saem, meio escondidos, quase de propósito, nesses cabelos que a manhã faz parecer serem feitos de ouro
tens mesmo medo
levanto-me, tento disfarçar a chapada de dor que levo só de respirar, sorrio porque sei que tenho que sorrir, beijo-te a testa, beijo-te os lábios, agarras-me as mãos, digo qualquer coisa, sorris aliviada, fecho a porta como pediste

porra, faz mesmo frio cá fora, a claridade troça comigo enquanto navego dorido para casa para ao menos mudar de roupa antes de ir trabalhar, para ao menos não parecer totalmente que não dormi

os teus olhos traem-te, ficaste a pensar
não sabes o que fazer
pensas demais
olha, conta advérbios de modo
comigo resulta





sábado, dezembro 29, 2007

marca

Só falo nisto porque é uma situação que não me deixam esquecer, como se fosse um sinal marcante da pessoa que sou, uma história que me descrevesse totalmente, aquela história que os meus amigos usam como alfinete para as ilusões alheias sobre a minha pessoa.
Acho impressionante que até pessoas que na altura me conheciam mal, para quem eu era aquela sombra de fogo que fui nos últimos tempos de vida do meu coração, saibam essa história tão bem ou melhor que eu, que lá estava... bom, estava e não estava, mas a isso lá chegaremos, o que interessa é que a sabem com pormenores que a mim me escapam, muitas vezes embelezados, como se de um mito se tratasse, uma qualquer batalha mitológica entre seres inumanos, cujo poder escapa à compreensão humana.
Lamento desiludir, mas tudo foi humano, tudo foi tão estupidamente humano, duas palavras teriam evitado essa marca, assim como meses de olhares murmurados e de vozes apagadas pelo chão. de conversas paradas a meio.
Por vezes uma pessoa bebe demais e não se lembra logo do que fez, a recordação demora a vir à tona, mas acaba por vir, puxada pela luz e puxando o remorso, mas este não é o caso, não me lembro mesmo.
Não me lembro.
Sei que falava com a Dulce, falava sobre a Ana, era sempre a mesma merda da mesma conversa, sempre a dificuldade em compreender de quem se encontra no meio, de quem quer o equilíbrio de volta ao seu mundo perfeito, ao seu grupo do café. E eu, a habitual estátua, já tinha metido o queixo para a frente, já ela desistia, já todos dançavam na sala ao lado, quando aconteceu, e o Mauro foi tentar parar.
Vamos ser bem claros. Não me podia importar menos a dor alheia, mas fui lá buscar o Mauro. Nem mais nem menos.
Alguma coisa partiu em cima de mim.
Ouvi gritar, só dias depois soube que tinha sido a Dulce, ficou assustada, nunca me tinha visto cair, tentei levantar-me, e senti-me dormente, um pé na cabeça tirou-me logo essa ideia estúpida da cabeça, tentei levantar-me outra vez e vi os olhos em mim, e não percebi.
Juro que não percebi.
Vi a mancha vermelha escorreu sobre o meu peito, demorei uns bons três, quatro segundos a perceber de onde vinha, vinha de mim, e de repente partiu.
Qualquer coisa em mim partiu.
Chamem-lhe o que quiserem, não me lembro e pronto.
Sei o que fiz porque me contaram.
E não fiquei propriamente orgulhoso, a vergonha e o alívio tomaram conta de mim, em partes irmãs e iguais, como se caminhassem de mão dada, nos dias seguintes senti que de dentro de mim tinham vertido todas as dores, que nesse momento de dor tinha purgado, como se de uma sangria medieval se tratasse, todos os males que em mim escorriam, que tinham vertido por essa ferida.
O que me lembro bem foi do medo que vi quando voltei a mim, o medo que vi naqueles olhos que me rodearam, medo por mim e não de mim, medo do que fui nesses instantes.
Medo que o mal que fui ali apagasse o Vitor que me tinha tornado.
Não sei sinceramente o que fiz.
Sei que tudo o que me contaram me parece exagerado, como se me tivesse dito que tinha voado, que de mim tinha saído uma luz e pago todas as despesas.
Sei que destrui, magoei, a mim e aos outros.
Preferia não ter essa marca.

terça-feira, dezembro 04, 2007

Faz assim...

Hoje uma colega de trabalho, conhecedora do monstro que fui, testemunha das florestas de braços erguidos que queimei, transpôs os poucos metros que nos separam e disse-me, numa voz envergonhada e meio sumida, como se a pessoa que realmente é a quisesse impedir de dizer as palavras que da sua boca partiam para o mundo.
Vitor, ensina-me a destruir uma pessoa.
Aparentemente, a surpresa no meu rosto trouxe consigo uma máscara de dúvida, um simulacro de sorriso a tentar levar o pesado silêncio do demasiado cedo para pensar em seja o que for, e tentei aprofundar a questão, não fosse mais uma idiotice cor-de-rosa, mais uma perda de tempo enjoativa e açucarada, das que formam os rochedos das horas de almoço partilhadas com as colegas, rochedos que é preciso navegar cuidadosamente para se sair, depressa e bem, sem um arranhão.
A questão era, aparentemente, tão séria quanto uma questão do coração poderia ser, ou seja, completamente e quase nada, mas a meio da explicação, que poderia ter sido resumida nas frases que tudo do amor resumem, eu quero e não tenho, há quem tenha e quero tirar, preciso e não sei como apanhar, pensei para comigo.
Espera.
Repete lá.
Vitor, ensina-me a destruir uma pessoa.
O choque do punhal atravessou-me a coluna, como só um punhal de fonemas construido é capaz, e quedou-se pendurado, dançando como uma nuvem no céu, entre a minha mente e o meu espanto, aterrando na minha raiva e furando a revolta.
Porquê eu?
Porque que raios me pedes isso.
A resposta veio célere, a seta seguiu o punhal, e as lembranças doeram mais como qualquer outra avalanche, merda das avalanches, são sempre assim, enleou-me as ideias, uns pontapés pelos dentes, e o já famoso olhar pensas que me enganas mas eu estava lá e vi as cinzas dos fogos, cheirei a destruição no vento da tua voz, esse olhar conheço eu muito bem e calei-me, quem tem razão tem razão, mesmo quando é uma razão do passado.
E é isso que queres?
Não, não é isso.

Quero ganhar.
Claro que queres, quem não quer, bom, para ser sincero talvez não queira porque sei o que fica do outro lado da montanha que criamos no nosso interior, mas sei que tu vais perder algumas noites a pensar, a soltar o arrependimento pelos caminhos do talvez, a tentar ver se existiriam outros meios para atingir o fim que contigo se deita e que tão bem ganhaste.
Mas olha, fofa, que se lixe, quando é que eu medi as consequências dos meus actos?
Faz assim...




quinta-feira, novembro 15, 2007

de marcação

cheiros e sabores
pégadas nos sentidos
que me atraem e repelem
para o teu nosso corpo

lábios e dentes
demarcas o que te pertence
as partes de mim
que na noite chamas tuas

dormir de olhos abertos
porque na noite escura
a ausência de luz ilumina
a luz dourada dos teus olhos

acordar de olhos fechados
só para não misturar já, já
o perfume iluminado da manhã
com o o vapor da tua respiração

terça-feira, novembro 13, 2007

terça-feira, outubro 16, 2007

trovoada

a adrenalina sobe, é ela o meu verdadeiro e único vício, a aquela corrida do sangue contra as paredes do corpo

sou de ferro, sou uma parede de carne e gritos que puxa os raios que rasgam o céu, sorrio como não sorrio sem os trovões, o prazer sobe o meu corpo, estou completamente eléctrico, a luz que ao meu lado conduz o carro olha-me como se fosse louco, meio de espanto, meio de medo

abro os braços para tentar caçar o vento, as minhas garras rasgam o tablier do carro da luz, apetece-me partir tudo, quero destruir alguém, preciso matar rapidamente, sentir o sabor salgado do sangue nos olhos

quero porque quero, sou verdadeiramente eu, agarro a chamada com as mãos a tremer, a voz dela diz-me que não haverá sexo hoje, o meu corpo quase explode a cada raio que parte o céu, a luz há muito caiu, mergulha a cidade na minha escuridão, tu e eu somos um só, cospes os teus raios pelos telhados

o vento trás o cheiro a chuva e eu estou parado na absoluta e completa escuridão, começam as lanternas e as velas a aparecer pelas frestas das janelas, cobardes medrosos, cortam as tuas dádivas com facas de luz, preciso gritar e afasto-me, o grito é rouco e trás mais noite, e mais escuridão e mais raios, e finalmente as lágrimas em forma de chuva

quero mais , mas ela passa e afasta-se, o vento fica com a chuva, mas sabe a pouco, quero mais raios, mais destruição, saborear um pouco mais o medo dos outros misturado com o meu prazer,
a luz volta e retiro-me, o corpo ainda treme

a trovoada parte, o sorriso idiota de quem acabou de amar, fica até de manhã

sexta-feira, setembro 14, 2007

r 23

nem no chão caminho
nem com asas me sustento
nem na alma acredito
nem o toque me aquece

marcada na carne faço
esta última sentinela
esfinge que espera no céu
pela subida das sombras

estátua de sal
tigre de cartão
homem de lata

terra descoberta
pelo toque recente
da chuva do final da tarde

segunda-feira, setembro 10, 2007

medo

medo

se a alma existisse
alimentava-se de medo
o medo leva à fúria
à raiva
à mentira

se a alma existisse
era essa satisfação cruel
que nos enche o peito
e nos faz sorrir
quando fazemos
criamos
causamos

medo

esse depravado prazer
temperado com lágrimas
dos outros
que cercamos
que matamos
que enganamos

medo

medo deles
medo meu
muito
muito

medo

sábado, agosto 25, 2007

para aqueles que vivem na luz, os que vivem na escuridão são apenas sombras

segunda-feira, julho 30, 2007

Passaram muitos anos... bom, não foram assim tantos, mas vão-se acumulando e as pessoas que me conhecem insistem que me marcaste, que alguma coisa fizeste que me impede de amar, de sentir, de dar aqueles pequenos passos em frente a que normalmente se chama ternura.
Não sei se é verdade.
A minha voz da verdade, olhando-me do outro lado do copo de sangria, diz-me que procuro, que procuro ela não sabe, por isso é ela a voz da verdade, a verdade é que eu também não sei, nem sequer acho que realmente procuro.
Digamos que espero.
Sim, mas que espero eu?
Espero por ti?
Não, não espero por ti, nunca esperei por ti, nem no primeiro dia do fim guardei a mais leve esperança ou ânsia.
Será isso? Será que espero pela esperança?
Eu não sei.
E sendo realmente sincero comigo, olhando a minha ausência nos olhos, não me importo com isso. Não gasto uma merda de um segundo a saber o que aguardo.
Sei que virá, repentina como a manhã.
Sei.
E até lá espero.

segunda-feira, julho 09, 2007

se fosse sincero dizia-te o quanto me apetece matar-te
usar esta pedra no meu peito, negra e suja de sangue
para destruir a luz dos teus olhos, apagá-la para sempre

se fosse verdadeiro terias verdadeiramente medo de mim
saberias que nos meus olhos se escondem os passos escuros
as garras afiadas de quem te quer esmagar o pescoço fino

se eu fosse realmente eu quando eu estou contigo
verias o sangue dos teus lábios a bailar nos meus
o meu riso a aumentar com o medo dos teus olhos

se um dia eu amanheço como eu sou mesmo
beberei os tuas lágrimas misturadas com o teu sangue
desfarei o teu corpo por entre os lençóis da tua cama

apetece-me estragar-te
destruir-te
desfazer-te
amar-te

domingo, junho 24, 2007

Quase.

Já quase me tinha esquecido a que sabe uma pele, qual o sabor do suor de alguém que adormece nos nossos braços, já nem mesmo o peso doce de uma colher cheia de luz a dormir encostada a mim passava senão de uma vaga memória.
Tentei navegar calmamente esses oceanos de memória, forcei os meus dedos a não tremer, acho que não tremeram, sei que se tremeram não me importo realmente.
Os teus caracóis repousam no meu ombro como se de vinhas numa parede partida se tratassem, pequenas trepadeiras sufocantes de vida numa pele muito marcada, onde deixaste a tua marca, pelo sim pelo não, só porque podias e passaste por lá, pequeno graffiti rasgado com a ponta da unha.
Só sei que estou vivo quando entro na cozinha, a luz das 6 da manhã, aquela luz que ainda nem é luz, é um embrião de luminosidade, atravessa o balcão de uma ponta à outra, bate-me na cara, entras e beijas-me o pescoço, roubas uma torrada e ris alto demais, olhando por cima do ombro na tua fuga pelo corredor.
Acho que vou chegar atrasado, já me esperam quando chego a casa, parto logo, sentado lá atrás, o mundo é ruído de fundo, até a luz se desvanece, não estou realmente no carro, estou a lembrar o momento, aquele exacto momento em que me lembrei do que quase tinha esquecido.
Quase.

quarta-feira, maio 09, 2007

Os carros passam silenciosamente, deixando tiras vermelhas de quando passam por mim. Vou de cara pendurada, olho as estrelas no gelado céu da noite de verão, penduradas, esperando, olhando silenciosamente os carros que passam.
A noite é um espelho, silencioso e escuro como alcatrão, muralhas de árvores impedem os olhos de se perderem na paisagem sem lua, a adrenalina escorre das colunas, a batida faz as respirações acelerar, faz o carro acelerar, faz o mundo acelerar.
Só eu, pendurado da janela, permaneço imóvel.
Todo o carro arde, sente-se o calor, a fúria inflamada faz todos no carro arder, só eu sinto o ar gelado que entre às golfadas pela janela aberta. Os lábios torcem-se nervosamente, as conversas são curtas, todos guardam cada grama da sua fúria, todos a atiçam, para que arda mais e mais e mais.
Porquê?
Serei mais calmo?
Mais velho?
Mais sábio?
Não, não sou melhor nem pior que estes corpos furiosos que acompanham o meu.
A minha fúria ardente, onde está, para onde foi, será que a perdi? Será que já não sou aquela chama de fúria, de calor e energia?
É nisto que penso quando o carro para subitamente, é este o meu verdadeiro medo, não a dor, não os outros, nunca, nunca os outros.
Todos saímos, e avançamos calmamente, e então reparo.
Já passei por isto antes, já sei onde estou, não mais estou perdido.
Não ardo de fúria.
Quem arderia estando aqui, num sitio familiar, rodeado do que conheces?
A minha fúria, se é que é fúria é gelada, temperada com um contentamento imenso, uma antecipação de quem volta de uma longa viagem e está em casa.
Vai começar.
Estou em casa.

quinta-feira, maio 03, 2007

chove porque eu peço

Oiço as pessoas, escondidas nos cafés, presas nas paragens cheias dos transportes públicos, encravadas debaixo de longas filas de guarda-chuvas, protegidas, fugidas desta chuva fria que cai torrencial que vem cortar um começo promissor de sol e calor...
Porque chove, que vem esta chuva fazer aqui, lembrar-me do inverno escuro na véspera do luminoso verão?
As suas vozes não me interessam , só me fazem sorrir de desprezo, nascido de um contentamento imenso como o cinzento das nuvens que me despejam as suas dores pela cara, pelo cabelo, pelas pontas dos dedos.
Esta chuva cai porque eu preciso dela, porque a pedi no meio da noite escura e sufocante, do suor e da culpa. Ela cai finalmente, são paredes de facas geladas que caem do céu, que me cortam o medo, que me separam das correntes que me prendem, chove e estou cá fora, o vento acorda-me os sentidos, levanta a alma que não tenho para o céu em que não acredito, faz-me sorrir de alivio e fúria.
Sinto a respiração do fumo,sinto o cheiro da vida, a terra encharcada que bebe a chuva tão ansiosamente como eu.
Mas, mais que tudo, abro os olhos lavados, estou rodeado de cores novas, lavadas, limpas, e sinto a sua força como se tocasse os ásperos óleos de um quadro renovado, brilhante.

Mas mais que tudo... mais até que a chuva e o vento... eu sinto.

O meu coração bate de novo, os meus olhos estão lavados, eu sinto.

EU SINTO!

E choveu porque eu pedi.

quarta-feira, abril 18, 2007

neutro

uma pedra lisa, raspada, polida pelo uso
uma lâmina romba, que perdeu o fio
um espelho embaciado, rachado
um disco riscado, empenado

será que este bater compassado
que já nada afecta
que já nada acelera
será que sou mesmo eu

uma recordação esbatida
um vapor suspirado
num passado já quase esquecido
já quase uma vaga lembrança

onde está o monstro
para onde escorreu a fúria
em que sono perdi o sonho
não passou assim tanto tempo

quando foi que te toquei
quando foi que te vi e abracei
já não me importo
nem com isso
nem com nada



domingo, março 18, 2007

prisão transparente

Atiro-me contra as paredes de vidro
desta masmorra luminosa e quente
demasiado desesperado para temer
demasiado assustado para parar

O meu corpo, o meu espírito,
todo o meu incompleto eu
desespera por ar, desespera pela chuva
por ficar de novo cativo do vento nas árvores

Atiro-me novamente
banhado em sangue e suor
demasiado estúpido para desistir
demasiado cansado para respirar

O meus músculos tremem
o ar rasga-me a garganta
embato novamente nas paredes de cristal
sinto os ossos ranger
mas a transparente muralha nem se mexe

Olho parado o exterior
reparo agora
o vento navega pelas copas das árvores

tomo balanço e atiro-me novamente

terça-feira, janeiro 16, 2007

no nevoeiro

Matava por um cigarro, a noite está gelada,
o nevoeiro abraça todas as formas, distorce a noite num abraço apertado,
forma pequenas lágrimas geladas no meu cabelo, na minha cara

As recordações rodeiam-me, neste caminho mal iluminado,
aproximam-se como lobos, vejo os seus olhos vermelhos no limite da luz
vejo as suas formas disformes, as suas presas esfomeadas e sorridentes

Muitas noites passadas aqui, neste nevoeiro gelado
escondido num portal escuro, afastado das luzes, afastado das almas.
espero a altura de abrir as grades, de soltar a torrente de raiva, a fome de sangue

As minhas mãos tremem, não tenho cigarros, o cabedal das luvas rangem suavemente
o vulto à minha esquerda respira o sinal combinado,
o resto dos vultos mexe-se suavemente, não têm olhos, só têm braços, só têm corpo

abro suavemente as grades, abandono a um canto a máscara
vejo o sangue cobrir-me os olhos, a cara, as mãos
e sento-me dentro de mim, sossegadamente, a ouvir o eco
dos barulhos soltos
no nevoeiro

sábado, dezembro 30, 2006

pormenores 3

neste mundo de infinitas chamas semeadas
que a tua voz plantou neste meu caminho
pelas sombras me perdi, devagar, devagarinho

procurei sem olhar, sem ver, sem ouvir
neste nó de infinitos crepúsculos
um só amanhecer de perfeição construído

pelas pontas dos dedos me guiei
entre abraços espinhosos e beijos envenenados
até adormecer nas tuas asas negras

e de dentro dos teus olhos nasceu
essa luz perfeita que nasce da fé inabalável
de quem nunca viajou pela escuridão

segunda-feira, dezembro 18, 2006

pormenores 1















os meus olhos estão já habituados à ausência de luz no meu interior
e saudam todas as manhãs da minha vida com a mesma estranheza amedrontada
o meu sorriso são as barras que em mim prendem
todos os gritos, todas as lágrimas, todos os beijos

mas o pôr-do-sol, esse já me conhece bem
é um sonho que me arrasta
um chamamento imperfeito, feito de sons roubados ao dia
um empilhar de recordações

enrolo-me dentro de mim e adormeço
com um cobertor de escuridão melosa e fria
como um abraço de alcatrão gelado e amargo
como os meus sonhos realmente são

sexta-feira, dezembro 08, 2006

absolutos

Está um gelo absoluto nesta gloriosa e luminosa manhã, a luz corta-me a cara com as suas lâminas geladas, tento sair do teu abraço adormecido sem te trazer comigo para o dia, prefiro deixar-te adormecida, quente moldura de caracóis negros que me chama de volta para a cama, enquanto me arrasto para a água.
Já estou completamente acordado quando entro novamente no quarto, dentro de mim tenho já o cheiro a pão e café, tento ser absolutamente silencioso enquanto me mexo, beijo-te o pescoço para que me acompanhes, e saio para o exterior cinzento e cheio, para o mundo de barulho que me rodeia, bate-me na cara, quase que me magoa depois do silêncio, do nosso silêncio.
O frio abraça-me e puxa-me para os movimentos automáticos, acho que o filho da puta me conhece só de me ver sair, passo a língua pelos lábios e respiro fundo, guardo-te nesse enorme espaço que tenho dentro de mim, num canto escuro e confortável e parto, parto para as horas do apagamento.

Entro em casa e trago comigo o frio, tenho as mãos tão rijas que nem consigo desapertar os botões do casaco, quando começo a irritar-me a sério apareces do nada, como um vento quente que cheira a maçãs, beijas-me as mãos e tiras-me o casaco, estilhaças o gelo com o teu sorriso, acho que só sorrio por te ver sorrir, não me lembro sequer se antes sorria.
Sento-me e vejo-te voar, como um vapor de negros caracóis e oiço, pela primeira vez oiço verdadeiramente as primeiras palavras deste dia quase noite, e desenho-me de novo, tu desenhas-me de novo, depois das horas do meu apagamento.
De repente paras, como se te lembrasses de que estou ali, olhas-me e sorris, um sorriso largo como o horizonte, e eu sorrio de volta, puxo-te para mim e beijo-te o pescoço.

Não sei, acho que é este o meu absoluto.

segunda-feira, novembro 13, 2006

olá

energia
todo o teu corpo é um eléctrodo
propagas corrente pelas minhas mãos
como um cataclismo de luz
como se o sol
farto de esperar por mim
me esperasse já na porta
e me comesse os lábios
antes de me deixar sequer entrar

sobes
enrolas-te pelo meu corpo
como uma serpente alada e suave
e arrancas-me a alma com doce perfume
envenenado pelos teus beijos
arrasto já os corpos pelo chão
numa direcção que nem sei bem

paras
olhas-me sorrindo
deixas-me respirar um momento
fechas a porta com um pé
arrancas os meus olhos com os teus olhos
e dizes-me olá
e chamas-me teu

terça-feira, novembro 07, 2006

atracção

Nunca sei bem o que te digo, as palavras pulam simplesmente na tua direcção, como se fosses um íman para o que digo, para o que vejo, para o meu corpo.
Torno-me um espectador ausente, como se dormitasse num cinema, apenas me apercebo do mundo através de grandes imagens coloridas, gigantescos quadros de óleo, enormes telas vivas e quentes narradas pela tua voz gotejante.
E a tua mão agarra minha.

Desperto debaixo de uma chuva infinita e negra, que cai da noite como pedaços de alcatrão gelados, parado à porta da tua casa, a tentar agarrar o calor da cama ao meu corpo, a tentar lembrar o teu cheiro na minha cara antes que se misture com as lágrimas das nuvens.

O primeiro passo é o mais difícil, mas o peso do sono empurra-me para a calçada e avanço por puro hábito de fazer o caminho de volta, o serpenteante caminho de pedra que me leva para um dia de névoa cinzenta e outras vozes.
Mas que leva também, quase que rezo enquanto ando, de volta para as tuas mãos.

quinta-feira, outubro 19, 2006

olho as tempestuosas mãos como se nelas residisse realmente a minha salvação, como se pudesse rasgar o celeste cobertor cinzento de chumbo derretido e arrastar-me para o escuro conforto que reside detrás do céu

acho que só mesmo a chuva que cai me salva, deve ser de estar tão encharcado, nem sei se tremo de frio ou de coragem, tenho tanto sentir acumulado que tremo quando ele sai, quando a chuva me escorre das pontas dos dedos e o vento me enrola e dança comigo

sou uma pedra que anda, sou uma estátua flutuante

e não sei realmente o que fazer quando a barragem rebenta, quando as lágrimas que das nuvens caem me entram pelos olhos e puxam as minhas para o ar frio, ambas se misturam e me gelam a cara, parece que choro facas e respiro espadas, parece que os meus pulmões se enchem do sangue que me gela no copo todo

sou uma pedra que parte, sou ...

sei lá eu o que sou

sou um gajo encharcado, gelado e partido, e só me quero meter num mundo de vapor e lágrimas quentes e confortáveis com que o chuveiro me vai envolver, assim que chegar a casa

e aí, nos teus abraços, não me importo de não existir

domingo, outubro 15, 2006

mãos geladas

Consigo saborear no ar que o teu beijo deixou nos meus pulmões aquele doce cheiro a vingança que aparece na noite, misturado no sabor gorduroso a morango que o teu baton plantou pela subida do meu pescoço até à minha boca.
Tens as mãos geladas, arrepias-me a pele quando me tocas o peito, que estranha mistura esta, as minhas costas suam, quase que tremo da mistura entre o frio e o nervoso, tenho medo que descubras que já perdeste, que já te puxei para mim, tenho medo que olhes à volta e descubras que já navegámos da sala para o quarto.
Os teus caracóis soltam-se quando te envolvo a cintura com a mão e te levanto, ris de espanto e de prazer, pareces uma criança que descobriu um baloiço, não te deixou logo, fico a segurar-te assim, em pleno ar, olhos nos olhos, as tuas mãos seguram a minha cabeça, sou real e o teu sorriso acredita, ainda tens uma ponta de riso pendurada nos lábios, passa uma eternidade, passam duas, quase que passam três quando saltas e me sugas a alma com um beijo.
Já não tens as mãos geladas.

segunda-feira, outubro 09, 2006

poema 43

sinto-me desenrolar
como um novelo que rebola lentamente pelo chão
tingido pelo sangue que me falta

sinto que me perco
que perco quem sou, que me vou erodindo
como uma pedra na praia

às vezes nem sinto nada
nem sei bem quem sou quando acordo
venho de um mundo que nem me lembro

nem sei se devia sentir
ou se me lembro bem como se sente
devia ter escrito o caminho de volta

só sei que me perdi
e que continuo a perder-me mais
tanto que já nem me lembro
de onde parti

quarta-feira, setembro 27, 2006

A caminho do trabalho

A luz da manhã brilha gelada nos teus olhos cor de lágrimas, torna os teus cabelos negros ainda mais verdadeiros, como se de um novelo de lã se tratasse.
Neste exacto e medido momento sei que te amo, isto que explode no meu peito só pode ser amor, o desejo eu conheço bem, e esta dor de precisar ficar preso a ti é nova para mim.
Puxas-me para a luz quando nos afundamos nos lençóis, o teu nariz brinca no meu peito, as tuas unhas arranham os braços, é o meu corpo que te protege da luz líquida que entra a escorrer lentamente pelo quarto, mas para mim a luz é tua, é como agarrar um sol entre os braços.
Enquanto me calço escondes a cabeça debaixo da almofada, resmungas-me palavras inaudíveis, copiadas de antigos cantos de sereias, tentas arrastar-me de volta para a cama, a manhã está gelada e nem mesmo a fogueira do teu corpo me aquece as mãos.
E parto sorridente na direcção da servidão, só porque sei que podia ficar, e porque acho que te amo, mas de certeza que me fazes sorrir, até nesta manhã gelada de promessas cinzentas, e acho mesmo que te amo, mas de certeza que me cativaste, diria a sábia raposa, mas já perdi a capacidade de falar, ficou contigo a minha palavra, e só sorrio baixinho para que ninguém repare e me roube esta quase certeza, roubando-me um porquê.
Acho que te amo.

sexta-feira, setembro 15, 2006

alguns de nós

alguns de nós
que caminhamos perdidos neste chão
não tivemos a sorte
de ser filhos de Deus
descendentes do cruzamento
entre um pedaço de barro e uma costela

alguns de nós
nunca tiveram uma proposta
uma daquelas mesmo concretas
para vender uma alma que não temos
a um diabo que não existe
fora do nosso peito

alguns de nós
tivemos de nos construir do nada
como uma barraca de lata e contraplacado
só para ter um templo
nosso e de mais ninguém
onde acreditar é voar

alguns de nós
acreditam em vocês todos os dias
e abraçamos, e agarramos, e embalamos
os vossos corpos doridos e olhos vermelhos
nos dias em que os vossos vapores
não ouvem as vossas vozes

terça-feira, setembro 05, 2006

marcas

deixas-te marcada no meu peito
as marcas da tua passagem
pegadas eternas
numa praia sem mar

ainda oiço nas vozes que passam
ecos daquela tua canção
que inventaste uma noite escura
só para me embalar

os meus olhos ainda pesam por vezes
dos beijos que lá plantaste
como nuvens de flores que nunca crescem
nem são levadas pelo vento

até a minha respiração aguarda ainda
a rodopiar no meu peito
à espera que a venhas beber
com os teus lábios sedentos

segunda-feira, agosto 21, 2006

luz

Acho que és feita de luz
pelo modo como ela se reflecte casualmente
ao longo do teu pescoço,
dos teus cabelos,
do teu sorrir.

Mordes o lábio de baixo,
pequena menina num mundo de verde,
como que para o suster num sorriso solto,
num sorriso oferecido
com vontade,
com luz.

Amanheces de cabelo solto,
tão inalcansável, tão fugaz, tão livre e distante,
como a luz, amor, como a luz.

Vou ver se te apanho,
prender talvez num espelho, ou nos olhos,
nos olhos não, já me perdi nos teus.

E na luz me perco,
sorridente,
porque sei que és tu.

segunda-feira, agosto 14, 2006

canção dos caídos

sei o que os meus olhos olharam
naqueles dias em que ainda via
em que lambi as nuvens de cinza
do fogo que então ardia em mim

carreguei caixas de madeira escura
para covas de terra a cheirar a chuva
enterrei pedaços queimados de mim
debaixo de cada tampa de pedra

não há mais fogo nunca mais
não há mais lágrimas para dissolver
nem mesmo a dor me embala o sono
e as recordações do riso e do sol
são sombras no nevoeiro sonhado

é por isso que canto esta canção
aos que caíram e partiram à frente
guardem aí o meu lugar, irmãos
nessa mesa de dores e sangue e saudade
que em breve também eu terei
um barco de madeira escura
debaixo de uma tampa de pedra

terça-feira, agosto 08, 2006

sem asas

Sem asas é mais fácil amar
Sem asas é mais fácil voar

Sem asas é mais fácil mentir
Sem asas é mais fácil fugir

Arranquei as minhas asas
Para as pôr a teus pés

E sem asas fico a ver
tu e as estrelas no céu

lá longe... muito, muito longe
E sem asas sorrio enquanto voas

E falas com as estrelas cadentes
que se enleiam no teu cabelo

terça-feira, agosto 01, 2006

entre beijos

... suspiras bem junto ao meu pescoço, o calor do bar acompanhou-nos até aqui, até esta porta semiaberta, até este degrau, montanha que conquistaste para partilharmos a luz desta lua mansa e parda, que se derrama lentamente dos olhos para os lábios...

... a carpete da sala abraça-nos o corpo quando o sofá nos cospe para o mundo, rebolando, bato de costas e os reflexos fazem-me rodar contigo nos braços, gaiola de carne protectora que te faço por instantes e instintos, pequeno pássaro de luz que és, guardada aqui nos meus braços...

... olhos nos olhos, corpo no corpo, o meu braço esquerdo sustém todo o meu peso, amanhã vai doer mas agora sustém-me, sustém o mundo, só para que a minha mão se passeie pelo canto do teu sorrir, só para que ela te afaste os cabelos pegados de suor da tua cara brilhante...

... o teu corpo sobe e choca de mansinho no meu a cada respiração que tens, as tuas pernas estão enleadas nas minhas, és uma trepadeira viva, a minha mão direita posou na curva da tua anca, seguro-te como se fosses uma viola, a tua voz murmura como a canção que o vento toca nas cordas...

... está calor demais para me afastar de ti, dormes pendurada no meu braço, a boca entreaberta faz-me querer beber mais, está calor, tenho sede, e a tua pele queima como o vento que me lambe a pele de dia, mas não me mexo, só a mão se mexe, quero beber dos teus olhos a luz que a lua oferece pela janela, afasto as tuas madeixas, vejo a fonte que nasce nos teus lábios, bebo uma última vez, e derramo-me nos sonhos escuros...

segunda-feira, julho 17, 2006

Carne

O teu corpo brilha na noite, suave deusa de metal bronzeado, e as pingas de luz dos candeeiros reflectem o suor que se demora pelas curvas do teu corpo, pérolas perdidas que te abandonam.

O ar dentro e fora do quarto está apertado pelo calor, agarra o peito, agarra o pescoço e aperta, sufoca, é um ar morto que nos parece querer matar também, deve querer companhia.

As tuas mãos fervem no meu peito, como é possível estares mais quente que o ar, mais quente que eu, tens fogo nos olhos, esse teu fogo negro, emoldurado por uma chuva de cabelos dourados, pegados, suados.

Mordes-me o ombro quando me apertas o peito, parábola de vida és, misturas o bem com o mal, a dor e o prazer, aqui, neste quarto pintado de noite escura onde somos apenas carne, nós os dois, o mesmo suor, o mesmo ser, a mesma carne.

domingo, julho 09, 2006

e tu num sol poente

o sol vermelho do poente reflecte-se
transparente e irreal
nas tuas asas de fada perdida
espalhando a água que trazes
pelas curvas da tua pele
pela tua boca viva
pintada de ouro

bebo as gotas de água
vermelhas da luz poente
que descem do teu cabelo
até à tua cara
até ao teu pescoço
até à tua boca viva
pintada de ouro

pousas a mão no meu peito
fada perdida na planície
que pintaste de ouro
como os teus lábios
como os teus cabelos
mas és frescura e trazes a água
apagas o fogo em que ardo
com o teu corpo ondulado
pintado de ouro

domingo, julho 02, 2006

a estrada escura

Ando devagar, sei que aqui sou imparável, posso levar o tempo que quiser a navegar ruelas desertas e parques de estacionamento, esses poços que de dia nada são e que de noite são as arcas que guardam a verdadeira essência da escuridão, daquela podridão humana que nasce do acumular dos nossos medos.
Levo o máximo de tempo possível, só aqui a verdadeira canção do vento morre, embate nas paredes e revolve, julga-se solitário, este vento nocturno, ou então nem se importa comigo, importo-me eu com ele, atravessa-me os olhos, gela-me os lábios, passa-me as mãos pelo cabelo. Até ele sabe que sou imparável, sabe que me sinto um deus mortal, o sangue salta-me das veias, tenta sair-me pelos dedos.
O vento transporta o fogo dos meus olhos até ao céu, a fúria enrola-se num grito que não me sai da garganta, ressoa na minha cabeça enquanto a lua rasga as nuvens e ilumina o meu sorriso, leva com ela as pérolas de suor frio que me surgem na testa, espero pela chuva que não vai chegar nunca.
Entro num caminho largo, nem uma luz no horizonte, nem um candeeiro, sorrio porque sei que é este o meu caminho, é aqui que pertenço, os olhos de negro líquido olham-me como predadores esfomeados, apontam-me dedos de osso frio, tentam arrastar-me para fora do caminho, levar-me esperneando para os abismos.
E a chuva que não vai chegar nunca, dela tenho saudades, dos seus beijos cansados, caídos do céu como pequenas festas no meu cabelo, pequenos arrepios de vida a descer-me do cabelo para as costas, a fazer estradas de pele no pó que me cobre a cara. Mas sorrio enquanto desço a estrada escura, ergo a cabeça e sorrio, mostro ao que se esconde que sou eu quem vai caçar, que sou eu quem vai fazer sangrar, mostro que o predador sou eu.
Aqui, na escuridão, os meus olhos são brancos.
Aqui, na escuridão, sou mortal, não tenho medos, sangro fogo, estou em casa.

segunda-feira, junho 19, 2006

digo-te adeus

digo-te adeus e beijo as árvores que tocaste

digo-te adeus e amo a relva que pisaste

digo-te adeus mudo no muro onde me mataste

digo-te adeus até os teus olhos voltarem

digo-te adeus para não ouvir resposta

digo-te adeus para que me arranhes o peito

digo-te adeus para que me arranques a cara

digo-te adeus para ouvir o eco do teu nome

digo-te adeus para não te poder mais beijar

digo-te adeus debaixo da lua de poeira dourada

digo-te adeus
e ponto final

sábado, junho 17, 2006

dúvidas em quadras

dança poeta dança,
enquanto a música não abala
p'ra casa da lua meia viva
que a bala matou o resto.

canta poeta canta,
que aqui ninguém te ouve
e se ouvisse que importava,
se nem mesmo tu importas.

olha poeta olha,
isso até tu aqui consegues,
nem eras menos que os outros,
só mais cego, só mais poeta.

grita poeta grita
até os pulmões te sangrarem
dessa ideia que ai corre perdida
de que sabes fazer mais que sangrar.

vive poeta vive
ah, disso já não és capaz!
de viver, e amar , e criar?
de ter a coragem de ser uno e real?

então morre, poeta, morre
que só sabes sonhar e escrever
e neste lugar não há já lugar
para quem se sonha e se sente.

sexta-feira, junho 02, 2006

nota de amor

nota de amor
para ninguém
em especial
só uma nota
escrita
com papel e tinta
e algum amor
para ninguém
em especial
só porque
me deu na cabeça
amar agora
e não está aqui
ninguém especial
que se deixe amar

menina dos olhos

menina dos olhos cansados
deixa-me embalá-los nos meus braços
e carregar os pesos nos meus ombros de pedra

menina dos olhos tristes
deixa-me arrancar as minhas mãos
para afogar as tuas lágrimas no meu sangue

menina dos olhos fechados
deixa-me cantar-te um sol novo
para encher de luz e calor a tua cara escondida

menina dos olhos castanhos
os teus poços são meus também
estamos os dois pegados pela linha do teu olhar

quarta-feira, maio 31, 2006

horizonte

perdida a razão procuro
nos teus olhos o perdão
aquela força que dizes não ter
na luz negra dos teus olhos

não tenho a tua voz aqui
sólida e inteira e presente
só ecos quebrados de gritos
e lágrimas desenhadas no chão

por isso escrevo para mim
uma nova direcção do olhar
porque me dizes que preciso
porque mo grita a tua ausência

um novo horizonte encoberto
desenhado pelas linhas do teu corpo
com florestas de beijos teus em mim
mas sempre sem ti, amor, sempre sem ti

quinta-feira, maio 11, 2006

viagem

O meu pensamento perde-se enquanto olho através do reflexo irreal da janela do autocarro.
Na noite que cai quase que me vejo a mim, num quase espelho do qual é tal fácil escapar como ao cair da noite, tão fácil quanto fugir da lua que nasce certamente detrás destas nuvens.
Não penso realmente, não existo realmente, o meu ser dilui-se pelas bermas da estrada, pelo contorno a carvão gelado que se começa a desenhar na planície, já se escapam pormenores desta fotografia viva, mas que importa, se não estou realmente aqui, apenas estou distraído olhando as margens.
Estou tão transparente quanto o vento, neste momento perdido, nada ressoa no interior do meu ser senão o eco tremido do motor, e o vago sabor da música que escorre pelo ar como alcatrão viscoso e se entranha pelos poros da pele.
Mexes-te levemente no meu ombro, tens a minha mão escondida nas tuas desde que nos sentámos, quando adormeceste no meu ombro a paisagem pintava de luz os teus olhos, essa luz escorria como água fresca pela tua cara, pelo teu sorriso vago, pelo teu peito encostado a mim.
O teu peito respira ainda calmamente, suspira vagamente sobressaltado apenas no momento em que acordas, e olhas o mundo que escurece, devolves a luz que guardaste nos teus olhos, que fechaste em ti no momento em que adormeceste, voltas a aparecer no reflexo do vidro, voltas a mexer-te.
Sorrio-te apesar do meu ombro dormente, da dor no meu braço, das horas que permaneci imóvel.
Sorrio-te porque é a única coisa que sei fazer, quando amanheces assim, mesmo num começo de noite, abraçaste-me e apertas-me a alma, já se vêm as luzes da chegada, a viagem canta já o seu fim.
Mas só a luz que escorre de ti, lentamente, gota a preciosa gota, permanece no ar abafado. E, de repente, eu já sou eu outra vez, já existo, aqui, nos teus braços.

quarta-feira, maio 10, 2006

Uma criança

São quatro e meia da manhã, e já devia estar deitado há muitas horas atrás.
Mas não consigo dormir, não consigo mesmo, nem vale a pena tentar, as lágrimas escorrem-me pela cara, o lábio de baixo quase sangra de tanto o morder, o meu coração morreu à uns momentos atrás.
Acabei de ver um filme, aliás, uma cena de um filme, que sorte a minha, apanho sempre a mesma cena do filme, começo a achar que é uma mensagem para mim, atirada ao mar por outra parte de mim que me quer bem ferido e cru por dentro. O filme é "A Lista de Schindler", e a cena é a do massacre dos judeus no gueto de Varsóvia, aquela cena em que no meio das imensidões cruelmente cinzentas do filme se vê uma pequena menina perdida, com um casaco vermelho, um capuchinho perdido no meio dos lobos, uma pincelada de cor, de vida, no meio da morte que a rodeia.
Lembro-me de quando vi o filme no cinema, a revolta volta, é revolta pura o que sinto, não por motivos religiosos, não acredito nem no Bem nem em nenhuma religião em especial, há muito que perdi a pouca fé que ainda se me agarrava aos ossos. Nem se quer é a morte, essa não me afecta nem um pouco, conheço-a bem, chamo-a por vários nomes, nomes de amigos, nomes de família, nomes que não os meus sonhos não me deixam esquecer.
Para dizer a verdade, é a criança, a menina de vermelho.
Algo em mim se parte quando vejo aquela criança ali, aquela criança que sei que morrerá, morrerá como tantas, mas é aquela que dá corpo aos meus medos, que dá nome aos meus desgostos.
Todos os músculos do meu corpo querem agarrá-la, levá-la dali, protegê-la desta morte que a rodeia, a esta menina que não existiu nunca realmente, mas que existe para mim, que existe para os meus olhos. E as lágrimas caem dos meus olhos porque estou sentado, num confortável sofá, mais de cinquenta anos depois, a ver uma menina que nunca existiu caminhar inocentemente para a morte.
E, apesar disso, quero salvá-la. Quero mesmo. E o meu desgosto é não conseguir, não conseguir que aquela criança se salve, que nenhuma delas se salve, simplesmente porque ela é, como tantas outras, uma pincelada de cor de sangue vivo no nosso mundo de purgatórios cinzentos e mortos.
E nunca os conseguimos salvar.
Que vontade de matar quem a mata, de esmagar quem vai esbater o seu sorriso, por motivos que nem eu nem ela percebemos bem.
E mesmo assim não a consigo salvar.
Nem mesmo dentro de mim.

terça-feira, maio 02, 2006

Renascer

Três horas de dor pura, não adulterada, tinham já passado. Não que fosse uma dor especialmente forte, tinha já passado por dores bem piores, daquelas dores que nos fazem querer enrolar no chão e chorar, que nos fazem querer arrancar a pele dos braços com os dentes.
Até esta dor não era desconhecida, já tinha passado por mim antes, as sucessivas picadas do tinteiro na pele nua, rasgando e criando ao mesmo tudo, deve ser esta a dor da criação, a pele abandona o seu estado natural e funde-se com a tinta, cria um conceito, cria um novo ser através da dor.
Mas nunca durante três longas horas. Tento nem pensar nisso, tento que a minha mente voe daqui e me faça esquecer que estou imóvel à três longas eternidades.
Falho redondamente, cada risco do tinteiro puxa-me violentamente de volta para a realidade, cada músculo das minhas pernas clama vingança, a pele massacrada do meu braço vai cair a qualquer momento.
Torna-se uma luta contra o meu corpo, fico reduzido ao mínimo que sou, é só a minha vontade que me impede de cair na súbita escuridão, só ela me impede de desistir. Quando aqui entrei ela, a minha vontade, já estava no seu limite, gasta por cinco anos de purgatório, batida e de lágrimas nos olhos por um ano de inferno. Não sei sequer como ela me aguenta de pé quando finalmente acaba.
Quando saio é já noite, um vento frio faz-me tremer tudo menos o braço, esse está dormente, a Fénix renascida dorme já encostada a mim, sou já outro e ninguém vê, ninguém se apercebe da mudança.
Caminho devagar pelas ruas mal iluminadas, passam por várias sombras que evitam ser vistas, mas não me importo nada, estou finalmente vazio, finalmente limpo, três horas de dor limparam todas as outras dores, apagaram todo o mundo passado para sempre, estou limpo e leve e livre, sou eu a negra Fénix que voa anichada no meu braço.
E atrás de mim, só as cinzas restam.
Só as cinzas.

sexta-feira, abril 21, 2006

Soneto para Fernanda

Pequena pérola de luz
num cofre de conchinhas,
guardado no mar
que guardas na alma.

Alegre lágrima perdida
a rolar pelo sorriso solto,
naufraga dos teus olhos
castanhos da côr da terra.

Mil olhares para o céu,
mil passos na margem,
das páginas que escreves.

Promessa de flor humana,
agarrada a ti como as margaridas
que trazes a beijar-te o cabelo.

quarta-feira, abril 12, 2006

Às vezes...

Às vezes...

Às vezes penso que só existes na ponta dos meus dedos, quando desenho o teu corpo por cima da roupa com que o tapas, que só existes naquele espaço que escavaste para ti no meu ombro esquerdo, aquele espaço onde os teus sonhos nascem e terminam.

Às vezes bebo a minha força dos teus lábios, como se tudo aquilo que preciso para viver nascesse na tua voz cantada em notas roubadas, como se os teus lábios finos fossem os pilares que sustêm o meu mundo, o meu firmamento, tudo o que conheço.

Às vezes acordo nos teus braços e tenho medo de me mexer, medo até de respirar, medo que um só sopro afaste a névoa de calor e chuva que o teu corpo encostado ao meu provoca nos meus olhos, que aquele peso subtil do teu corpo no meu desapareça.

Às vezes, fico acordado a ver o sol nascer pela janela do teu quarto e encher os teus caracóis de dourado, banhar os teus ombros nus de mel luminoso, enquanto te olho adormecida e espero que acordes com os olhos cheios da luz matinal.

Às vezes tento desenhar palavras em páginas amarrotadas, juntar em quadros escritos os pedaços mal cortados deste mundo que construí para ti, que construí na esperança de um dia ser só nosso, só meu e teu.

Às vezes, até acho que consigo viver sem ti, respirar sem ti, voltar a olhar o céu como o olhava antes de teres dado novo nome às estrelas, acordar como acordava quando estava só, fazer o pequeno-almoço só para mim, viver só para o meu corpo.

Às vezes...

terça-feira, abril 11, 2006

volto amanhã

os meus pensamentos voam soltos

como dragões na névoa irreal do quarto

fazem uma escadaria para onde a lua brilha

e os teus olhos nunca choram

nem mesmo quando eu os faço chorar

faço festas nas ondas douradas do teu cabelo

enquanto espero que acordes para me despedir

não chores mais meu amor eu volto amanhã

para onde os teus lábios me tentam agarrar

agora não me abraçes amor senão não consigo voar

terça-feira, abril 04, 2006

Estátua de Sal

Debaixo desta torrente de líquido quente que me escorre pelo cabelo para a cara, para as costas, para o resto do corpo, tento apagar o cheiro de ti, substituir o calor de ti pelo calor da água que o chuveiro vomita violentamente.
Viro a cara para cima, talvez olhando este mar fervente consiga apagar os teus olhos dos meus, mesmo assim, talvez mesmo com eles fechados, te consiga apagar, a água entra-me morna pelos lábios, recorda-me a tua língua, também a água dança na minha boca...
Entras neste mundo de vapor como uma avalanche morena, o teu cabelo apanhado no topo da cabeça, pareces uma medusa pronta a consumir o mundo, a transformá-lo em pedra, a mim transformas-me numa estátua de sal, sal que se tenta desfazer debaixo desta cascata antes que me desfaças tu com os teus lábios.
Agarras-me pelas costas, as formas do teu corpo frio coladas a mim como uma sereia a uma rocha fria da praia, cruzas as mãos no meu peito e cantas baixinho, encostas a cara ao meu coração, ouves o que sinto através das minhas costas, escondida da água e do mundo pelos meus ombros, a canção que me teces pergunta-me se há espaço para ti.
Meu amor, para mim não existem espaços sem ti.

quinta-feira, março 30, 2006

Tarde na casa de chá

Está sol e chove.
Ambas as naturezas que sou, misturadas numa só substância, num só caminho descendente dos céus. O mundo sorri, sorri ao sol que o abraça, e à chuva que o beija, ou se calhar sou só eu que assim o vejo, só eu que assim o percebo.
Deve ser de estarmos os dois aqui, a trocar momentos.
A casa de chá está vazia, à nossa volta apenas cadeiras solitárias esperando ansiosamente quem as ocupe, e o vapor que sobe das taças de chá envolve-nos os sentidos, fotografa para nós os raios de sol filtrados pela chuva, esses raios que nem os vidros param, que nos aquecem, como o chá.
O teu cabelo está molhado, o teu sorriso também, mas a tua voz canta, será este o som da alegria, será esta a voz que se ouve quando se está assim, em paz?
Não sei.
Só sei que o tempo está parado, aqui, neste momento luminoso, enquanto o vapor adocicado do chá sustém carinhosamente as nossas palavras e o leve cheiro a doce de amoras se mistura com as palavras que me cantas.
Uma tarde a ouvir-te cantar palavras, separados por um mar de madeira navegado por um bule de chá, onde agora já só algumas migalhas relembram os bolos que fizemos naufragar.
Vivo, estou vivo outra vez.

sexta-feira, março 24, 2006

Pintura de mim

destruíste-me
todas as máscaras
todos os muros que fiz

agarraste-me o braço nu
acariciaste a minha pele
e cantaste baixinho
só para mim

existes mas não és tu
és esta imagem pintada
és tu como ninguém vê
mas não, nunca és tu

beijei-te para te calar
mas ainda disseste
o que está aqui não és tu
é só uma pintura

uma pintura de ti

segunda-feira, março 20, 2006

trovoada

O céu é um borrão de tinta negra, um cobertor abafado que se arrasta lentamente sobre a cidade, sobre o peito das pessoas, tapa até a luz, até mesmo a luz se altera.
A trovoada arrasta-se preguiçosa, ela não tem pressa, altera o mundo à sua passagem, todos se escondem, todos parecem querer fugir-lhe, a cidade a meus pés esvazia-se lentamente.
É aquele medo gravado bem fundo nas nossas recordações, aquele medo muito humano que temos de tudo o que não controlamos, aquele medo que temos também das tempestades no mar e dos fogos na floresta. Um medo fundo, genético, comum.
Pois eu adoro esse medo, talvez tanto quanto adoro a trovoada.
Neste terceiro direito anónimo, apenas mais uma varanda escondida à vista de todos, tenho a vista desimpedida sobre a cidade, vejo-a fugir, esconder-se, e em alguns minutos as ruas estão vazias, cada num está em sua casa, protegido da promessa de chuva, escondido do medo.
Apenas eu oiço este silêncio, este vento sufocante, frio e abafado, que lambe a cidade antes do primeiro raio.
Mas antes o trovão. Sempre o trovão antes.
Ao ouvir o primeiro trovão o meu coração salta, todos saltam, porque não o meu também, mas o meu não salta só de medo, salta porque quer sair, ver os rasgões de branco eléctrico que rasgam o negro cobertor celeste.
A minha alma rasga-me desesperada o interior, também ela quer sair, mas a ela não posso deixar sair, se ela sai já não volta. Junta-se a este infinito chão de nuvens negras, vai-se derramar pela cidade, com a chuva que já promete cair a qualquer momento.
Olho o céu como uma criança, a minha prenda, a minha prenda está aqui, derrama medo, escuridão, lava a cidade, esvazia-a só para eu a olhar, só para eu a tempestade ficarmos os dois, sozinhos, apaixonados nesta varanda.
Estou feliz. Verdadeiramente feliz.

terça-feira, março 14, 2006

Momento

Arrasto-me lentamente até à cama, a toalha branca envolve-me pela cintura, corte branco numa tela morena. A dor está lá, viva, a morder-me o joelho, a agarrar-me e a arrastar-me para a cama.
Deixo-me cair, fico a respirar pesadamente, como se o ar que saí de mim às golfadas conseguisse arrancar a dor para fora, como se me fosse obrigar a vomitá-la, o corpo molhado espalmado contra os lençóis, como se se tivessem esquecido de me erguer crucificado.
Tento concentrar-me na névoa açucarada de incenso e laranjas que se derrama pelo quarto, que se espalha das velas do teu tocador, o espelho a reflectir a vida das pequenas chamas pela luz cancerosa da tarde quente, vens sentar-te ao meu lado e o cheiro a fresco do teu cabelo acompanha as gotas mornas que me deixas cair nas costas.
A dor começa a subir-me pela perna como uma serpente escamosa e gelada, mesmo na tarde quente sinto a perna a gelar. As gotas que escorrem do meu cabelo passeiam-se pela minha cara, convidam as gotas mal presas aos meus olhos para as acompanharem.
Tocas-me nas costas e obrigas-me a virar, sem fazeres força, sem dizeres nada, obrigas-me a virar para ver os teus olhos, para me matar neles.
Deixas a minha cabeça fazer ninho no teu colo, será a rádio que me canta ou será que apenas acompanha a canção que escorre lentamente dos teus lábios, da tua boca, já não sei, apenas oiço a canção da dor, e a tua, qual delas a mais pura.
A tua mão direita tapa-me os olhos, penteia-me os cabelos, os teus dedos estão nos meus lábios, fizeram lá morada, tentam puxar a dor de dentro de mim.
A outra mão percorre o meu tronco, não me toca realmente, apenas desenhas as minhas cicatrizes com a promessa do teu toque, deixas-me quase adivinhar que me tocas, é como se estivesses a fazer um rascunho para guardar na memória.
Cantas baixinho, quase adivinho o teu sorriso através dos meus olhos fechados.
E assim adormeço, lavado do mundo, a doer-me no teu colo, crucificado nos teus dedos, onde a dor existe mas não importa, nem mesmo um pouco, nem mesmo nada.

quinta-feira, março 09, 2006

entre nós

Entre nós não existem palavras,
existem apenas pequenos passeios
que as nossas mãos fazem pelo corpo.

Corpo só temos um, nem teu nem meu.
Nosso, como esta noite, como este suor,
como o amanhã que desponta já nos teus olhos.

Estremecemos juntos, formamos aqui
as ondas de um mar só nosso, apagamos
este espaço vazio que se forma entre nós.

E com gesto conhecidos pintamos mundos,
criamos estrelas, destruimos universos,
e segredamos os passos da nossa viagem
um ao outro, para que nada caminhe entre nós.

terça-feira, fevereiro 28, 2006

minh'alma

É ainda de noite quando me levanto, o corpo ainda me pesa no fôfo conforto dos lençóis e da casa aquecida, mas é preciso acordar, é preciso vestir, enfrentar o mundo gelado, pintado de negro, que me quer lá fora tanto quanto eu quero sair.
Lá fora oiço o céu chorar, lavar o mundo com as suas lágrimas, muito deve sofrer o céu, muitas devem ser as saudades que as nuvens têm, para tanto chorarem enquanto correm no seu caminho. Visto-me depressa, tento agarrar ao corpo o calor da cama, o vapor dos sonhos, que nos aquecem as noites.
Sou o último a entrar na cozinha, todos estão de pé, pratos na mão, comem sossegadamente no escuro, o copo de vinho ao alcance da mão, nenhuma palavra corta a madrugada, nenhuma ideia senão aproveitar o calor da comida na escuridão que nos abraça, a pequena figura da minha avó dança, enchendo pratos, cortando carnes, lavando já as coisas, move-se rapidamente entre os homens grandes, de pé na cozinha, uma fagulha de calor e vida no meio de pilares de carne que comem devagar, não vá a comida fugir.
O meu trabalho é simples, sei-o de cor, faço-o de olhos fechados. É o trabalho de quem não tem arte, de quem não vive da terra. Reconhecem-me o mérito, trabalhas muito rapaz, és grande, és forte, mas não tens arte. Ganhas respeito, mas não ganhas palavras, não tens arte nem rugas para isso, não és um dos antigos, é a lei eterna do campo.
Submeto-me à lei, o silêncio é total, nem no carro se fala, só na paragem na tasca, um copo de bagaço para aquecer o dia, trocar novidades conhecidas com quem se viu ainda ontem. Ai sim, ai sou importante, é importante mostrar o novo, o neto, o sobrinho, apresentar o doutor.
É grande e largo de ombros, não parece um doutor. Mas é, é doutor de letras, responde um sorriso, ao sorriso responde o espanto, homens das letras são de outro mundo, têm outra sabedoria, trocaram as mãos duras pelos olhos cansados, as penas dos corpo pelas da mente. Um homem dos dois lados, tem duas dores, será um dos seus que conhece os segredos dos outros, ou um espião? À noite se verá, vamos ver se se aguenta.
Com uma tira de meia luz, já uma promessa de sol aparece no horizonte, atiro o meu corpo ao trabalho, já levo uma hora de carga quando a luz do sol me invade os olhos e me apresenta ao dia. Mas não paro, mesmo sozinho, única voz no raio de quilómetros, só paro o trabalho acabado, a meio da manhã, e começo a andar pela lama para o local de encontro, ladeado de verde e de vida. Os animais seguem-me alguns momentos, mas depois desistem, os sinais que esperam não saem, caminho leva para longe da sua comida, é melhor ficar.
Ao subir o primeiro monte reparo finalmente que é já dia, o céu de chumbo parou de derramar tesouros sobre nós e agora parte, deixa-me aproveitar o sol, secar a roupa no corpo, aquecer-me os braços e ombros doridos.
O dia segue lentamente, o ritmo da planície marca homens e animais, aqui o tempo não passa, escorre lentamente pela paisagem, como mel, parece que escorre do próprio sol, espalha esplendor pela planície de pão e azeite.
Voltar a casa, o dia acabado, o sol já se põe, aqui não se trabalha sem sol, tomar um banho para lavar as dores, mudar de roupa, comer sentado pela primeira vez durante o dia, até o corpo estranha, primeiras conversas do dia, com quem todo o dia falou, parece que estamos noutro mundo, um mundo de barulho, parece que vimos da morte.
Sento-me na cama, dói-me o corpo todo, atiro-me ao sono sedento de descanso, sedento de paz, não mais um corpo, sou apenas um monte de cordas que alguém arrumou nesta cama.
Antes de dormir, lembro-me do sol a entrar nos meus olhos e fico com a certeza, aquela fé inabalável que nasce devagar, sem dar-mos por isso, que não pertenço a este mundo. Os antigos têm razão, das rugas nasce a sabedoria, um homem das letras sou, preso noutras lidas estou.
Mas esta é a minha terra, nunca tive tanta certeza, não é na minha língua que moro, nem nas palavras.
É na solidão da planície, num dia de trabalho chuvoso, que a minha alma reside.
Esta é a minha morada, a planície dos silêncios, sem casas, nem sons, nem palavras, sem um único pensamento fugidio de vãs demandas.
Apenas o chão, o céu, e a minh'alma.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

A cama

Todos os os dias.
Eram todos nossos, era a nossa vida, não vivia sem ti.
Eramos um só ser, até quando estávamos separados, juntava-nos aquela sede do corpo, aquele querer ser um só outra vez.
Agora, passado tanto tempo, estás outra vez na minha cama.
O cenário mudou, até a própria cama não é a mesma, nem nós, mas os velhos gestos voltaram rápidos, como se só o dia nos separasse, como se tivessemos voltado agora a casa e despertado nos braços um do outro.
Enquanto escrevo sinto ainda o teu perfume, não o aquele artificial que apaguei com beijos do teu pescoço, mas sim aquela leve recordação do cheiro a maçâs que o champô deixou no teu cabelo, e aquele sentir quente que o peso subtil do teu corpo marcou no meu.
Olho a cama de relance, dormes sorridente, anichada no meio, a cama deve estar tão quente como a noite está fria.
E a noite está fria, começo a aperceber-me, ela lava-me do teu calor, da tua presença, acorda-me deste sonho.
Se aomenos não fosse a minha casa, podia ir-me embora enquanto dormias, deixar-te aí quente, irreal, uma noite de regresso ao futuro que um dia tivemos, que um dia sonhámos, nada mais, nada menos.
Tenho vontade de meter as minhas mãos nos teus olhos castanhos para limpar todo o lodo que te afoga a alma, encontrar um resto do que foste, talvez encontrar-me ai também, afogado, perdido ainda nos teus olhos.
Ilusões.
Vais acordar e nem me vais olhar. Vais dizer que tudo foi um erro, vais deitar umas lágrimas meio sentidas, meio por que sim, vais-te vestir e vais voltar à tua vida, vais sair outra vez da minha, pensando talvez que outro dia voltes.
A noite está mesmo fria, volto para a cama, estremeces e abraças-me quando entro de novo nos lençois, o sorriso está mesmo lá, precisavas de o encontrar, foi essa a razão de tudo isto.
Tinhas-te perdido, a mulher que realmente és, e precisavas voltar para um sítio seguro, um sítio feliz, que o teu sorriso conhecesse bem. A nossa cama.
Mas esta não é a nossa cama, é minha.
Não moras aqui, nesta cama, espero sinceramente que nunca mais percas o teu sorriso, que nunca mais te percas, esta cama é minha e este coração é meu, e foi a última noite em que os ocupaste.
Como eu desejei, até à pouco tempo, ter-te de novo aqui. Mas a nossa cama foi e veio, o nosso futuro nunca vai acontecer, até podiamos querer, mas saberiamos sempre que era mentira.
Por isso agora vou dormir, bem agarradinho a ti, e acordar feliz.
Porque já me despedi.




terça-feira, fevereiro 14, 2006

S. Valentim

Fui um abraço quando precisaste,
fui um corpo onde te afogaste,
fui um coração a bater compassado
com o teu sonho magoado.

Envolvi-te nos meus abraços
e nem o mundo, nem a luz,
nem as recordações do céu
passaram pelos teus olhos.

Fui o teu mundo quando pediste,
fui o chão dos teus passos,
parti o meu trono e a minha coroa
para te fazer sorrir de novo.

Mas nunca vou ser para ti
a salvação colorida e doce
que a tua voz é para mim
todos os dias deste mundo.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Êxtase

O meu coração dispara quando a tua mão toca no meu peito e aperta.
Não é paixão, nem amor, apenas o querer provar os teus lábios, o teu corpo.
O desejo é animal, já não sou humano, sou apenas vontade, sou apenas querer.
Mordes-me o ombro, agarras-me os pulsos, voas nos meus braços, somos apenas vapor,
somos apenas calor.
Sigo as tuas linhas com a ponta dos meus dedos, escrevo na minha memória
a forma do teu corpo.
São dos corpos celestes que voam, são dois sóis, são dois cometas errantes que chocam
e se despedaçam um no outro.
Não há magia, não há amor, apenar sede, apenas vontade, apenas agora.
E finalmente o momento acaba, finalmente respiro de novo.
Respiro finalmente, apenas te respiro a ti, apenas respiro o teu perfume, o teu suor, o teu calor.
Tenho de voltar a casa, sair daqui, sentir o frio da noite na cara.
Mas a tua mão viaja no meu corpo, perdida de novo, de novo no meu coração.
E tudo recomeça.

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Se tu não tivesses olhado para mim

Hoje, enquanto a neve caía, pensei para mim que este era um momento único, daqueles momentos que ficam gravados na memória como momentos de felicidade pura, e que sobrevivem mesmo quando os pormenores se esbatem, mesmo quando apenas a recordação vaga como vapor permanece, e a noção do que se passou vagueia pelos recantos da nossa mente, para ser encontrada apenas quando sorrir é necessário.
E no meio da minha alegria, pensei em ti.
Mas não te preocupes, disfarcei bem, ninguém percebeu, ninguém viu o fantasma de ti passar pelos meus olhos, pela minha boca, beijar-me os pensamentos.
Já mais tarde, sentado a secar ao calor, os meus pensamentos perderam no fogo, o seu calor a fazê-los voar, a fazê-los viajar para onde eu não quero que eles vão, para os teus braços, para o teu calor.
Oxalá estivesses aqui, este dia podiamos tê-lo partilhado, como duas crianças que partilham uma concha do mar, sem dúvidas nem condições, apenas o momento, apenas a alegria.
Uma voz do fogo sussurrou-me então levemente, mais valia nem te ter conhecido.
Essa pequena chama instalou-se em mim, ardeu um pouco e morreu.
Morreu porque eu sei que, se tu não tivesses olhado para mim, tantas vezes com amor, e outras tantas, tantas vezes com lágrimas a taparem a luz dos teus olhos, eu não saberia.
Se tu não tivesses olhado para mim, naquela primeira manhã da nossa vida, eu não saberia abraçar, segurar um coração com um abraço terno e seguro, nem saberia pular para o infinito, sem corda. sem rede, sem medo, só amor e esperança. Não saberia o real valor da fé, aquela fé inabalável que vem depois de acordar nos teus braços.
Se não tivesses olhado para mim, e eu para ti, um banal cruzar de olhos para todos os outros, num café estupidamente cheio, será que eu seria eu?
Provavelmente.
Mas se não tivesses olhado para mim, naquela manhã quase tarde em que acordámos nos braços um do outro, eu não saberia amar, amar realmente, aquele amor sem condições, sem dúvida, sem esperança de salvação.
Aquele amor que sabemos existir sem precisar de palavras para o dizer, ou sequer pensar.
E é assim que me vou deitar, cheio de certezas e saudades, mas mais de dor que tudo mais, porque não vou acordar mais embalado no teu olhar, por mais que neve lá fora.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

gemido

não quero continuar
a pagar assim
desta forma
os passos em falso
por favor
deixa-me cair aqui
coração
deixa-me desistir
e ficar aqui
deitado
morrido
sem marcas
nem recordações
de outros
corações

não
por favor não
já não tenho lágrimas
só soluços
e memórias
nem mesmo vontade
só o orgulho me move
e tu
e tu
coração
meu coração

mais por hábito
mecânico
automático
humano
que por
realmente
querer continuar
deixa-me ficar
aqui
coração
meu coração

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Olhos castanhos

Tenho medo de mim naqueles momentos em que os meus olhos ficam cinzentos, como o céu está neste exacto momento.
Não sinto nada, nem o frio, nem o vento, nem a neve branca que navega perdida pelas ruas.
Sinto-me como uma estátua de sal, de dor e saudade, desesperado demais para me sentar num autocarro meio cheio, nesta cidade perdida pintada de cinzento e branco sujo.
Entro na sala de aula e nem tiro a cadeira do sítio.
Parado no estrado, em frente ao meu público habitual, os meus ombros são penedos de granito, a minha boca e os meus olhos são pequenas linhas perdidas no mapa do meu rosto.
Olho-os, suspiro e mergulho de cabeça naquele esquecimento que só o trabalho dá, aquele adormecer da nossa vida que existe para lá desta sala.
E deixo que a pouco e pouco as ondas de cansaço e esquecimento, que vão subindo pelo meu corpo, apaguem tudo o resto.
Excepto o cinzento do céu, excepto o cinzento dos meus olhos.
É já noite escura, é já a morte gelada, misto de frio e de esgotamento, quando saio para a liberdade novamente.
Assim que abro a porta o calor de casa quase que me queima a cara, devo estar morto, mas afinal estou só gelado e cansado. Deixo o rasto de roupa para marcar bem o caminho para o banho que me vai limpar do mundo, desfazer as linhas da cara, fazer-me sonhar com o meu país.
No final pareço outro, limpo, leve, quente.
Mas os meus olhos estão cinzentos.
O céu agora é negro, lá fora chovem as mágoas do mundo, que grita e chora a tempestade.
Aqui dentro há vida, há calor, só os meus olhos estão cinzentos.
Afogo-me um pouco em trabalho e depois vou fazer o jantar, naquela linha diária traçada de pessoa só, de fim de dia de estrangeiro em terras estranhas.
Enquanto como e me apago em frente ao televisor, fingindo que não durmo nesta ilha almofadada a vermelho e branco, chegas tu, pequeno furacão de energia resgatado de um dia de tempestade, com pequenas grinaldas de neve e diamantes de chuva no teu cabelo.
Molhas-me a cara quanto pousas nos meus braços, estás gelada e eu abraço-te, sinto a luz do teu corpo atravessar o meu como se fosse papel de arroz e iluminar toda a sala.
Olhas-me e dizes, numa voz cansada e sumida, empoleirada em lábios gelados como um pássaro doce, "Meu amor, hoje tens os olhos tão castanhos."

terça-feira, janeiro 10, 2006

rosa vermelha

quero ser o teu sangue para percorrer cada centímetro do teu corpo, morar para sempre na tua mente e suster cada batida do teu coração, os limites de ti serem os limites do meu mundo

mesmo assim morria infeliz, porque nunca mais beijaria a tua pele, nem me perdia nos teus olhos

mas era parte de ti, tanto quanto és parte de mim

sábado, janeiro 07, 2006

A Barba

Fico em frente ao espelho, mas não estou realmente a prestar atenção.
Os gestos são automáticos, seguros, já fiz isto tantas vezes que a lâmina passeia suavemente pela pele rugosa.
Pouco a pouco a imagem no espelho muda, já não sou eu, o eu habitual, sou o eu passado, aquele que te pertencia. Pouco a pouco os olhos relembram esta máscara, foi só procurar no arquivo, está um pouco mais gasta mas é a mesma.
Mas eu não estou realmente a prestar atenção, nem estou realmente preocupado. Se quiser ser exacto, nem estou realmente aqui.
Nem mesmo a água gelada me acorda, nem mesmo ela consegue parar as recordações, em dois segundos elas passam de pequenas pingas a uma enorme torrente cinzento prateado que submerge a realidade, que me submerge a mim.

De repente é uma tarde de Agosto, uma tarde de sorrisos e luz, ou pelo menos é assim que eu a recordo, as recordações são como os filmes da infãncia, parecem sempre supremas obras de arte, são das poucas coisas que o tempo melhora, as recordações.
Estou sentado na tua cozinha, o único lugar fresco da casa, estou no meio de uma chama de luz que entra pela janela meio fechada e me queima as pernas e as mãos, o ar está abafado.
Protesto, mas tu finges não ouvir, só uma mais das pequenas farsas com que enchemos os nossos momentos mortos, chamas-me rezingão, chamo-te ditadora, quase consigo adivinhar o teu sorriso.
Espalhas-me a espuma pela cara, mordes o lábio de baixo, estás concentrada, evitas os meus olhos, proíbes-me de sorrir. Começas o teu trabalho, tentas não me cortar a cara, tentas não olhar nos meus olhos.
Mas a tua mão está por cima do meu coração, pequeno teste que me fazes, para saber se eu confio, para saber se eu me entrego. E eu só quero beber dos teus olhos, mas tu não deixas.
Acabas finalmente o teu trabalho e sorris, nem um corte, a tua mão sempre no meu coração, sempre mergulhada na minha alma. Ajoelhada à minha frente olhas-me finalmente e só ai sentes o meu coração explodir, só ai volto a respirar, só nos teus olhos vivo realmente, todo o universo lá vive.
Pelo menos o meu.
Vivia, corrijo-me.

De repente a chuva na cara acorda-me, já estou na rua, barbeado e vestido, mas é inverno e eu preciso de um café, preciso de acordar, acordar de todas as tardes de Agosto, parar de sonhar-te em cada gesto, e ir trabalhar.
Odeio fazer a barba.

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Entardecer Dourado

São cinco minutos do entardecer, aqueles raios finais do sol, que já cansado estende os seus braços, tentando alcançar tudo, abraçar todos, talvez despedir-se.
Apesar do frio, da cidade branca, do céu cinzento, todo o mundo é dourado durante esses cinco minutos finais.
A luz entra pelos olhos e derrama-se pela cara, pingando gota a gota para a alma, aquecendo as pessoas que se apressam a regressar a casa.
Durante aquele tempo, império de uma só cor, as pessoas levantam a cara, respiram um pouco mais leve, caminham um pouco mais devagar, voltam a ser um pouco mais humanos.
É no mais glorioso momento deste cobertor dourado que a escuridão nasce, os seus dedos compridos saem das sombras e as suas mãos envolvem tudo.
O frio faz-se mais frio, o céu fica negro, o peso volta aos ombros, o momento passa.
Mas naquele glorioso entardecer do primeiro dia do ano, por cinco minutos apenas, a cidade foi dourada como a planície, como um tesouro, como o sol.
E como o sol, a cidade a todos abraçou, antes de partir para as mãos da noite escura.

terça-feira, dezembro 27, 2005

25

sento-me na mesa do café,
quieto,
à espera que me matem.

e nesta tarde aborrecida,
completamente banal,
nunca quis tanto viver.

nunca o café soube tão bem,
e cada vez que respiro
é como se respirasse ouro

já li o jornal três vezes,
fervo de ansiedade,
suo frio,
mas espero quieto.

nesta mesa do café,
à espera que se decidam
a atravessar a rua
e vir matar-me.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

8.37 am

Está tanto frio que o vento me corta a cara, as mãos, os olhos.
Não há nuvens, a luz derrama-se pura do céu de metal azul claro.
O vento enrola-se no meu cabelo, é como se só a minha face existisse,
como se só ela enfrentasse a manhã gelada.

Apenas o vento e eu caminhamos nesta manhã azul metálica,
e estou feliz assim, só nós na praia de pedra do passeio,
com um mar de alcatrão cheio de carros parados â esquerda
e os muros vivos de verde do jardim à minha direita.

Entro em casa já com o sabor a café a dançar na boca,
o jornal e o pão ficam juntos a fazer amor na mesa da cozinha,
a tinta fresca e o calor do pão fresco ainda se agarram à vida,
ainda permanecem nas pontas dos dedos, na ponta do nariz.

Abro as cortinas e deixo a luz vasculhar o quarto enquanto
me dispo e entro neste ventre de flanela azul metálico,
da côr do céu lá fora, ainda aquecido pela tua pele açucarada,
e ranges com a cama enquanto me deito e me tapo.

Rodas e os teus braços apertam-me o tronco, ainda ai estou,
só saí nos teus sonhos, e olho-te neste amanhecer azul metálico.
O despertador diz-me baixinho que tenho mais vinte e três minutos
até ele te arrancar daqui, do ninho dos meus braços.

Sinto a tua respiração compassada no meu peito, sobe-me pelo pescoço,
queima-me a cara, faz-me esquecer o tempo que passa, que se lixe o tempo,
o momento fica, este momento que é só meu. Meu e do vento que dança lá fora.
Como o meu coração, cada um no seu céu azul metálico.

quinta-feira, dezembro 08, 2005

4 da manhã

Desculpa telefonar-te a estas horas
mas preciso que me salves desta escuridão
que fica na minha alma,
no meu corpo,
no meu quarto,
quando não estou contigo.

Era só porque precisava muito
de ouvir a luz na tua voz,
sentir o vapor do teu corpo,
o teu peito a subir e a descer
enquanto dormes nos meus braços.

Diz-me só boa noite,
para eu poder ir tentar dormir,
a pensar que se calhar estás aqui,
e ser feliz, a sonhar assim,
pelo menos até acordar.

domingo, novembro 27, 2005

Dançar

O copo está meio quando me tocas na mão para irmos dançar.
Apesar do barulho, apesar das pessoas, sabes que música será.
Sabes sempre.
Não sei como mas sabes.
Agarras-me a mão assim que me levanto e puxas-me para o meio da pista, longe da luz e de todo o resto do universo.
Pões os teus pés em cima dos meus, abraço-te suavemente para te proteger do mundo e dos olhares e porque gostas.
Anichas-te nos meus braços, a tua respiração quente a queimar-me o pescoço de desejo apesar do bar estar abafado.
A música começa e tu sorris, aquele sorriso que só eu vejo.
Dançamos.
Os teus lábios de sabor a licôr beijam os meus, tens a mão pousada no meu peito para sentir aquele sobressalto que o meu coração dá sempre que os nossos lábios se tocam, o teu corpo estremece quando a minha mão viaja pelas tuas costas, a música faz-nos derreter nos braços um do outro.
A música parou, outra música começou.
Ninguém percebeu.
Ninguém viu o universo a parar enquanto pairavas nos meus braços e eramos um.
Um coração, uma respiração, um beijo.
A dançar.



quinta-feira, novembro 17, 2005

Vou

Vou perseguir-te por todos os recantos de mim,
e apagar todos os fogos que deixaste.

Vou plantar nova vida neste mar de cinzas que ficou,
e lavar com lágrimas o teu sabor da minha boca.

Vou apagar todas as recordações de todos os momentos,
até não seres mais que um nevoeiro soprado pelo vento.

Vou finalmente olhar para dentro de mim, limpo de ti,
e sentar-me, e chorar, enquanto olho o vazio que ficou.

Dei-to

Dei-te...
Sei lá o que te dei...
Dei-me?
Seja o que fôr
perdi...
Não o encontro,
nem posso dar mais.
Se calhar nunca tive,
se calhar levaste contigo.

Dei-te...
E já não volta.
Passo a mão pelo cabelo,
fecho os olhos, imagino...
tento lembrar-me
do caminho de volta.
Não me lembro,
dei-to...
dei-me...
e já não volto mais.

sexta-feira, novembro 11, 2005

as sombras

Sempre pensei que as sombras são seres vivos,
presos a homens pouco humanos e a objectos sem alma.

Deve ser por isso que pensamos que o Mal,
(esse da letra e do medo maíusculo),
se esconde nas sombras.

Que ódio nos devem ter as sombras,
presas a nós que nada fazemos,
senão tapar a luz a que têm direito.

terça-feira, novembro 08, 2005

Mergulhar

Mergulhar.
Sentir que o mundo acaba,
imerso no imenso silêncio
do frio e infinito horizonte azul.
Deixar-me lentamente cair,
procurando o fundo invisível,
até que os pulmões parecem
rebentar e me lembram bruscamente
que eu não pertenço aqui.

Por isso vôo para a superfície,
onde não há nenhum azul assim,
onde não há nem paz nem silêncio,
mas onde está, infelizmente,
todo o oxigénio.

segunda-feira, novembro 07, 2005

rotina

Acorda
Come
Anda
Trabalha
Come
Trabalha
Anda
Come
Dorme

Todos os dias?
E se eu me apetecer
mandar-vos todos
todos à merda?
Não posso?
Então sejam voçês
essas tais pessoas.
Eu não quero.
Prefiro ser humano
e pensar por mim.

quarta-feira, novembro 02, 2005

Um feriado

Que saudades que eu tinha
de acordar nos teus braços,
e chamar-te princesa,
e sentir-te mulher e minha.

quinta-feira, outubro 27, 2005

Sim, sei.

Sim, sei.
Sei que para onde fôr
nunca estarei só.
Porque te carrego,
recordada num altar,
feito dentro de mim.

Sim, sei.
Alías, tenho a certeza,
que já não me perco
outra vez neste caminho,
que escreveste para mim,
quando vivias para nós.

quinta-feira, outubro 20, 2005

Raio de luz

Todos os meus erros morrem
naquele milísegundo em que
os nossos lábios se cruzam,
em que a chuva fria cai
pelas goteiras dos cabelos,
e um raio de luz viva
nos atravessa agarrados,
neste estacionamento sujo
e escuro e feio e nosso.

Não me peças mais perdão,
eu não te peço mais desculpa.

Vamos só ficar aqui assim,
agarrados na noite sem lua,
enquanto eu desvendo se
este arrepio nas costas
é da chuva que me encharca,
das tuas mãos que me abraçam
ou deste raio de luz suja
que nos transporta assim,
naufragados um no outro,
neste milionésimo de segundo
onde a memória não existe.

sexta-feira, outubro 14, 2005

Nunca vai cessar de me espantar
que as pessoas me vejam como
uma pessoa sensível e boa.

Talvez tu lhes devesses contar
sobre a noite em que te olhei nos olhos,
te arranquei o coração do peito e sorri.

Ou talvez devesses contar o que disse:
"Tu para mim morreste, és menos que nada,
não me fales, não me olhes, nem digas o meu nome."

Deixa.
Basta-lhes saber o bem que me soube
fazer sofrer a mulher que amei.

quarta-feira, outubro 12, 2005

Vivo


Chove torrencialmente e nem me importo.
Só sei que me sinto vivo, neste exacto momento,
da madrugada pintada de cinzento sepultura.

Caminho de braços abertos e cara levantada,
deixando a chuva gelada escorrer pelo pescoço
e inundar-me de vida a alma ressequida.

Na luz matinal, a chuva parece chumbo derretido,
e eu riu alto demais nas ruas desertas cheias de lama,
porque a chuva chegou para me lavar os olhos.

O vento brinca com o meu cabelo encharcado,
e sinto, e espero, e desejo que me agarre as mãos
e me leva a passear no meio das nuvens negras.

segunda-feira, outubro 10, 2005

as primeiras chuvas

vieste com as primeiras chuvas
à minha procura nos bares
por saberes que me tinhas
deixado partido e perdido
no fundo de uma garrafa

vieste na busca estúpida
da recordação esquecida
do nosso amor passado
porque não tinhas já
quem te abraçasse

vieste nos meus braços
numa nuvem quente
de álcool e prazer
e choraste saciada
perdida no meu peito

mas depois veio o sol
e quando a luz chegou
lá te lembraste que
agora já não me amavas
e sumiste na manhã

e lá me arrastei eu
nem melhor nem pior
para o fundo da garrafa
até que voltem a cair
as primeiras chuvas

intimidade

resolvi contar a todos o bela que és
quando ficas assim meia acordada
nos meus braços
com o pijama de flanela azul
que a tua mãe te deu nas férias
e me deixas o braço dormente
com essa tua mania
de te esconderes da luz
aninhando-te no meu ombro
e me acordas com o perfume
dos teus cabelos soltos
e com o calor da tua respiração
a arrepiar-me o meu pescoço

o lobo

antes quebrar que dobrar
diziam-me os meus avós
quando eu era pequeno

quando entrei na escola
a professora batia-me
e eu não lhe dava razão

depois cresci e aprendi
a responder mordendo
à ignorância dos outros

muitas vezes quebrei
por erros meus
ou abandono dos outros

mas ainda guardo o orgulho
de mesmo quando a carneirada
foge, nunca ter dobrado

sexta-feira, outubro 07, 2005

o voto

não temos revoluções, temos cento e vinte canais
não temos cartas, temos mensagens em códigos
não temos torturas, temos grandes camadas
não temos censura, mas não dizemos nada
não me importa onde votam
não têm nada a ver onde eu voto
MAS VÃO VOTAR
PESSOAS MORRERAM PARA VOÇÊS O PODEREM FAZER
FAÇAM-NO
VOTEM
VOTEM
VOTEM

sábado, outubro 01, 2005

Amor em Prosa III

Só tu sabes o que enfrentas.
Acordas ao meu lado nos dias bons e adormecemos nos braços um do outro nos dias maus.
Mas eu sei o peso que carregas.
Só a mim a tua força não espanta.

Fazia vento nessa tarde, trazias o cabelo preso, e mas algumas madeixas soltas cortavam-te o rosto, como barras de uma prisão para os teus olhos.
Viste logo na minha cara o parecida que estavas com ela.
Soltaste os cabelos e olhaste-me nos olhos como que dizendo, eu sou eu, não sou ela.
Percebi.
Sentaste-te do outro lado da mesa, falando a todos com aquela voz de menina que sabes que me irrita, provavelmente ainda magoada por eu te ter achado parecida.
A conversa continuou por algumas horas até que, sem que ninguém se apercebesse, ou talvez tivessem percebido muito bem mas não quisessem mostrar, me mandas-te o olhar.
Já me enviaram esse olhar vezes suficientes para o reconhecer imediatamente.
O olhar "temos de falar".
Pedi logo uma bebida forte num copo grande, sem gelo, ajuda-me a pensar enquanto bebo, e a primeira coisa que pensei foi que asneira teria eu feito.
Às vezes sou mesmo cego.
O tempo passou e fomos ficando.

Era aquela hora, mesmo antes de jantar, em que os cafés ficam vazios e até os empregados desaparecem. Já estavamos sozinhos, mudos, a olhar o cinzeiro à cinco minutos e matei o resto da bebida de uma vez, para afogar o silêncio.
Disse logo, Então?
Hesitaste, talvez a pensar se o plano resultaria agora que o tinhas de pôr em prática. Mas tu és forte, e avançaste.
Eu não sou ela.
Eu sei, nunca disse que eras, e...
Cala-te.
A minha cara endureceu logo, sempre odiei que me mandassem calar, mas vi que tinhas ficado um pouco arrependida e resolvi poupar-te um pouco e soltar um meio sorriso.
Ainda pensas nela?
Sempre.
Baixaste os olhos, como se te pesasse cada palavra.
Ainda a amas?
Sim, respondi eu, depois de dois meses a dizer a mim próprio que não.
E nós?
Nós o quê?
Como ficamos?
Como quiseres.

O vento tinha parado, e as ruas estavam vazias, pairávamos entre o dia e a noite, naquele espaço de tempo em que a luz parece ser azulada. O silêncio entre nós era como se fosse uma almofada que crescia a cada segundo. Eu tinha feito o que devia. Tinha sido um idiota, facilitado tudo. A decisão era tua, ias decidir bem, ias mandar-me passear. Mínimo de sofrimento a longo prazo para os dois. A decisão correcta.

Eu quero.
A tua voz saiu devagar, cada sílaba uma certeza, uma pedra, uma torre, uma montanha.
Ouviste?
Ouviste?

Mas eu não ouvia, só via a tua mão pequena brincando com a chávena do café. Agarrei-a devagarinho, estava gelada e ficava mesmo pequena na minha, olhei-te e nada disse.

Vamos para casa?
A tua voz saiu meio rouca, como se no último momento hesitasses, talvez tivesses percebido mal, talvez eu estivesse a dizer adeus, a mandar-te embora.

Vamos.
A minha resposta ficou a pairar no ar como uma pena, como se o seu verdadeiro significado não fosse real, como se se tivesse perdido no momento. Levantámo-nos, a tua cara estava séria, como se a resposta não fosse o que estavas à espera, como se não soubesses o que fazer agora.

Só a meio caminho de casa me deste a mão, e nessa noite fui dormir em minha casa. Estava bem claro, tu não eras ela, mas também não eras a outra. Não vou mentir, sempre a vou amar. Ela fez parte de mim demasiado tempo para a apagar.
Sempre foste forte, lutas todos os dias por nós.
Quero que saibas...
Não...
Preciso que saibas que todas as noites quando me deito, e todas as manhãs quando acordo, o faço ao teu lado, que não estás em segundo lugar.
Podes posar esse peso que carregas.
Não quero acordar ao lado de mais ninguém.

1\10\2004 - 7.45 am

deixo-te este papel
na nossa almofada
só para dizer bom dia
porque se oiço a tua voz
ou te olho um segundo
não tenho coragem
para ir para o trabalho
Que poetas são esses
que procuram musas
perfeitas e raras
as mulheres-anjo
dos poetas antigos?

Que poetas são esses
imitadores de Fausto
que vendem a alma
pelo calor e amor de
uma mulher-demónio?

Que posso eu querer
que seja mais que tu
não sou poeta, sou homem
sou teu, meu amor
minha mulher-humana
na noite quente
ouvi
uma voz cristalina
e por ter medo
apertei-te junto a mim
só para acordar
na noite quente
sozinho
com os braços
e a cama
e o quarto
e eu
vazios
na noite quente